YOM KIPUR: O GRANDE DIA! – RABINO KALMAN PACKOUZ

321_história_1_1Intuitivamente, cada um de nós sabe que tem uma alma – aquela parte de nós que contém a nossa consciência e a vontade de fazer a coisa certa. A Torá relata: “D’us soprou em suas narinas (as de Adão, o primeiro ser humano) a alma da vida (Genesis 2:7)”. Ao percebermos que nossa essência é espiritual – e eterna – passaremos a enxergar as nossas vidas sob um prisma totalmente diferente. É verdade: precisamos nos preocupar com o nosso corpo e a nossa saúde e fazer todos os esforços possíveis para mantê-lo e preservá-lo, mas a parte mais importante é a alma, pois é o nosso verdadeiro eu. Yom Kipur trata da alma.

Durante o transcorrer do ano, trazemos méritos para a alma ao praticarmos bons atos ou a ‘sujamos’ através de atitudes e comportamentos errôneos. As 613 mitsvót (Mandamentos) da Torá estão aí para nos ajudar a desenvolver as nossas almas e aperfeiçoá-las. Desde o início do mês hebreu de Elul até Yom Kipur (40 dias) nós refletimos, revisamos o ano e as nossas interações com o Todo-Poderoso, bem como com os nossos amigos e familiares. Trabalhamos para reparar aquilo que precisa de conserto e o Yom Kipur é a culminação deste processo.

A Torá nos deu Mandamentos (mitsvót) especiais para Yom Kipur para nos ajudar a enxergar mais claramente que somos almas (e não apenas corpos) e para nos ajudar a relacionarmo-nos com a vida num nível mais espiritual, minimizando o controle do corpo sobre as nossas vidas. E quais são? Existem cinco mitsvót em Yom Kipur que estarão vigentes. Somos proibidos de: 1) comer e beber, 2) usar calçados de couro, 3) relacionamento conjugal, 4) passar cosméticos, cremes, desodorantes, etc, no corpo e 5) banhar-se por prazer.

Ao diminuir os prazeres físicos, damos proeminência à alma. A vida é uma constante batalha entre o Yétser Hatóv (o desejo de fazer as coisas certas, que é identificado com a alma) e o Yétser HaRá (a vontade de seguir os nossos desejos, que corresponde ao corpo). Nosso desafio na vida é ‘sincronizar’ o nosso corpo com o Yétser Hatóv. Uma analogia é feita no Talmud entre um cavalo (o corpo) e um cavaleiro (a alma). É sempre melhor o cavaleiro estar em cima do cavalo!

A tradição Judaica ensina que em Yom Kipur o Yétser HaRá, o desejo de seguir os próprios instintos, está neutralizado. Se seguirmos os nossos desejos ou instintos neste dia será apenas por força do hábito, pela rotina. Em Yom Kipur podemos mudar nossos hábitos! Eis aqui três perguntas para refletirmos em Yom Kipur, para nos ajudar a desenvolver um plano de vida:

1. Estou comendo para viver ou vivendo para comer?

2. Se estou comendo para viver, então quais são as minhas metas para a vida?

3. O que gostaríamos que escrevessem em nosso obituário ou em nossa lápide?

Yom Kipur, o Dia do Perdão, é o aniversário do dia em que Moshe trouxe as segundas Tábuas da Lei do Monte Sinai (as primeiras foram quebradas quando Moshe viu o povo idolatrando um bezerro de ouro). Isto significou que o Todo-Poderoso havia perdoado o Povo de Israel por terem feito idolatria. Dali em diante, este dia foi decretado como o dia para o perdão dos nossos erros. Entretanto, isto se refere às transgressões entre o homem e D’us. Transgressões entre o homem e o seu semelhante requerem que se corrija o erro e se peça perdão pelo prejuízo acarretado. Se alguém pegou algo de outra pessoa, não é suficiente arrepender-se e pedir desculpas a D’us; primeiro é necessário devolver o que foi pego e pedir desculpas à pessoa lesada, e somente então pedir desculpas a D’us por ter ofendido o seu semelhante.

Durante as orações falamos o Vidúi, uma confissão, e Al Hét, uma lista de transgressões entre o homem e D’us e o homem e seu semelhante. É interessante notar duas coisas: primeiro, as transgressões estão em ordem alfabética (em hebraico). Isto torna a lista bastante abrangente, além de permitir a inclusão de qualquer transgressão que se queira na letra apropriada.

