﻿{"id":21529,"date":"2015-02-14T19:06:43","date_gmt":"2015-02-14T19:06:43","guid":{"rendered":"http:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=21529"},"modified":"2015-02-14T19:06:43","modified_gmt":"2015-02-14T19:06:43","slug":"um-olhar-sobre-a-vida-aos-80-anos-por-fernando-henrique-cardoso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=21529","title":{"rendered":"UM OLHAR SOBRE A VIDA AOS 80 ANOS \u2013 POR FERNANDO HENRIQUE CARDOSO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21530\" alt=\"234_viver_2_1\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/234_viver_2_1.jpg\" width=\"197\" height=\"256\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/234_viver_2_1.jpg 197w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/234_viver_2_1-103x135.jpg 103w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/234_viver_2_1-192x250.jpg 192w\" sizes=\"(max-width: 197px) 100vw, 197px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando se vai ficando velho e, portanto, mais maduro, voc\u00ea tem que valorizar mais a felicidade, a amizade, essas coisas que, no come\u00e7o da vida, parecem secund\u00e1rias. Voc\u00ea continua querendo mudar o mundo, mas sabe que as pessoas contam\u201d.<\/p>\n<hr style=\"height: 1px; border-width: 1px; border-style: solid; border-color: #CCCCCC; color: #ffffff;\" noshade=\"noshade\" size=\"1\" \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OS QUE EST\u00c3O VIVOS E OS MORTOS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fundo estamos condenados ao mist\u00e9rio. As pessoas dizem, eu gostaria de sobreviver al\u00e9m da minha materialidade&#8230; Eu n\u00e3o acredito que v\u00e1 sobreviver, mas, pelo menos na mem\u00f3ria dos outros, voc\u00ea sobrevive.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivi intensamente isso com a perda da Ruth. Olhando para tr\u00e1s, \u00e9 claro que ela estava com um problema grave de sa\u00fade. Apesar disso fizemos uma viagem longa e fascinante \u00e0 China. \u00c9 como se o problema n\u00e3o existisse. A gente sabe que um dia vai morrer e no entanto vive como se fosse eterno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois da morte de Ruth e, mais recentemente, de outros amigos, como Juarez Brand\u00e3o Lopes e Paulo Renato, eu me habituei a conversar com os que morreram. N\u00e3o estou delirando. Os mortos queridos est\u00e3o vivos dentro da gente. A mem\u00f3ria que temos deles \u00e9 real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 medida que vamos ficando mais velhos, convivemos cada vez mais com a mem\u00f3ria. Conversamos com os mortos. Por interm\u00e9dio da Ruth, passei a lembrar mais dos outros que morreram, dos meus pais, meus av\u00f3s. Os que morreram e nos foram queridos continuam a nos influenciar. O que n\u00e3o h\u00e1 mais \u00e9 o contr\u00e1rio. N\u00e3o podemos mais influenci\u00e1-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o penso na morte. Sei que ela vem. J\u00e1 senti a morte de perto. N\u00e3o em mim. Senti a morte de perto nos meus. E procuro conviver com ela atrav\u00e9s da mem\u00f3ria<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os que se foram continuam na minha mem\u00f3ria e eu converso com eles. Minha m\u00e3e, meu pai, minha av\u00f3, minha mulher, meu irm\u00e3o, meus amigos que se foram s\u00e3o meus referentes \u00edntimos. Tudo isso constitui uma comunidade \u2013 posso usar a palavra \u2013 espiritual, que transcende o dia a dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, a morte existe, ela \u00e9 parte da vida, \u00e9 angustiante, n\u00e3o se sabe nunca quando ela vai ocorrer. Eu s\u00f3 pe\u00e7o que ela seja indolor. N\u00e3o sei se ser\u00e1. Ningu\u00e9m sabe como e quando vai morrer. Pessoalmente, tenho mais medo do sofrimento que leva \u00e0 morte do que da morte propriamente dita. Se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter a pretens\u00e3o ut\u00f3pica de sobreviver como pessoa f\u00edsica, \u00e9 poss\u00edvel ter a aspira\u00e7\u00e3o de viver na mem\u00f3ria, come\u00e7ando por conviver com a mem\u00f3ria dos que se foram. Isso tem alguma materialidade? Nenhuma. Isso \u00e9 cient\u00edfico? N\u00e3o \u00e9. Mas \u00e9 uma maneira de voc\u00ea acalmar sua ang\u00fastia existencial.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&#8220;Os mortos queridos vivem dentro de n\u00f3s. Os que morreram continuam a nos influenciar. N\u00f3s \u00e9 que n\u00e3o podemos mais influenci\u00e1-los.