﻿{"id":34725,"date":"2017-02-11T22:39:34","date_gmt":"2017-02-11T22:39:34","guid":{"rendered":"http:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=34725"},"modified":"2017-02-11T22:39:34","modified_gmt":"2017-02-11T22:39:34","slug":"discutindo-a-recorrencia-do-tema-a-extincao-da-diaspora-judia-por-jayme-vita-roso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=34725","title":{"rendered":"DISCUTINDO A RECORR\u00caNCIA DO TEMA:\u2013 \u201cA EXTIN\u00c7\u00c3O DA DI\u00c1SPORA JUDIA\u201d &#8211; POR JAYME VITA ROSO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\" size-full wp-image-34727 alignnone\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_1.jpg\" alt=\"283_especial_2_1\" width=\"300\" height=\"190\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_1.jpg 300w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_1-142x90.jpg 142w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_1-213x135.jpg 213w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Em maio de 2013, o fil\u00f3sofo argentino Santiago Kovadloff (1942) escreveu alentada obra sobre a quest\u00e3o e que, face ao reconhecimento do autor pela comunidade e pela intelectualidade n\u00e3o judaica, insinuou-me a fazer uma breve resenha da sua obra, de como colocou a quest\u00e3o e, tamb\u00e9m, sobretudo, os \u201cpensadores da di\u00e1spora diante de Israel e da dispers\u00e3o do povo judeu\u201d.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-34728\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_2-375x250.jpg\" alt=\"283_especial_2_2\" width=\"375\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_2-375x250.jpg 375w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_2-203x135.jpg 203w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_2.jpg 960w\" sizes=\"(max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><\/a> 1. A quest\u00e3o proposta no tem\u00e1rio destas linhas \u00e9 tema recorrente ainda hoje em dia e objeto de in\u00fameras discuss\u00f5es em todos os eventos ou em que \u00e9 levantada, chegando at\u00e9 o ponto de ser tida em considera\u00e7\u00e3o a agonia da di\u00e1spora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em maio de 2013, o fil\u00f3sofo argentino Santiago Kovadloff (1942) escreveu alentada obra sobre a quest\u00e3o e que, face ao reconhecimento do autor pela comunidade e pela intelectualidade n\u00e3o judaica, insinuou-me a fazer uma breve resenha da sua obra, de como colocou a quest\u00e3o e, tamb\u00e9m, sobretudo, os \u201cpensadores da di\u00e1spora diante de Israel e da dispers\u00e3o do povo judeu\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. A obra do professor Santiago \u201cA Extin\u00e7\u00e3o da Di\u00e1spora Judia\u201d[1]cuidou do assunto em aprecia\u00e7\u00e3o com muita profici\u00eancia, dando-lhe contornos bem definidos, gra\u00e7as a sua profunda cultura e, sem d\u00favida, a sua medita\u00e7\u00e3o resultante do seu pr\u00f3prio ser que engloba o filosofo, o ensa\u00edsta, o poeta, o autor de contos infantis e o fato de ser tradutor de literatura da l\u00edngua portuguesa para o espanhol.Excusez-moi dupeu&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_3.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-34729\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_3-334x250.jpg\" alt=\"283_especial_2_3\" width=\"334\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_3-334x250.jpg 334w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_3-181x135.jpg 181w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_3-1024x765.jpg 1024w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_3.jpg 1624w\" sizes=\"(max-width: 334px) 100vw, 334px\" \/><\/a>E n\u00e3o posso deixar de celebrar a cita\u00e7\u00e3o contida no pre\u00e2mbulo do livro, que proveio de um texto do Emmanuel Levinas, do seu livro \u201cDificilLibertad\u201d (sem men\u00e7\u00e3o dos dados da obra): \u201cInterrogar-se a respeito da identidade judia j\u00e1 \u00e9t\u00ea-la perdido. Por\u00e9m, e, todavia, num certo sentido, seguir agarrando-se a ela. De outro modo, qualquer um se dispensaria de perguntar. Entre estes j\u00e1, todavia,desenha-se o limite, tirando-se como numa corda tensa, sobre a qual se maneja, n\u00e3o sem riscos, o juda\u00edsmo dos judeus ocidentais\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. A abordagem do livro, como diz o pr\u00f3prio autor, \u00e9 de natureza filos\u00f3fica, porque, tratando-se \u201cde um gesto filos\u00f3fico proeminente e o de reintroduzir o efeito da interroga\u00e7\u00e3o no corpo de uma certeza ou de uma resposta consolidada que o rege, que est\u00e1 vigente e que decide o formato da inteligibilidade dominante\u201d, porque \u201ca filosofia \u00e9 um ato interrogativo. P\u00f5e na tela do ju\u00edzo a legitimidade ou a sufici\u00eancia do saber imperante\u201d e \u201crompe a ilus\u00e3o da sinon\u00edmia entre palavra e coisa. Quebranta sua presun\u00e7\u00e3o de equival\u00eancia. Com ele, a filosofia provoca uma colis\u00e3o conceitual entre apar\u00eancia e verdade\u201d. E continua o autor \u201cseus conte\u00fados \u2013 os dessa colis\u00e3o \u2013 hoje dizem, em meu caso, a respeito de Israel e a di\u00e1spora. Uma di\u00e1spora que, a meu entender, j\u00e1 n\u00e3o existe. Um Israel que n\u00e3o se imp\u00f5e como centro da vida judia desde o momento em que foi recha\u00e7ado como p\u00e1tria pr\u00f3pria pela maioria dos judeus. O pol\u00edtico, o hist\u00f3rico e o sociol\u00f3gico aqui importam como elementos postos em considera\u00e7\u00e3o de uma leitura que aspira a ser filos\u00f3fica\u201d (p. 13 e 14). Realista e consciente, Santiago n\u00e3o coloca na sua obra o ponto de vista israelita, passando a entender que a di\u00e1spora \u201cafetada por seu desaparecimento como destino \u2013 pensa de si mesma e desde si mesma a respeito de tudo que a liga ao juda\u00edsmo, inclu\u00eddo Israel\u201d (idem, p.14).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4. Pela pr\u00f3pria natureza do objeto desta singela resenha, \u00e9 dispens\u00e1vel, sob censura, que abordemos a genealogia do conceito de di\u00e1spora, ou uma leitura hist\u00f3rica da di\u00e1spora, t\u00e3o bem cuidada naliteratura judaica ou n\u00e3o, nas obras de Stephane de Foix, Leon Poliakov, JosyEisenberg, Cecil Roth, A.S.Halkin, ShlomoSand, Martin Buber e Yitzhak Bael.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5. Com muita acuidade, Santiago, em apenas quatro p\u00e1ginas, consegue sintetizar e configurar o seu entendimento do que \u00e9 ser judeu e qual o papel de Israel diante da riqueza do juda\u00edsmo di\u00e1sporico. E transcrevo: \u201cO pensamento judeu n\u00e3o deve se confundir com a tradi\u00e7\u00e3o judia. Esta, para perdurar, requer, de modo preeminente, mem\u00f3ria, repeti\u00e7\u00e3o, costumes, liturgia. Aquele n\u00e3o pode sobreviver sem esp\u00edrito cr\u00edtico, sem criatividade, sem inova\u00e7\u00e3o, sem um substrato conceitual constante, assentado na originalidade e na liberdade interpretativa do Legado. E, sem um compromisso \u00e9tico e pratico profundo, com o meio social amplo, de onde o juda\u00edsmo de cada comunidade teve lugar. O judeu se evidencia tamb\u00e9m no seu exerc\u00edcio c\u00edvico, ainda quando um e outro \u2013 o c\u00edvico e o judeu \u2013 n\u00e3o sejam nem necessitem ser homolog\u00e1veis fora de Israel. O pensamento criador se exercita na assun\u00e7\u00e3o do legado, mediante sua explora\u00e7\u00e3o anal\u00edtica e sua reformula\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, \u00e0 luz das circunstancias vividas por cada pensador em seu momento e no seu lugar pr\u00f3prio\u201d (p. 44 e 45).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6. Bem por isso, Santiago, como doravante daremos pinceladas sobre os pensadores da di\u00e1spora diante de Israel, a dispers\u00e3o que ele catalogou como importante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6.1 Consideremos, desde logo, o genial Emmanuel Levinas e suas obras citadas por Santiago. O que ele entendeu a respeito do assunto em quest\u00e3o. Santiago tomou de Levinas seu pensamento expresso nas obras \u201cDif\u00edcil Liberdade\u201d, \u201cReflex\u00f5es acerca da educa\u00e7\u00e3o judia\u201d, \u201cA assimila\u00e7\u00e3o de nossos dias\u201d, \u201cIsrael e o universalismo\u201d, \u201cComo \u00e9 poss\u00edvel o juda\u00edsmo\u201d, para concluir, qui\u00e7\u00e1 de forma at\u00e9 imperfeita, mas honesta intelectualmente, desta maneira: \u201cCom que sonha Levinas? As t\u00e1buas da lei precedem as experi\u00eancias da transgress\u00e3o que elas condenam ou se inspiram nelas para apen\u00e1-las? Parece obvio dizer, por\u00e9m, se a \u00e9tica \u00e9 algo incondicionado, opera como um a priori sem d\u00favida com a experi\u00eancia. Existe um mais al\u00e9m, trans-hist\u00f3rico da pol\u00edtica, capaz de orientar a sua pratica? Sim, necessariamente, afirma Levinas, no que faz a Israel. O messianismo, assegura, tem que ser tanto sua fonte nutricial como sua meta. N\u00e3o se trata de um projeto imanente \u00e0 hist\u00f3ria, sen\u00e3o transcendente a ela. A singularidade pol\u00edtica que Levinas a reclama a Israel \u00e9 metaf\u00edsica, e este reclamo, constante, que n\u00e3o claudica, \u00e9 o que o impede de advertir que a consolida\u00e7\u00e3o da democracia no novo Estado s\u00f3 pode produzir-se, caso renuncie ao messianismo. Em verdade, diante da necessidade de decidir-se entre messianismo e democracia, Levinas n\u00e3o parece duvidar, sua op\u00e7\u00e3o \u00e9 pelo messi\u00e2nico. N\u00e3o considera que a \u00e9tica deva aprender nada da hist\u00f3ria, mesmo em troca, mas que a hist\u00f3ria aprenda tudo da \u00e9tica. De uma \u00e9tica independente desde a sua g\u00eanese, que os homens a devem acatar\u201d(p. 80 e 81).