A VERDADEIRA TRADUÇÃO – DR. TALI LOEWENTHAL | Glorinha Cohen

A VERDADEIRA TRADUÇÃO – DR. TALI LOEWENTHAL

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Em nossa sociedade multinacional, traduções são uma parte importante da vida. Idealmente, elas permitem que diferentes pessoas, com formas totalmente diferentes de pensamento, se conectem. Mas, serão as traduções sempre precisas?

A Parashá de Devarim (Devarim 1:1–3:22), que dá início ao quinto e último Livro da Torá, apresenta Moisés falando ao Povo Judeu, explicando o que a Torá significará em suas vidas quando eles entrarem na Terra de Israel. Os Sábios nos dizem que ele não falou para eles somente em Hebraico: ele também traduziu a Torá para os setenta idiomas das originalmente setenta nações do mundo [1].

Isto estava criando a possibilidade para futuras traduções da Torá, como em nossa época, comunicando aspectos do pensamento da Torá sobre assuntos muitos distintos: homens e mulheres com diferentes estilos de vida, com diferentes questionamentos. A Torá tem respostas para todos eles, mas estas precisam ser traduzidas de uma forma que eles possam entender.

Este é um processo sensível e potencialmente perigoso. Uma frase falsa na tradução poderia levar a pessoa para o caminho errado, com sérias conseqüências. De fato, os Sábios ficaram muito ansiosos sobre um acontecimento real na época do Segundo Templo, quando a Torá foi traduzida para o grego. O rei grego de Alexandria estava fascinado pela idéia da Torá e ordenou aos Sábios que produzissem uma tradução. Ele estava preocupado com que eles pudessem falsificar alguma coisa e, então, ele fez com que setenta e dois Sábios sentassem em cubículos separados, de forma a que cada um pudesse escrever uma versão independente. Milagrosamente, suas traduções coincidiram umas com as outras, mesmo em delicadas passagens que pudessem facilmente serem mal-entendidas [2].

Mesmo assim, os Sábios judeus posteriores, comentaram que o dia em que a Torá foi traduzida para o grego “foi tão difícil para o Povo Judeu como o dia quando o Bezerro de Ouro foi feito, pois a Torá não pode ser realmente traduzida” [3]. O que significa a comparação com o dia em que o Bezerro de Ouro foi feito?

Incidentalmente, a adoração do Bezerro de Ouro fez com que Moisés quebrasse as tábuas da Lei em 17 de Tammuz, lembrado recentemente com um jejum. Este dia dá início às Três Semanas, que culminam com o jejum de 9 de Av, data em que ambos os Templos foram destruídos.

Os Sábios estavam preocupados com uma falsa tradução da Torá. De uma certa forma, isto é exatamente o que o Bezerro de Ouro era: uma tradução falsa da espiritualidade. O povo queria algo espiritual que estivesse aqui, em nosso mundo inferior. Uma verdadeira tradução da santidade seria o Santuário, ou o Templo. De acordo com Nahmânides, o Bezerro de Ouro pretendia, na verdade, substituir a Moisés. O papel de Moisés era o de conectar o Povo Judeu com D’us. Uma falsa tradução deste papel foi o Bezerro de Ouro: um ídolo que somente separaria as pessoas de D’us.

Entretanto, finalmente, a tradução da Torá para o grego teve um efeito positivo: ela comunicou a Unicidade de D’us a todas as nações. Além disso, a tradução da Torá por Moisés para os setenta idiomas foi a chave para a comunicação da Torá em nossa própria época para os judeus de todo o mundo.

O efeito desta difusão da Torá será eventualmente a transformação do triste dia de 9 de Av em uma festividade alegre, com a reconstrução do Templo em Jerusalém. Isto, finalmente, será a verdadeira tradução, transformando tristeza em alegria.


 

Referências:

1. Devarim 1:5. Ver o comentário de Rashi

2. Talmud, Megilah 9-a. Em outro lugar, o número de Sábios é dado como 70 e também como 5.

3. Talmud, Sofrim 1:7.


 

Dr. Tali Loewenthal – Diretor do Chabad Research Unit, Londres

Tradutor: Moishe (a.k.a. Maurício) Klajnberg