PENSANDO NO FUTURO – RAV. EFRAIM BIRBOJM

RAV EFRAIM BIRBOJM


Em várias áreas da vida, focar apenas nos resultados imediatos sempre traz consequências desagradáveis.

“Daniel era uma pessoa muito correta. Mas ele sofria muito por seu pai ser um alcoólatra incorrigível. Certa vez Daniel estava passando por uma rua perto de sua casa e viu outro homem completamente bêbado, caído na sarjeta, em um estado degradante. Um grupo de jovens estava em volta do bêbado, atirando pedras e ofendendo-o com palavrões e insultos.

Quando Daniel viu aquela cena lamentável, correu para trazer seu pai, na esperança de que, vendo aquela cena, ele enxergaria a degradação que o alcoolismo causa. Quando chegaram ao local, o bêbado estava todo machucado, caído no esgoto, sujo e fedido, ainda com uma garrafa de vinho quase vazia na mão. O pai arregalou os olhos, aproximou-se do bêbado e disse:

- Ei, senhor. Onde você comprou este vinho? É de alguma loja aqui perto?

Daniel ficou chocado com a reação do pai. Então, desanimado por ter visto seu plano fracassar, falou:

- Pai, eu te trouxe aqui para você ver a humilhação pública que este homem está passando. Eu queria que você enxergasse como você fica quando está bêbado, e a vergonha que você causa para você mesmo e para toda a família. Eu imaginei que vendo este bêbado você ficaria chocado e abandonaria este seu terrível vício!

- Eu sei, meu querido filho – respondeu com tristeza o pai – mas o que eu posso fazer se o maior prazer da minha vida é beber?” (História retirada do Midrash – parte da Torá Oral)

É muito provável que esta pessoa saiba dos danos que a bebida causa para ele. Porém, os prazeres imediatos que ele consegue através da bebida o cegam e não o deixam enxergar os danos causados em sua vida a longo prazo. Em várias áreas da vida, focar apenas nos resultados imediatos sempre traz consequências desagradáveis.


O primeiro passo para um processo real de crescimento é desenvolver o reconhecimento intelectual de que qualquer reação instintiva que temos quando confrontados com uma dificuldade é, em última instância, prejudicial. A raiva, por exemplo, pode trazer o prazer momentâneo da vingança e do “não levar desaforo para casa”, mas a longo prazo pode gerar destruição e dor.

Na Parashá desta semana, D’us mandou Moshé ordenar ao faraó que libertasse o povo judeu. Após sucessivas recusas do faraó, D’us devastou o Egito com dez terríveis pragas, um duro castigo por todo o mal que os egípcios haviam causado ao povo judeu em mais de 210 anos de pesada escravidão.

Na segunda praga, D’us encheu o Egito de sapos. Os sapos entraram em todos os locais: nos quartos, nos banheiros, nas cozinhas e até mesmo dentro dos fornos dos egípcios, transformando a vida deles em um verdadeiro inferno. E assim diz o versículo sobre o momento em que a praga começou: “E estendeu Aharon sua mão sobre as águas do Egito, e o sapo subiu, e cobriu a terra do Egito” (Shemot 8:2).

Mas deste versículo surge uma pergunta: se a Torá nos ensina que os sapos infestaram todo o Egito, e não havia um único lugar onde não havia sapos, então provavelmente D’us mandou sobre os egípcios milhares de sapos. Por que a Torá diz que “o sapo subiu”, como se fosse apenas um único sapo?

Rashi, baseado em um Midrash (parte da Torá Oral), explica que originalmente apenas um único sapo saiu do rio Nilo e subiu em direção aos egípcios. Mas como um único sapo cobriu todo o Egito? Quando os egípcios viram o sapo, tentaram golpeá-lo para matá-lo. Mas ao invés de machucá-lo, o golpe fez com que o sapo se dividisse em vários sapos. Cada vez que um egípcio golpeava um dos sapos, ele se multiplicava. Assim, em pouco tempo, aquele único sapo se transformou nos milhares de sapos que infestaram todo o Egito.

Mas desta explicação do Rashi surge uma grande pergunta: quando os egípcios golpearam o primeiro sapo, viram que não apenas o sapo não tinha morrido, mas tinha se multiplicado. E assim com os outros sapos, quanto mais os egípcios batiam, mas eles se multiplicavam e se espalhavam pelo Egito. Então por que eles não pararam de bater nos sapos? Se racionalmente eles viram que o ato de bater só prejudicava, por que bateram até o Egito estar completamente tomado por sapos? Por que não aprenderam a lição?

Responde o Rav Yaacov Kanievski zt”l, mais conhecido como Staipler, que deste episódio dos sapos aprendemos uma importante lição de como a característica da raiva pode ser destrutiva para o ser humano e como nos faz agir como tontos no nosso cotidiano.

Normalmente, quando uma pessoa é insultada, ela fica dominada pela raiva e se vinga, “devolvendo” as ofensas ao agressor. O agressor então aumenta o tom dos insultos, e o agredido sente novamente a necessidade de pagar na mesma moeda, até que torna-se um círculo vicioso de retaliações sem sentido, com consequências desastrosas para todos os envolvidos.