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_4.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-34730\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_4-233x250.jpg\" alt=\"283_especial_2_4\" width=\"233\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_4-233x250.jpg 233w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_4-126x135.jpg 126w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_4.jpg 594w\" sizes=\"(max-width: 233px) 100vw, 233px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6.2 Com Le\u00f3n Rozitchner, na reden\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do juda\u00edsmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Le\u00f3n \u00e9 um fil\u00f3sofo argentino nascido na Prov\u00edncia de Buenos Aires em 1924. Teve seus cursos superiores conclu\u00eddos com a gradua\u00e7\u00e3o em 1952. Estudou com personagens importantes da intelig\u00eancia francesa da \u00e9poca, tais como Maurice Merleau-Ponty[2],Lucien Goldmann[3] e Claude Levi-Strauss[4], que foram seus mestres. Retornou \u00e0 Argentina, mas foi obrigado a se auto exilar na Venezuela em 1976. Voltou a seu pa\u00eds em 1986 e, a partir de ent\u00e3o, foi docente na Universidade de Buenos Aires, cidade em que faleceu em 2011. De suas obras destacam-se \u201cFreud y los limites del individualismo burgu\u00eas\u201d (1972), \u201cPer\u00f3n, entre la sangre y el tiempo\u2019 (1985) e \u201cLa cosa y la cruz: cristianismo y capitalismo\u201d (1997). A posi\u00e7\u00e3o desse grande intelectual argentino pode ser sintetizada no pensamento que Santiago bem resumiu: \u201cTamb\u00e9m nesse caso, como no israelita, a condi\u00e7\u00e3o nacional absorve e se dissolve no di\u00e1sporo. Por\u00e9m, enquanto que a identidade israelita sobrevive, o judeu, na identidade nacional, nenhum israelita, esse fato \u2013o ser judeu \u2013 est\u00e1 chamado a desaparecer e prospera no projeto revolucion\u00e1rio.A esquerda \u2013 argentina neste caso \u2013 ofereceu ao judeu a possibilidade de transcender o cen\u00e1rio encenado naquilo que at\u00e9 agora viveu, mediante a solu\u00e7\u00e3o da di\u00e1spora, ou seja, um juda\u00edsmo sem raiz nacional\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rozitchner diz que n\u00e3o h\u00e1 a possibilidade de afirmar a agonia da di\u00e1spora: \u201cA di\u00e1spora, assegura, em 1967, goza de memor\u00e1vel sa\u00fade. N\u00e3o foi afetada pela modernidade, tampouco pela seculariza\u00e7\u00e3o. Menos ainda, com a cria\u00e7\u00e3o do estado israelita. Alheia \u00e0s demandas da hist\u00f3ria e da religi\u00e3o, a di\u00e1spora exerce, imut\u00e1vel, sua milenar fun\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica e reacion\u00e1ria. Trata-se, pois, de terminar com ela. Longe est\u00e1 de ter desaparecido. \u00c9 preciso que desapare\u00e7a de uma vez. E, com ela, a di\u00e1spora como tal, essa realidade a que a religi\u00e3o se encarrega de impor uma ordem e um sentido. Assim o exige a revolu\u00e7\u00e3o socialista em marcha, somente concili\u00e1vel, no que faz ao juda\u00edsmo com a esquerda nacional israelita\u201d(p. 93), pois em favor do projeto o pensador argentino n\u00e3o se det\u00e9m em propor que se sacrifique todo judeu que se op\u00f5e \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o (p. 96).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_51.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-34733\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_51-174x250.jpg\" alt=\"283_especial_2_5\" width=\"174\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_51-174x250.jpg 174w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_51-94x135.jpg 94w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/283_especial_2_51.jpg 312w\" sizes=\"(max-width: 174px) 100vw, 174px\" \/><\/a>6.3 \u00a0Nahum Goldmann; o incerto futuro do judeu (p. 97 a 116).