﻿{"id":16186,"date":"2014-06-21T22:44:37","date_gmt":"2014-06-21T22:44:37","guid":{"rendered":"http:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=16186"},"modified":"2014-06-21T23:43:49","modified_gmt":"2014-06-21T23:43:49","slug":"bairro-de-judeus-por-raquel-naveira-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=16186","title":{"rendered":"BAIRRO DE JUDEUS \u2013 POR RAQUEL NAVEIRA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone  wp-image-16187\" alt=\"foto raquel estudio 3\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/foto-raquel-estudio-3.jpg\" width=\"218\" height=\"330\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/foto-raquel-estudio-3.jpg 273w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/foto-raquel-estudio-3-89x135.jpg 89w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/foto-raquel-estudio-3-165x250.jpg 165w\" sizes=\"(max-width: 218px) 100vw, 218px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como \u00e9 lindo ser judeu. \u00c9 ato de resist\u00eancia, busca de identidade, vis\u00e3o de uma obra, sede de imortalidade da alma. Quando Davi feriu Golias, o fraco se imp\u00f4s ao mais forte. Deus ao lado dos fracos: que grande novidade para um mundo acostumado com a for\u00e7a bruta, a viol\u00eancia ou com a esperteza sagaz dos lobos e das raposas.<\/p>\n<hr style=\"height: 1px; border-width: 1px; border-style: solid; border-color: #CCCCCC; color: #ffffff;\" noshade=\"noshade\" size=\"1\" \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vim morar em S\u00e3o Paulo num bairro de judeus. Gosto de v\u00ea-los na rua, os homens com suas barbas longas, capotes pretos, fa\u00e7a frio ou calor, sol ou chuva. As mulheres de saias abaixo dos joelhos, mangas compridas, golas altas, meias, de m\u00e3os dadas com os filhos. Os homens usam chap\u00e9us de feltro ou kip\u00e1s, pequenas toucas em forma de circunfer\u00eancia, que representam respeito no momento das ora\u00e7\u00f5es e a certeza de que h\u00e1 algu\u00e9m acima de n\u00f3s. As mulheres cobrem a cabe\u00e7a com len\u00e7os de seda ou perucas, pois s\u00f3 os maridos podem ver seus cabelos soltos na intimidade. Parecem sa\u00eddos de um livro de hist\u00f3ria ou terem chegado recentemente do Leste Europeu. H\u00e1 uma aura de dignidade e temor de Deus ao redor deles, carregando no rosto e nas vestes as marcas de sua f\u00e9, de sua disciplinada devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cada esquina, uma sinagoga. Colunas altas, soleiras de m\u00e1rmore negro. Tudo muito fechado, mas consigo imaginar a arca sagrada, a luz entrando pelos vitrais, projetando-se sobre o altar iluminado pelo candelabro de sete velas, o menor\u00e1. Posso ver o rabino desdobrando os rolos do Tor\u00e1, espalhando as b\u00ean\u00e7\u00e3os divinas e os clamores ressoando desde o Muro das Lamenta\u00e7\u00f5es at\u00e9 esta terra de uma Am\u00e9rica distante. Posso sentir a energia que se potencializa na hora em que o sol se p\u00f5e e salpicam no horizonte as primeiras estrelas, t\u00edmidas no c\u00e9u desta cidade cinzenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos supermercados e sacol\u00f5es da regi\u00e3o, vendem-se produtos kosher, como carne salgada sem sangue, selecionada, abatida e preparada de acordo com regras espec\u00edficas. Os animais, por exemplo, n\u00e3o devem sentir dor na hora do sacrif\u00edcio. Os comerciantes colocam faixas, enfeites e frases saudando as festas judaicas como o YomKippur, dia do Perd\u00e3o; o Chanuc\u00e1, Festival das Luzes e o Purim, Festival das Sortes. S\u00e3o celebra\u00e7\u00f5es de uma tradi\u00e7\u00e3o de mais de cinco mil anos. As compras ir\u00e3o para a mesa judaica que \u00e9 rica e de refor\u00e7ados alicerces. Sobre ela as couves, as frutas, os vinhos, as hortali\u00e7as, as especiarias, as castanhas, os molhos, os peixes com escamas e o p\u00e3o, sem fermento e do trigo mais fino e branco. Ao