﻿{"id":24355,"date":"2015-07-11T21:10:48","date_gmt":"2015-07-11T21:10:48","guid":{"rendered":"http:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=24355"},"modified":"2015-07-11T21:10:48","modified_gmt":"2015-07-11T21:10:48","slug":"papo-de-cozinha-com-breno-lerner-22","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=24355","title":{"rendered":"PAPO DE COZINHA COM BRENO LERNER"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/144_SABORES_1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone  wp-image-24357\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/144_SABORES_1-211x135.jpg\" alt=\"144_SABORES_1\" width=\"303\" height=\"194\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/144_SABORES_1-211x135.jpg 211w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/144_SABORES_1-142x90.jpg 142w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/144_SABORES_1.jpg 333w\" sizes=\"(max-width: 303px) 100vw, 303px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Pierre Poivre, o libertador das especiarias<\/span> &#8211; A incr\u00edvel hist\u00f3ria deste verdadeiro Indiana Jones do s\u00e9culo XVIII, a quem a culin\u00e1ria ocidental muito deve e pouco sabe. O caso aqui \u00e9 de predestina\u00e7\u00e3o mesmo, destino tra\u00e7ado pelo nome, ou melhor, pelo sobrenome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jovem Pierre ingressa, aos 9 anos, nos Irm\u00e3os Mission\u00e1rios de Saint Joseph, na colina de Croix-Rousse , uma ordem cuja voca\u00e7\u00e3o era a evangeliza\u00e7\u00e3o dos povos ditos pag\u00e3os. Aos 20 anos vamos encontr\u00e1-lo como novi\u00e7o, sendo treinado para o trabalho mission\u00e1rio no Semin\u00e1rio das Missions \u00c9trangers. Aos 21 , embarca para sua primeira miss\u00e3o com destino \u00e1 China. Na longu\u00edssima viagem trava contato com o terror da \u00e9poca, o escorbuto ( a falta de vitaminas no organismo, principalmente a vitamina C) que chegava a dizimar 2\/3 da tripula\u00e7\u00e3o de um navio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mal chega a Guangzhou (Cant\u00e3o), \u00e9 feito prisioneiro junto com todos os mission\u00e1rios e poucos tripulantes que sobraram da viagem. Utiliza o tempo na pris\u00e3o par aprender o chin\u00eas e acaba virando o interlocutor dos prisioneiros junto \u00e0s autoridades que o libertam. Viaja a Macau, a Conchinchina (Cambodja) e Fai Fo (Vietn\u00e3), tentando realizar sua obra mission\u00e1ria mas, logo ele e seus superiores descobrem que seu maior interesse est\u00e1 nas plantas e alimentos e n\u00e3o nas pessoas e sua convers\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um de seus primeiros escritos fala das maravilhas do Arroz de Montanha, uma esp\u00e9cie historicamente plantada no Oriente e que demandava muito menos irriga\u00e7\u00e3o que o arroz do brejo. Quantas pessoas de nossas col\u00f4nias n\u00e3o poderiam ser alimentadas desta forma dizia o jovem Pierre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas seu verdadeiro fasc\u00ednio era pelas especiarias. Por que n\u00e3o cultiv\u00e1-las em nossas pr\u00f3prias col\u00f4nias?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta era \u00f3bvia. Porque holandeses e portugueses, detentores do monop\u00f3lio da pimenta, da canela e da noz moscada, guardavam-nas como seu maior tesouro. O roubo de uma semente ou uma muda era punido com a morte. A tentativa de plantar qualquer esp\u00e9cie era imediatamente suprimida por invas\u00e3o militar, fosse onde fosse. Que o digam os judeus Cochins , da costa Malabar na \u00cdndia, que quase foram dizimados totalmente pelos portugueses por tentar comercializar a pimenta do reino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sementes exportadas eram mergulhadas ou em \u00e1gua fervente ou em cal, para perder seu poder de germinar . Como a cal \u00e9 um poderoso inseticida e bactericida , a noz moscada at\u00e9 hoje recebe este tratamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem, seja como for, os superiores de Pierre, decepcionados com seu trabalho, enviam-no de volta a Paris, exclu\u00eddo da Congrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A exemplo de Lineus, Joussieu e Darwin, a humanidade perdeu um religioso e ganhou um bot\u00e2nico naturalista. . .