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lituano, nascido em 1895, mudou-se para a Alemanha em 1900. Graduou-se em direito e filosofia. Conseguiu superar a persegui\u00e7\u00e3o nazista e, depois da Segunda Guerra, trabalhou com David Ben-Gurion, em favor da cria\u00e7\u00e3o do Estado Judeu sem deixar de enfatizar a necessidade de, diplomaticamente, conseguir-se um acordo com os \u00e1rabes. Ao mesmo tempo que fundou e presidiu o Congresso Judeu Mundial, tamb\u00e9m dirigiu a Organiza\u00e7\u00e3o Sionista Mundial. Mesmo ap\u00f3s a vit\u00f3ria de Israel em 1967, sempre propugnou pela restitui\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios ocupados aos \u00e1rabes. Escreveu muitos artigos e livros, dos quais destacamos \u201cO futuro de Israel\u201d (1970) e \u201cA Ideologia Sionista e a realidade de Israel\u201d (1978). Nahum Goldmann faleceu na Su\u00ed\u00e7a em 1982.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse personagem, al\u00e9m das obras mencionadas, tamb\u00e9m \u00e9 autor do livro \u201cAonde vai Israel? \u201d, que foi muito discutido, apreciado, criticado e levado em considera\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 70, quando provocou o p\u00fablico ao publicar outra obra, com o t\u00edtulo \u201cO paradoxo judeu\u201d[5].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A leitura que Goldmann fez da di\u00e1spora, com a cria\u00e7\u00e3o do estado de Israel, pode ser resumida muito bem com a interpreta\u00e7\u00e3o que lhe d\u00e1 Santiago: a di\u00e1spora e o esp\u00edrito judeu s\u00e3o consubstanciais, afirma o pensador. A di\u00e1spora n\u00e3o \u00e9 um fato circunstancial. N\u00e3o \u00e9 definida a sua dura\u00e7\u00e3o, por mais not\u00e1vel que seja, sen\u00e3o a sua vivacidade. Isso a implica como signo emblem\u00e1tico do judeu. A riquezaperpassa toda sua hist\u00f3ria, mesmo na adversidade. E essa riqueza, para Goldmann, n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o a riqueza da for\u00e7a subterr\u00e2nea com que segue, operando o alento religioso em sua pujan\u00e7a cultural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A di\u00e1spora, em termos de vitalidade, \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o essencialmente ativo do corpo judeu no todo. De nenhuma maneira o sionismo a superou. Por isso, o pensador mostra-se descrente ante a presun\u00e7\u00e3o de que a exist\u00eancia do estado hebreu possa vulnerar a fortaleza da di\u00e1spora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele se transformou num cr\u00edtico intransigente da pol\u00edtica israelita. E nunca ser\u00e1 demais repetir que, para Goldmann: \u201ca condi\u00e7\u00e3o judia se define como um posicionamento fundamentalmente cultural\u201d pois, para ele, a exist\u00eancia do Estado \u00e9 absolutamente necess\u00e1ria pois assim \u00e9 enquanto \u201cn\u00e3o se sustente o seu desenvolvimento na subestima\u00e7\u00e3o dos valores tradicionalmente distintos da alma judia\u201d (p.109).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De outro lado, Santiago, discutindo o pensamento de Goldmann e discordando dele, pois entende que a di\u00e1spora est\u00e1 terminada, diz que \u201coutra coisa a di\u00e1spora ser\u00e1, para o judeu, se se renova na geografia do que at\u00e9 ontem foi dispers\u00e3o\u201d. Concluindo, Israel n\u00e3o tem d\u00favidas com o passado judeu. Tem sim, com o futuro do juda\u00edsmo. Da mesma forma que o juda\u00edsmo, at\u00e9 a cria\u00e7\u00e3o do estado, se chamou di\u00e1sporo\u201d(p. 116).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6.4 Robert Misrahi ou o messianismo sem Deus (p.117 a 138).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse fil\u00f3sofo (1926), professor em\u00e9rito da Universidade de Paris, \u00e9 considerado um dos maiores conhecedores da obra de Baruch Spinoza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua vida foi permeada de intensa participa\u00e7\u00e3o nos ambientes culturais franceses, inclusive participando da revista Les Temps Modernes, criada e dirigida por Jean Paul Sartre. Com Jean Daniel, participou durante muitos anos como articulista da revista Le Nouvel Observateur. Figuram entre seus livros, \u201cA condi\u00e7\u00e3o reflexiva do homem judeu\u201d (1963), \u201cMartin Buber, filosofo da rela\u00e7\u00e3o\u201d (1968), \u201cO desejo e a reflex\u00e3o na filosofia de Spinoza\u201d (1972), \u201cMarx e a quest\u00e3o judia\u201d (1972), \u201cTratado da Felicidade I, II e III\u201d(1981, 1984 e 1987) e \u201cExist\u00eancia e democracia\u201d (1995).