Em segundo, o Vidúi e Al Hét estão no plural. Isto nos ensina que somos um povo ‘entrelaçado’, responsáveis uns pelos outros. Mesmo se não cometemos uma determinada ofensa, carregamos certa responsabilidade por aqueles que a fizeram – especialmente se pudéssemos ter evitado a tal transgressão.

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O Rambam, o conhecido rabino Maimônides (1135-1204), que viveu na Espanha e no Egito, ensinou que a vida de cada indivíduo é constantemente analisada sobre uma balança de pratos – como aquelas balanças antigas, onde a mercadoria era colocada em um prato e os pesos no outro – e que cada um de nós deve pensar antes de tomar toda e qualquer atitude, pois uma transgressão ou uma mitsvá (boa ação) podem inclinar a balança para o lado positivo ou o contrário.

Mais ainda explica o Rambam: “Cada comunidade, cada país e o próprio mundo são julgados desta maneira”. Portanto, a pessoa não deve pensar que está afetando apenas a sua ‘própria balança’, mas sim a humanidade inteira como um todo.

Em Yom Kipur nós lemos o Livro do Profeta Yoná (Jonas). Sua mensagem é que D’us aceita prontamente o arrependimento de qualquer um que deseje fazer Teshuvá, voltar ao Todo-Poderoso e ao caminho da Torá, da mesma forma que ele o fez com a população de Ninvê, a cidade mencionada no livro.

A propósito, se quiser se manter focado no fato de que você é uma alma e não apenas um corpo, treine-se a dizer: “Meu corpo está com fome” e não “Eu estou com fome”!


Uma Sugestão Antes de Yom Kipur…

O Rabino Moshe Meir Weiss escreveu um belo e encantador livro sobre as Festividades de Rosh Hashaná e Yom Kipur intitulado “On The Yamim Noraim” (disponível em http://www.judaicapress.com/Rabbi-Moshe-Meir-Weiss-on-the-Yamim-Noraim.html). Nele ele traz 40 dicas para pleitearmos um ano maravilhoso. Gostaria de compartilhar com vocês duas delas:

“Evitemos o nervosismo como a um incêndio. O Talmud relata as graves consequências para quem mantêm este hábito. Tenhamos em mente que a raiva é a maneira pela qual os tolos lidam com os problemas – como ensinou o rei Salomão (Eclesiastes 7:9): ‘Não seja rápido em enervar-se, pois a raiva repousa no colo dos tolos’”.

“Ninguém quer ser amigo de uma pessoa nervosa. Pior ainda, o cônjuge desta pessoa leva uma existência miserável e não enxerga a luz no final deste deplorável túnel. E estejamos especialmente vigilantes em não ficarmos bravos na véspera de Shabat (dica do dia 16 de Elul)”.

Por outro lado (dica do dia 6 de Tishrei): “Aprendamos a cumprimentar os outros genuinamente. Nós nos tornaremos pessoas queridas, pois todos gostam de um elogio. É uma maneira acessível e barata de incentivar, encorajar e fazer aflorar o que há de melhor nas pessoas. Há muitas maneiras de fazer isto: pessoalmente, ao telefone, numa carta, via email. Utilizemos todas elas. Exercitemos esta arte, especialmente com nossos pais, cônjuges e filhos”.

“Utilizemos a crítica de forma moderada, especialmente em casa. Críticas constantes são uma das vias mais frequentes para um ambiente infeliz. Tenhamos em mente que a crítica surge naturalmente quando sentimos que algo está errado ou faltando, mas elogios não são uma resposta automática. Precisamos nos treinar para conseguir expressá-los sabendo que são maravilhosos lubrificantes para todos os nossos relacionamentos”.

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Ao entrarmos em Yom Kipur na sinagoga e olharmos para a quantidade de orações, evitemos o caminho cômodo de nos entregar à nossa frustração de não entendermos o que está sendo falado. Eis


Algumas Ideias para Tornar o Serviço de Yom Kipur

Mais Significativo:

1 - Tenhamos satisfação! Já tomamos a importante decisão de comparecer à sinagoga. Não nos arrependamos, então!

2 - Não viemos para nos entreter e sim para conquistar algo a um nível espiritual: aproximarmo-nos do Todo-Poderoso, refletir, colocarmo-nos num caminho melhor na vida.