redor da mesa contam-se fatos not\u00e1veis ocorridos na vida do povo judeu; transmitem-se conhecimentos; dividem-se alegrias, tristezas, cren\u00e7as e utopias. \u00c9 o momento tamb\u00e9m dos questionamentos, das perguntas feitas para se renovar sempre o pacto de um la\u00e7o que \u00e9 ao mesmo tempo fam\u00edlia, religi\u00e3o, filosofia, cultura e estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como \u00e9 lindo ser judeu. \u00c9 ato de resist\u00eancia, busca de identidade, vis\u00e3o de uma obra, sede de imortalidade da alma. Quando Davi feriu Golias, o fraco se imp\u00f4s ao mais forte. Deus ao lado dos fracos: que grande novidade para um mundo acostumado com a for\u00e7a bruta, a viol\u00eancia ou com a esperteza sagaz dos lobos e das raposas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando entrei naquela rua de pr\u00e9dios altos e \u00e1rvores verdes que d\u00e3o na sinagoga, que poderia ser o pr\u00f3prio Monte Sinai perto do espig\u00e3o da Paulista, deparei-me com um judeu de camisa branca e kip\u00e1, que ia atr\u00e1s do filho de uns tr\u00eas anos, loirinho, j\u00e1 tamb\u00e9m de kip\u00e1 na cabe\u00e7a, esfor\u00e7ando-se em pedalar um triciclo. No meio da quadra, o menino voltou-se e gritou: \u201c_Aba, aba.\u201d Fui colhida por aquele grito, \u201cAba\u201d, \u201cPapai\u201d em hebraico. Que forma carinhosa de chamar o pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcos em seu evangelho registra que Jesus, ao orar a Deus, pouco antes de sua morte, disse: \u201c_Aba, Pai, tudo te \u00e9 poss\u00edvel, afasta de mim este c\u00e1lice. Todavia n\u00e3o seja o que eu quero, mas o que tu queres.\u201d Que fervoroso apelo, como Jesus foi obediente ao seu Pai, marchando para sua morte de cruz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O menino repetiu: \u201c_Aba, aba.\u201d A emo\u00e7\u00e3o tomou conta de mim e me cobriu como um talit, aquele xale de franjas.<\/p>\n<hr style=\"height: 1px; border-width: 1px; border-style: solid; border-color: #CCCCCC; color: #ffffff;\" noshade=\"noshade\" size=\"1\" \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAQUEL NAVEIRA<\/strong> nasceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no dia 23 de setembro de 1957. Formou-se em Direito e Letras pela UCDB\/MS, onde exerceu o magist\u00e9rio superior, desde 1987 at\u00e9 2006, quando se aposentou. Doutora em L\u00edngua e Literatura Francesas pela Universidade de Nancy, Fran\u00e7a. Mestre em Comunica\u00e7\u00e3o e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie\/SP. Apresentadora do programa liter\u00e1rio \u201cProsa e Verso\u201d pela TV UCDB (2000-2006) e do \u201cFlores e Livros\u201d pela UP TV e pela ORKUT TV. Pertence \u00e0 Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e ao PEN CLUBE DO BRASIL. Diretora da Uni\u00e3o Brasileira de Escritores\/Se\u00e7\u00e3o SP. \u00c9 palestrante, d\u00e1 cursos de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o e oficinas liter\u00e1rias. Escreveu v\u00e1rios livros, entre eles: ABADIA (poemas, editora Imago,1996) e CASA DE TECLA (poemas, editora Escrituras, 1999), finalistas do Pr\u00eamio Jabuti de Poesia, da CBL. Os mais recentes s\u00e3o o livro de ensaios LITERATURA E DROGAS-E OUTROS ENSAIOS (Nova Raz\u00e3o Cultural, 2007) , o de cr\u00f4nicas CAMINHOS DE BICICLETA (Mir\u00f3, 2010) e o de poemas SANGUE PORTUGU\u00caS: ra\u00edzes, forma\u00e7\u00e3o e lusofonia (Arte &amp; Ci\u00eancia, 2012) e QUARTO DE ARTISTA (\u00cdbis Libris, 2013).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Email: <a href=\"raquelnaveira@oi.com.br\">raquelnaveira@oi.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como \u00e9 lindo ser judeu. \u00c9 ato de resist\u00eancia, busca de identidade, vis\u00e3o de uma obra, sede de imortalidade da alma. Quando Davi feriu Golias, o fraco se imp\u00f4s ao mais forte. 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