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com Mizrahi, a quest\u00e3o do messianismo sem Deus, na aparente contradi\u00e7\u00e3o em termos \u00e9, na verdade, uma proposta criada por esse filosofo. E Santiago esclarece: \u201csem Deus e sem estado. Apartado da ortodoxia, como do ideal nacionalista. Um juda\u00edsmo que se quer e se sabe pol\u00eamico. Consagrado \u00e0 obten\u00e7\u00e3o de novas perspectivas. Criador de novas concep\u00e7\u00f5es para velhos s\u00edmbolos. Um juda\u00edsmo que se empenha em reconsiderar os conte\u00fados da tradi\u00e7\u00e3o \u00e0 luz das necessidades in\u00e9ditas de quem se afirma como judeu sem inscrever-se na identidade israelita em nenhuma das formas que assume o te\u00edsmo. Um juda\u00edsmo para uma di\u00e1spora que n\u00e3o se reconhece residual por tr\u00e1s da cria\u00e7\u00e3o do estado de Israel. Um juda\u00edsmo atento a seus conceitos diversos e \u00e0s demandas que neles o formula a seu tempo. Um juda\u00edsmo para o qual a di\u00e1spora \u00e9 di\u00e1sporas, e o juda\u00edsmo, juda\u00edsmos. Um juda\u00edsmo, em suma, para o qual Israel, opaco como membro desse corpo plural, mas, como se presumida configura\u00e7\u00e3o paradigm\u00e1tica, nem menos t\u00e3o hegem\u00f4nica a que se devam ver-se subordinadas \u00e0s demais concep\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas dos judeus. \u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um pouco do seu pensamento: a) O juda\u00edsmo laico n\u00e3o \u00e9 uma doutrina, nem um trabalho consumado nem pr\u00e9-estabelecido. Na verdade, \u00e9 um empreendimento que tomar\u00e1 a forma de quem o levar\u00e1 adiante, pois \u201cresgatada a pris\u00e3o religiosa que o manietou durante s\u00e9culos, e da condena\u00e7\u00e3o do sionismo \u00e0 outrance, que exige o seu desaparecimento, com a cria\u00e7\u00e3o do Estado, a di\u00e1spora laico-messi\u00e2nica deve afirmar-se, construindo sua pr\u00f3pria modalidade. O novo estatuto da di\u00e1spora \u2013esse que se prop\u00f5e a perfilar o messianismo laico \u2013 deve fazer-se evidente mediante o seu destacar-se da sua aspira\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. Por isso, Mizrahi o chama de \u201cinven\u00e7\u00e3o\u201d (p.119 e 120).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) Diz Santiago que \u201ca acusa\u00e7\u00e3o que Mizrahi faz cair sobre o sionismo \u00e9 perversa: n\u00e3o tolerou, assegura, que a di\u00e1spora tenha sobrevivido \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel. Renega o fil\u00f3sofo a equival\u00eancia entre Estado e Na\u00e7\u00e3o judia. Esse \u00faltimo conceito \u00e9 antigo e venerado. Mizrahi o retoma\u201d (p.125 e 126).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) Avan\u00e7ando, Santiago acolhe e interpreta o pensamento de Mizrahi, porque detectou que a interpreta\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o judia tem tr\u00eas caracter\u00edsticas: racional, laica e hist\u00f3rica. E por isso, o mesmo Santiago rompe com o dogmatismo e foca Mizrahi, dizendo que \u201co juda\u00edsmo di\u00e1sporo, remodelado pelo impulso laico-messi\u00e2nico, aspira brindar sua vers\u00e3o de patrim\u00f4nio comum, recolocando a seu alcance e redefinindo a leitura de seus conte\u00fados\u201d (p.130).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Terminando, ap\u00f3s discutir com bastante propriedade o pensamento de Mizrahi, focalizamos a l\u00facida interpreta\u00e7\u00e3o fornecida por Santiago: \u201cao n\u00e3o demorar-se no sintom\u00e1tico e conjuntural, ao deslizar com extrema celeridade at\u00e9 o program\u00e1tico, Mizrahi subestima o fundamento do conflito e racionaliza com amplitude a solu\u00e7\u00e3o. O paradoxo do seu pensamento \u00e9 que, ao propor a necessidade de um novo ponto de partida, seu pensamento admite que algo pr\u00e9vio concluiu para os judeus da dispers\u00e3o.Essa conclus\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 enfatizada por ele ao n\u00e3o considerar a profundidade dos seus efeitos com o devido cuidado. D\u00e1-se conta com clareza que essa quest\u00e3o se esvaneceu. Sem embargo, esse reconhecimento n\u00e3o indica que \u00e9 unicamente do seu interior, de onde pode prover a \u00edntima validade, a validade indiscut\u00edvel de um caminho alternativo aos que deixaram de percorr\u00ea-lo. Do seu interior e n\u00e3o dos da Escola Polit\u00e9cnica de Paris, mas filosofia deensinamentos de um pensamento aut\u00eantico, por\u00e9m, obtido pela necessidade de dar, sem demora, um passo a diante\u201d (p. 138).