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em maio de 1754, sai em expedi\u00e7\u00e3o oficial da Cia das \u00edndias, para as Ilhas Molucas. A hist\u00f3ria se repete, escorbuto, ataques de piratas, rebeli\u00e3o \u00e0 bordo por falta de alimentos e para culminar, s\u00e3o impedidos de aportar nas Molucas e acabam indo para no Timor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali a sorte sorri a Pierre que de l\u00e1 sai com 3.000 sementes de noz moscada , presente da mulher do potentado local ( sempre as mulheres, lembram da hist\u00f3ria de Melo Palheta e nosso caf\u00e9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1758, com 40 anos volta para a Fran\u00e7a, um tanto desiludido e instala-se em sua cidade natal. \u00c9 eleito para a Academia de Ci\u00eancias e ganha t\u00edtulo de nobreza e 20.000 libras de prata do rei Luis XV por servi\u00e7os prestados \u00e0 p\u00e1tria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a fal\u00eancia da Cia das \u00cdndias em 1766, suas terras revertem para o rei que convida Pierre para ser o intendente das Ilhas Maur\u00edcio. No ano seguinte l\u00e1 segue nosso her\u00f3i, agora com sua esposa , Fran\u00e7oise Robin, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s suas amadas Ilhas. T\u00e3o logo chega, aparelha as naus Vigilant e \u00c9toile du Matin para uma expedi\u00e7\u00e3o as Molucas, \u00e0 ca\u00e7a de especiarias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 custa de tiros, batalhas, suborno e negocia\u00e7\u00f5es, a expedi\u00e7\u00e3o volta repleta de mudas e o poder luso-holand\u00eas \u00e9 definitivamente quebrado em 1772, quando os navios Ile de France e N\u00e9cessaire voltam de sua expedi\u00e7\u00f5es com milhares de mudas de moscateiro, pimenta, cravo e canela. Por prud\u00eancia as mudas s\u00e3o plantadas localmente, mas tamb\u00e9m nas Ilhas Reuni\u00e3o, Seychelles a nas Guianas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1778, uma linda cerim\u00f4nia, seguida de almo\u00e7o &#8221; para todos os habitantes da ilha&#8221;, segundo relato da \u00e9poca, marcou a colheita da primeira noz moscada francesa, que foi levada, em m\u00e3os, pelo governador ao rei Luis XVI.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante o tempo que l\u00e1 passou, Poivre criou o jardim das Toranjas, Jardin des Pamplemousses, uma verdadeira obra prima, que existe at\u00e9 hoje e \u00e9 considerado dos mais belos do mundo e principal atra\u00e7\u00e3o da ilha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esp\u00e9cimes do mundo inteiro foram colhidas e para l\u00e1 levadas, sem esquecer de nossa mandioca e um lago com a amaz\u00f4nica Vit\u00f3ria-R\u00e9gia. E a rela\u00e7\u00e3o com o Brasil n\u00e3o para por a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1808, uma fragata comandada pelo navegador portugu\u00eas Luiz de Abreu Vieira e Silva naufragou nas costa de Goa. Alguns sobreviventes foram salvos pelos ingleses e levados para a \u00c1frica do Sul, de onde embarcaram para o Brasil. Novamente a hist\u00f3ria se repete e s\u00e3o atacados pela frota francesa que os leva prisioneiros nas Ilhas Maur\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bravo capit\u00e3o Vieira e Silva n\u00e3o s\u00f3 consegue fugir como tamb\u00e9m roubar do lindo jardim 4 moscadeiras, 4 abacateiros,2 p\u00e9s de lichia, 10 mudas de grape fruit ( toranja), 3 caneleiras e sementes de sagu ( n\u00e3o \u00e9 o que comemos, aquele \u00e9 feito de mandioca), ac\u00e1cia,fruta-p\u00e3o e areca ( que ficou entre n\u00f3s conhecida como Palmeira Imperial, por ter sido plantadas por D Jo\u00e3o VI).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabemos dos n\u00fameros exatos porque a exagerada burocracia portuguesa a tudo registrava, o que nos leva a refletir que herdamos muito deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem, filosofia barata \u00e0 parte, o destemido capit\u00e3o chega ao Rio e doa suas preciosas mudas ao rei Dom Jo\u00e3o VI, que com elas iniciou o Real Horto, depois chamado de Real Jardim Bot\u00e2nico do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltemos pois ao nosso her\u00f3i, que em 1772 volta a Lyon com mulher e filhas e ap\u00f3s uma vida honrada, aventurosa e prof\u00edcua, morre aos 66 anos, em 1786. Em suas mem\u00f3rias p\u00f3stumas, ditadas por sua mulher ao amigo e confidente Pierre Samuel-Dupont, ele \u00e9 descrito como um cientista aventureiro com grande respeito \u00e0 natureza e amor \u00e0 humanidade, tendo inclusive, no seu per\u00edodo de intendente, editado as primeiras leis sobre conserva\u00e7\u00e3o da natureza que se conhece e, principalmente, abolido a escravid\u00e3o nas ilhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando cada um dos leitores for saborear um bom doce com cravo e canela, um belo cozido com noz moscada , ou ainda um belo assado com louro, endro e mostarda , lembrem de agradecer ao bom e velho Pierre Poivre, nosso her\u00f3i desta edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BRENO LERNER<\/strong> &#8211; Superintendente da Editora Melhoramentos, tem v\u00e1rios livros sobre culin\u00e1ria publicados. <a title=\"BRENO LERNER\" href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=5093\">Saiba mais.<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pierre Poivre, o libertador das especiarias &#8211; A incr\u00edvel hist\u00f3ria deste verdadeiro Indiana Jones do s\u00e9culo XVIII, a quem a culin\u00e1ria ocidental muito deve e pouco sabe. 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