&#8221;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>SENTIDO DA VIDA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 80 anos creio que cada um cria o sentido de sua vida. N\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico sentido. Isso \u00e9 muito dram\u00e1tico. Cada um tem que tentar criar o seu sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse ponto os existencialistas t\u00eam raz\u00e3o. \u00c9 muito angustiante. Tem uma dimens\u00e3o da exist\u00eancia que \u00e9 inexplic\u00e1vel. Ou voc\u00ea consegue conviver com isso no dia a dia sem apelar para a transcend\u00eancia \u2013 digo no dia a dia porque, de vez em quando, todo mundo apela&#8230; \u2013 ou voc\u00ea tem que criar algum sentido para justificar, se n\u00e3o explicar, o sentido das coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu criei, imagino que sim. Achei que devia ter uma a\u00e7\u00e3o intelectual para entender e para mudar o Brasil. Na verdade \u00e9 isso que eu queria, mudar as condi\u00e7\u00f5es de vida no Brasil. A literatura me influenciou muito, sobretudo a nordestina, Jos\u00e9 Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado. Depois as Vinhas da Ira, de John Steinbeck, sobre a revolta social na Am\u00e9rica da Grande Depress\u00e3o. Ou mesmo Roger Martin Du Gard com Os Thibault e, j\u00e1 noutra dire\u00e7\u00e3o, Andr\u00e9 Gide e, tamb\u00e9m, a metaf\u00edsica de A montanha m\u00e1gica, de Thomas Mann. Esse caminho da literatura me contagiou e me levou \u00e0 pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passei a vida inteira tentando entender melhor a sociedade, os mecanismos que podem levar a uma sociedade mais decente, como digo hoje, n\u00e3o apenas mais rica, e sim mais decente. Tem que haver, \u00e9 claro, algum grau de riqueza, sen\u00e3o a mis\u00e9ria, a escassez, predomina e ent\u00e3o n\u00e3o se tem nem liberdade nem igualdade. A escassez \u00e9 a luta, a guerra pela sobreviv\u00eancia. Tem que haver um certo bem-estar material. Al\u00e9m disso, por\u00e9m, \u00e9 preciso criar uma condi\u00e7\u00e3o humana de dignidade, de dec\u00eancia, de aceita\u00e7\u00e3o e respeito pelo outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tentei entender isso do ponto de vista intelectual e fazer a mesma coisa do ponto de vista pol\u00edtico. Ent\u00e3o acho que dei um certo sentido \u00e0 minha vida. Esse sentido tem que ser dado por cada um. N\u00e3o est\u00e1 dado que todos tenham que ter o mesmo sentido e haver\u00e1 quem nunca encontre sentido na vida e fique batendo cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&#8220;Quando se vai ficando velho e, portanto, mais maduro, voc\u00ea tem que valorizar mais a felicidade, a amizade, essas coisas que, no come\u00e7o da vida, parecem secund\u00e1rias.&#8221;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa ang\u00fastia vai ser permanente. N\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o. \u00c9 parte da condi\u00e7\u00e3o humana. N\u00e3o sabemos de onde viemos, n\u00e3o sabemos para onde vamos. Tampouco sabemos por que e para que estamos aqui. O que n\u00e3o podemos \u00e9 deixar que essa ang\u00fastia da morte e da aus\u00eancia de um destino claro nos paralise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada um tem que inventar sua resposta. Cada um tem que dar sentido \u00e0 sua vida. Ela n\u00e3o tem sentido em si. Esse sentido n\u00e3o est\u00e1 dado. Cada um tem que construir o seu sentido. E vai sofrer para encontrar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma resposta est\u00e1 no pr\u00f3prio conv\u00edvio com os outros. Inclusive com os mortos. Talvez isso arrefe\u00e7a um pouco a ang\u00fastia. N\u00e3o se vive sem amizade, sem amor, sem adversidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando se vai ficando velho e, portanto, mais maduro, voc\u00ea tem que valorizar mais a felicidade, a amizade, essas coisas que, no come\u00e7o da vida, parecem secund\u00e1rias. Voc\u00ea continua querendo mudar o mundo, mas sabe que as pessoas contam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fonte: CARDOSO, Fernando Henrique Cardoso \u2013 Livro: \u201cA soma e o resto: um olhar sobre a vida aos 80 anos.\u201d<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Quando se vai ficando velho e, portanto, mais maduro, voc\u00ea tem que valorizar mais a felicidade, a amizade, essas coisas que, no come\u00e7o da vida, parecem secund\u00e1rias. Voc\u00ea continua querendo mudar o mundo, mas sabe que as pessoas contam\u201d. OS QUE EST\u00c3O VIVOS E OS MORTOS No fundo estamos condenados ao mist\u00e9rio. 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