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6.5 a) Estamos agora colocando em cena um escritor pol\u00eamico que tem causado embates na Fran\u00e7a. Trata-se de Alain Finkielkraut. Santiago d\u00e1 uma panor\u00e2mica biogr\u00e1fica dele que merece ser traduzida. \u201cFilho \u00fanico de um judeu polon\u00eas deportado a Auschwitz, nasceu em Paris em 1949. Rapidamente se fez notar pelo esp\u00edrito pol\u00eamico de seus ensaios, ademais da excel\u00eancia de sua prosa. Professor de filosofia da Escola Polit\u00e9cnica de Paris, onde d\u00e1 aulas de Hist\u00f3ria das Ideias, pratica jornalismo preocupado com a barb\u00e1rie do mundo moderno e n\u00e3o esconde o seu ceticismo diante do progresso. \u201cA derrota do pensamento\u201d, obra de 1987, \u00e9, nesse sentido, bastante significativa. Expressou, tamb\u00e9m, sua inquietude ante o surgimento de um novo antissemitismo, que, \u00e0 diferen\u00e7a do tradicional, de extrema direita, seria progressista e de esquerda. Nessa linha de preocupa\u00e7\u00f5es se situa: \u201cEm nome do outro, Reflex\u00f5es sobre o antissemitismo que vem\u201d (2003). Tamb\u00e9m publicou, entre outros, \u201cA humanidade perdida\u201d (1996) e \u201cA sabedoria do amor\u201d (1984) \u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) Santiago, no capitulo 9, que aborda Finkielkraut (p. 139 a 159), apresenta a vis\u00e3o dele que considera a inconsist\u00eancia do judeu contempor\u00e2neo.Prop\u00f5e duas for\u00e7as que se entrechocam na tentativa de caracteriza\u00e7\u00e3o do judeu di\u00e1sporo: uma antissemita e a outra, sionista. Criativo, apresenta uma terceira caracter\u00edstica: em sendo da di\u00e1spora, trata-se de \u201cum judeu imagin\u00e1rio\u201d. Santiago observa as tr\u00eas proposi\u00e7\u00f5es de Finkielkraut, o qual sustenta o seu ponto de vista tamb\u00e9m em Derrida al\u00e9m do curioso livro de Schlomo Sand, \u201cComo o judeu foi inventado\u201d. Em todo esse trajeto, Finkielkraut compartilha sua cria\u00e7\u00e3o de \u201co judeu imagin\u00e1rio\u201d com Peter Sloterdijk.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o por menos, teria que voltar tamb\u00e9m a Levinas e a Freud na concep\u00e7\u00e3o de \u201cjudeu imagin\u00e1rio\u201d, que chama \u201cquase insubstancial, apagado, borrado, sem identifica\u00e7\u00e3o nenhuma com o sionismo, mas que se proclama judeu e se reivindica como tal\u201d.\u00c9 um paradoxo, mas n\u00e3o h\u00e1 como contest\u00e1-lo;no entanto, resistir a deixar de chamar-se como judeu e agarrar-se a esta palavra como um n\u00e1ufrago a uma boia, implica de algum modo, como quer Emanuel Levinas, \u00edntima disposi\u00e7\u00e3o a seguir sendo judeu. Se existe indig\u00eancia neste gesto, tamb\u00e9m h\u00e1 uma decis\u00e3o. A seu modo, este gesto \u00e9 um signo de vida. Talvez um ind\u00edcio de vitalidade promissora colocada por parte de quem j\u00e1 n\u00e3o parece guardar, no seu conhecimento, uma \u00fanica marca de juda\u00edsmo. Assim \u00e9 como interpreta Finkielkraut essa realidade empobrecida. Esse judeu da dispers\u00e3o, que ignora o hebraico, alheio por completo \u00e0 cultura talm\u00fadica, completamente indiferente \u00e0 Tor\u00e1 e ao sionismo e para quem a hist\u00f3ria do seu povo \u00e9 um repert\u00f3rio amorfo de acontecimentos perdidos na n\u00e9voa dos s\u00e9culos, esse judeu n\u00e3o est\u00e1 disposto a deixar de ser chamado de judeu\u201d(p.141). Segundo Santiago, reproduzindo Finkielkraut, em \u201cOJudeu Imagin\u00e1rio\u201d(p. 177 e 184), \u201co povo judeu n\u00e3o sabe o que ele \u00e9, sabe unicamente que existe e que esta exist\u00eancia desconcertante altera a divis\u00e3o instaurada pela raz\u00e3o moderna entre o p\u00fablico e o privado\u201d e segue, concluindo, \u201cpara mim, o juda\u00edsmo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 tanto a forma da identidade como a da transcend\u00eancia. \u00c9 algo que n\u00e3o defino, uma cultura que n\u00e3o posso alcan\u00e7ar, uma gra\u00e7a que n\u00e3o posso faz\u00ea-la minha\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) Por fim, Santiago, voltando \u00e0 proposta de Finkielkraut, \u00e9 enf\u00e1tico em dizer: \u00e0 diferen\u00e7a do judeu imagin\u00e1rio, do judeu p\u00f3s-di\u00e1sporo: este j\u00e1 deu adeus a seu passado. Aceita a sua orfandade como um fato irrevers\u00edvel e concebe o perdido como algo irrecuper\u00e1vel. A tens\u00e3o em que vive \u2013 separado entre o perdido e o que \u00e9 \u2013 conforma essa bagagem como sendo judia. Retalhos de uma tradi\u00e7\u00e3o milenar encontram nele um cora\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo solid\u00e1rio e distante. Cabe uma \u00fanica pergunta: se n\u00e3o est\u00e1 na di\u00e1spora e n\u00e3o est\u00e1 em Israel, em que lugar ele est\u00e1?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7. Jean Daniel e o adeus ao juda\u00edsmo. Essa express\u00e3o foi cunhada por Santiago para definir o pensamento de um dos maiores escritores franceses contempor\u00e2neos (p. 160 a 177).