3 - Não culpe a cerimônia religiosa, o Rabino ou o livro de orações. Se desejar, prepare-se antecipadamente: leia o Mahzór (o livro com as orações especiais de Rosh HaShaná e Yom Kipur) para entender as palavras e as ideias contidas nestas orações. Façamos uma ‘listinha’ de atitudes ou comportamentos de que nos arrependemos, que gostaríamos de corrigir e que gostaríamos que o Todo-Poderoso perdoasse.

4 - Nossa mente parece ter duas pistas: uma pessoa pode falar e pensar sobre o que quer dizer simultaneamente, ela pode também ler e estar pensando sobre algo que não tem nada haver com a leitura, etc. Podemos também rezar e pensar num milhão de coisas diferentes. Ao lermos uma prece silenciosa, concentremo-nos naquilo que estamos lendo. Ao ouvir o Hazan (a pessoa que está conduzindo as orações), foquemos a nossa mente num pensamento espiritual: “Querido D’us, por favor, me ajude”, “Todo-Poderoso, perdoe-me”, “D’us, eu realmente acredito no Senhor”. Isto evitará que nossa mente comece a pensar sobre o resultado do jogo de futebol, as contas a pagar, reparos que precisam ser feitos em casa, etc. A maioria das pessoas não entende a liturgia em Hebraico que está sendo cantada. Entretanto, mesmo que nossas mentes não entendam, o coração e a alma se nutrem destas palavras, da melodia e da atmosfera. Relaxe e ouça a essência do que está sendo cantado.

5 - Façamos o melhor uso possível de nosso tempo. Leiamos os comentários ou a tradução das orações. Procure se sua sinagoga não tem algum material interessante sobre Yom Kipur, numa língua que você entenda. E se estiver realmente sofrendo, então apenas peça: “D’us, por favor, aceite meu sofrimento por estar na sinagoga como reparação por minhas transgressões!”

6 - Assista o nosso belo e inspirador filme de 1 minuto de duração (em inglês) intitulado ‘Sorry': clique em www.aish.com/movies/sorry.asp.


Um Pensamento Especial para Yom Kipur …

O Baal Shem Tov, Rabino Israel ben Eliezer (Ucrânia, 1698-1760) – fundador do Hassidismo – deixou muitos alunos que deram origem às diferentes Hassidut (dinastias hassídicas) que existem até hoje em dia: Chabad, Viznitz, Satmer, Gur, Sanz, etc. Uma destas dinastias originou-se na cidade de Bobowa, no sul da Polônia. Seu fundador foi o Rebe Shlomo Halberstam Z”TL (1847-1905). Seu filho, o Rebe Benzion Halberstam, foi assassinado pelos nazistas em 1941. Seu neto, que tinha o seu mesmo nome, conseguiu livrar muitos judeus das garras nazistas e depois da guerra estabeleceu-se em Nova York, restaurando a dinastia de Bobow à sua antiga grandeza.

O Rebe Shlomo Halberstam – conhecido por seu título de Bobower Rebe – era famoso por sua doçura, cavalheirismo e amabilidade. Certa vez ele foi consultar-se com um médico que, ao examiná-lo, perguntou-lhe quantos anos tinha. Quando o Rebe o informou que já passara dos 90 anos de idade, o médico ficou assombrado. Ele exclamou que nunca havia visto alguém tão idoso com uma pele tão lisa e uma espinha dorsal tão reta. Foi aí que o Rebe lhe deu a seguinte explicação: “Já vivo nos Estados Unidos há cinquenta anos. Durante todo este tempo posso dizer que nunca tive um inimigo. É por esta razão que o Todo-Poderoso me preservou com todo este vigor físico!”

O Bobover Rebe ensinava a todos os seus seguidores a terem repulsa por discussões e intrigas. Um de seus grandes trabalhos foi promover a tolerância e a procura pela paz. Que possamos ter o mérito de seguir nos passos deste homem incrível que demonstrou um tão surpreendente amor e carinho pelos demais durante todos os anos de sua vida.

Em nome de todos do Aish HaTorá, gostaria de desejar a você e a toda a sua família um belo e doce Ano Novo, com todas as bênçãos da Torá: boa saúde, vida longa e alegrias. Que o seu Yom Kipur seja significativo, importante e inspirador, e que possamos escutar apenas boas notícias!


Pensamento: “Ame o Próximo Como a Si Mesmo; Este É um Grande Princípio da Torá!” – (Talmud de Jerusalém – Nedarim 9:4)


RABINO KALMAN PACKOUZ – Do Aish Hatorá, é o criador do Meór Hashabat, boletim semanal com prédicas. Saiba mais.

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