Foi neste círculo vicioso da raiva que os egípcios entraram. Quando eles foram ameaçados pelo sapo, instintivamente reagiram golpeando-o. Quando o sapo se multiplicou, a fúria dos egípcios se acendeu e eles quiseram se vingar dos sapos, golpeando-os novamente. Mesmo que falharam outra vez, continuaram com sua atitude agressiva, golpeando os sapos sem parar, até que todo o Egito estava imerso em uma praga incontrolável. Daqui vemos o quanto a raiva nos causa danos, e quanto ela nos faz agir de maneira autodestrutiva.

Diz o Rav Yonathan Guefen que precisamos nos aprofundar um pouco mais na característica da raiva para entender por que ela leva a pessoa a agir de forma tão tola, como agiram os egípcios ao continuamente golpear os sapos que não paravam de se multiplicar. Quando uma pessoa é agredida e reage, ela sente um prazer imediato de ter devolvido as ofensas ao agressor, que ousou falar com ela de maneira tão rude. Mas depois desta satisfação momentânea, a pessoa sente, a longo prazo, um terrível remorso, acompanhado de outros sentimentos negativos que normalmente sentimos após uma discussão ou briga. Segundo a lógica, a pessoa deveria aprender a lição sobre os danos a longo prazo que sua reação violenta causou a si mesma e deveria utilizar este aprendizado para se controlar da próxima vez em que a mesma situação estressante ocorresse. Mas sabemos que não é isto o que ocorre, pois constantemente caímos na mesma armadilha. Entramos neste círculo vicioso de “agressão – reação impensada – remorso”, do qual não conseguimos sair.

A fonte deste problema que prejudica a todos nós é que focamos sempre nos resultados a curto prazo, ao invés de levar em consideração as consequências a longo prazo. É necessário muito esforço e investimento no autoaprimoramento para mudar esta forma de comportamento destrutiva. Antes de tudo é necessário mudar a forma de como vemos a vida, pois uma das principais estratégias do nosso Yetzer Hará (má inclinação) para nos vencer é nos cegar em relação aos efeitos a longo prazo dos nossos atos. Com esta arma, ele consegue atrapalhar muito nosso trabalho espiritual. Pode parecer evidente em um bêbado, que prefere o prazer momentâneo da bebida e “se esquece” das consequências destrutivas de seu ato. Porém, isto ocorre em muitas outras áreas de nossas vidas, com consequências até mesmo mais devastadoras do que o álcool. Isto se aplica a todos os vícios e todos os desejos impulsivos do ser humano, cujo ponto em comum é a falta de autocontrole. E qualquer um que queira realmente atingir seu potencial deve levar isto em consideração e ter a vontade de mudar.

O primeiro passo para um processo real de crescimento é desenvolver o reconhecimento intelectual de que qualquer reação instintiva que temos quando confrontados com uma dificuldade é, em última instância, prejudicial. A raiva, por exemplo, pode trazer o prazer momentâneo da vingança e do “não levar desaforo para casa”, mas a longo prazo pode gerar destruição e dor. Uma pessoa que grita com seu cônjuge ou com seus filhos de maneira impensada pode ter benefícios por alguns instantes, pode “ganhar a discussão” naquele momento, mas certamente a consequência futura será a destruição dos relacionamentos familiares, um preço muito alto por aquele pequeno benefício momentâneo.

Isto fica óbvio ao acompanharmos as notícias dos jornais. Quantas brigas de trânsito acabam em tragédias, que poderiam ter sido evitadas com uma reação mais calma de uma das partes? Acabamos de acompanhar o caso de uma acalorada discussão por causa da diferença de sete reais na conta de um restaurante que terminou em um banal assassinato de um jovem, recém-formado, que tinha um futuro inteiro pela frente. Por causa de discussões sem sentido muitas vidas já se perderam. A regra é que fogo não se apaga com fogo, se apaga com água. Assim nos ensina Shlomo Hamelech (Rei Salomão): “Uma fala tranquila afasta a raiva, mas uma fala dura desperta a raiva” (Mishlei 15:1).

O segundo passo é refletir sobre possíveis situações onde testes podem ocorrer, para que possamos estar intelectualmente preparados para reagir de maneira positiva, sem que o “efeito surpresa” nos leve a reações impensadas. Com isto, a pessoa conseguirá, mesmo sendo insultada, frear suas reações naturais e tolerar a situação adversa com calma, baseada no reconhecimento racional de que gritar e insultar de volta somente agravará a situação. Um exemplo é quando estamos no trânsito. Temos que saber que passar horas no volante estressa qualquer pessoa, e responder a um insulto ou a uma buzinada somente fará ferver o sangue. Portanto, o correto é sair de carro mentalizando que você encontrará pessoas irritadas e mal-humoradas no caminho. Assim será mais fácil manter a calma durante uma situação de stress.

Manter a tranquilidade durante um insulto não é algo fácil de ser alcançado, mas com o tempo, à medida que a pessoa internaliza este conceito, vai adquirindo o autocontrole necessário para reagir às dificuldades com tranquilidade e moderação. Devemos aprender dos egípcios, que golpeavam sem parar os sapos, que as consequências da raiva são sempre negativas. Assim poderemos refletir e aprender a, da próxima vez, “esfriar” nossa raiva antes de tomar qualquer atitude.


RAV EFRAIM BIRBOJM – Mestre em Engenharia pela Escola Politécnica da USP. Saiba mais…