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) Nasceu na Arg\u00e9lia em 1920. Jornalista e ensa\u00edsta, fez universidade na Fran\u00e7a, licenciando-se em Filosofia. Na Segunda Guerra Mundial, interveio em v\u00e1rias frentes e recebeu a Cruz de Guerra. Apoiou a independ\u00eancia da Arg\u00e9lia e a pol\u00edtica de De Gaulle. Foi co-fundador do Le Nouvel Observateur, dirigindo-o por muito tempo. Ganhou a Legi\u00e3o de Honra da Fran\u00e7a. Nos seus livros, destacam-se \u201cDeus \u00e9 fan\u00e1tico?\u201d (1996) e \u201cA guerra e a paz \u2013 Israel e Palestina\u201d (2003).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) Em 2007, ao escrever \u201cA Pris\u00e3o Judia\u201d, Jean Daniel colocou em quest\u00e3o o juda\u00edsmo como prisioneiro perp\u00e9tuo da religi\u00e3o. Essa ideia de Jean Daniel inclui o pr\u00f3prio juda\u00edsmo, Israel e a di\u00e1spora. O desencanto de Daniel come\u00e7a a manifestar-se sobretudo com o resultado da Guerra dos Seis Dias, com a qual esperava que o esp\u00edrito laico liberaria o juda\u00edsmo do peso teol\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diz Santiago: tanto na concep\u00e7\u00e3o judia do conflito palestino-israelense como na do antissemitismo atual, o mito, em ambos casos, preponderou sobre a hist\u00f3ria. O transcendentalismo, como Daniel o chama, foi mais poderoso.Um profundo retrocesso na compreens\u00e3o dos pr\u00f3prios conflitos e necessidades predomina em Israel e afeta a di\u00e1spora. Daniel insiste: o pol\u00edtico, como ferramenta de leitura da realidade, sucumbiu ao religioso. Israel, por consequ\u00eancia disso, converteu-se em uma democracia messi\u00e2nica. N\u00e3o obstante, embora discordando daqueles que, sob o aspecto messi\u00e2nico, veem Israel como uma pot\u00eancia colonialista e sonham n\u00e3o com sua mudan\u00e7a, mas com sua elimina\u00e7\u00e3o. Por quarenta anos, Israel \u00e9, para Jean Daniel, respons\u00e1vel pela cat\u00e1strofe judeu-palestina. Cr\u00edtica, em seus escritos, sobretudo nas p\u00e1ginas 21, 32, 33, 116 e 166 da obra citada, aquilo que chamou de \u201cdireitos teol\u00f3gicos\u201d de conduta expansionista e repressora das reivindica\u00e7\u00f5es palestinas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora o livro de Jean Daniel \u201cA Pris\u00e3o Judia\u201d j\u00e1 tenha percorrido mais de duas d\u00e9cadas, ainda seu pensamento e suas ideias podem ser apreciadas e julgadas segundo a sua \u00f3tica do antissemitismo atual, um antissemitismo ontol\u00f3gico, caracter\u00edstico do cristianismo e do nacional-socialismo e um antissemitismo pol\u00edtico, concentrado apenas sobre Israel. Essa discuss\u00e3o te\u00f3rica levou Jean Daniel a formular a hip\u00f3tese de que, se fosse correta a fobia judaica, poderia levar a um veredicto v\u00e1lido, mas que ele discorda e se empenha em demolir um presumido antissemitismo metaf\u00edsico(p. 162 a 168). Concluindo, Santiago, enfatiza que Daniel termina por afastar-se do juda\u00edsmo. Compreende o juda\u00edsmo por inteiro numa teocracia e, rejeitando-a, designar-se-\u00e1 exclusivamente franc\u00eas pois \u201csua nacionalidade lhe bastar\u00e1 para caracterizar as ra\u00edzes de sua vida\u201d (p. 175).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito interessante que Santiago encerre o exame das ideias de Jean Daniel, cobrando-lhe dois aportes que nunca foram feitos por Daniel, um acerca de um antissemitismo \u00e1rabe flagrante na recusa ao recente Estado de Israel em 1948, e outro, relativo a atual recusa da sociedade israelita a um acordo com os palestinos ou o apego de um setor de Israel ao teocr\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">8. Em George Steiner e Yakov Rabkin h\u00e1 duas posi\u00e7\u00f5es antit\u00e9ticas. Steiner nasceu em Paris em 1929 e exerceu sua carreira a partir de uma forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica (econ\u00f4mica) uma vez que sua fam\u00edlia, quando ainda jovem, se mudou de Paris para Nova York e dali em diante perpassou por universidades tradicionais (Yale, Genebra e outras) levando, mais tarde, a deslocar-se para estudos liter\u00e1rios, donde escreveu t\u00edtulos memor\u00e1veis tais como \u201cTolstoi ou Dostoievski\u201d (1960), \u201cNo castelo de Barba Azul\u201d (1971), \u201cPresen\u00e7as Reais\u201d (1989). Bem mais jovem, Rabkin nasceu em Leningrado em 1945. Emigrou para o Canad\u00e1 em 1973 e estudou com destacados rabinos da Fran\u00e7a e de Israel, contribuiu para criar o col\u00e9gio de estudos judaicos de Moscou ap\u00f3s a queda da URSS. \u201cFigura t\u00e3o provocante como pol\u00eamica, sua identifica\u00e7\u00e3o com os judeus ultra ortodoxos, advers\u00e1rios de Israel, e a recusa da vida judia n\u00e3o ortodoxa, tem lhe valido tanto recusas como ades\u00f5es\u201d (Santiago, p. 180).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">9. O ep\u00edlogo provis\u00f3rio escrito por Santiago.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 absolutamente compreens\u00edvel que, com o envolver hist\u00f3rico e tamb\u00e9m o confronto permanente e a tens\u00e3o das diversas opini\u00f5es, sobre o tema em discuss\u00e3o, levassem Santiago a concluir o seu trabalho, tentando promover uma s\u00edntese dos pensadores ao mesmo tempo em que n\u00e3o se coloca fora da permanente d\u00favida judaica hist\u00f3rica. Escreve, em algum dos seus trechos mais destacados: \u201cQuero dizer que esses pensadores investigadores, artistas e poetas sabem explorar, interrogar, enunciar e aplicar de maneiras novas ao que at\u00e9 agora se viu reduzido a pronunciamentos religiosos ou a pautas pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas. S\u00e3o autores judeus p\u00f3s-di\u00e1sporos precisamente por essa dist\u00e2ncia que assumiram das formula\u00e7\u00f5es doutrin\u00e1rias tradicionais como das coloca\u00e7\u00f5es sionistas. Nessa medida, est\u00e3o levando a cabo uma remodela\u00e7\u00e3o e uma contextualiza\u00e7\u00e3o do juda\u00edsmo como tema e experi\u00eancia pessoal e coletiva. N\u00e3o pertencem \u00e0 di\u00e1spora, em suma, porque seus valores judaicos j\u00e1 n\u00e3o coincidem com os existentes nela nem com ela quiseram significar(p. 224).Eu, nesta resenha, acrescento: se, para Lacan, o real \u00e9 aquilo que resiste \u00e0 simboliza\u00e7\u00e3o, importa dizer que o homem p\u00f3s-di\u00e1sporo \u00e9 quem, como judeu emblem\u00e1tico das convuls\u00f5es de nosso tempo, deixa-se ver na impossibilidade de simboliza\u00e7\u00e3o do que ele mesmo significa. J\u00e1 n\u00e3o encontra amparo no religioso, n\u00e3o \u00e9 seu o ideal israelita e a palavra judeu com aquilo que ela significa, que \u00e9, ao mesmo tempo, o que o torna irreconhec\u00edvel na presen\u00e7a que opera fora do campo da identidade. Ainda assim, se mant\u00e9m ligado a ela, a essa palavra que o ampara e o desampara ao mesmo tempo. Ela \u00e9 que o situa fora do saber judeu formalmente compreendido para escrev\u00ea-lo no terreno pedregoso e imprevis\u00edvel do que \u00e9 confuso, das oscila\u00e7\u00f5es, da conjuntura e da convic\u00e7\u00e3o de ser judeu, longe de toda certeza e contra toda proposta apaziguadora. Com ele, com esse homem p\u00f3s-di\u00e1sporo, o juda\u00edsmo chega a ser algo que persiste e vacila ao mesmo tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">10. Obs.: o autor desta tentativa de s\u00edntese da obra de Santiago adverte que o trabalho de elabora\u00e7\u00e3o desse texto exigiu-lhe a tarefa espinhosa de resenhar o coment\u00e1rio cr\u00edtico do autor acerca de not\u00f3rios pensadores judeus em torno de um crucial questionamento: a extin\u00e7\u00e3o da di\u00e1spora judia. E, assim, pede humildemente aos leitores que formulem seus ju\u00edzos sobre esse escrito com a benevol\u00eancia que \u00e9 caracter\u00edstica do povo judeu.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">[1]La extincion de la di\u00e1spora judia, Buenos Aires, Emece, 2013, 240 p., ISBN 978.950.04.3515.4<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[2]Rochefort-sur-Mer, 14 de mar\u00e7o de 1908 \u2013 Paris, 4 de maio de 1961<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[3] Bucareste, 20 de julho de 1913 \u2013 Paris, 8 de outubro de 1970<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[4] Bruxelas, 28 de novembro de 1908 \u2013 Paris, 30 de outubro de 2009<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[5]NahumGoldmann, \u201cAdondeva Israel? \u201dTimmermen Editores, Buenos Aires, 1976 e \u201cLa paradoja judia\u201d, Losada, Buenos Aires, 1979<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JAYME VITA ROSO<\/strong> &#8211; Graduado pela Faculdade de Direito da Universidade de S\u00e3o Paulo, \u00e9 especialista em leis antitruste e consultor jur\u00eddico de fama internacional, ecologista reconhecido e premiado, &#8220;Professor Honor\u00e1rio&#8221; da Universidade Inca Garcilaso de La Vega de Lima, Peru e autor de v\u00e1rios livros jur\u00eddicos. <a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=25303\" target=\"_blank\">Saiba mais.<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"vitaroso@vitaroso.com.br%20&lt;vitaroso@vitaroso.com.br&gt;\" target=\"_blank\">vitaroso@vitaroso.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em maio de 2013, o fil\u00f3sofo argentino Santiago Kovadloff (1942) escreveu alentada obra sobre a quest\u00e3o e que, face ao reconhecimento do autor pela comunidade e pela intelectualidade n\u00e3o judaica, insinuou-me a fazer uma breve resenha da sua obra, de como colocou a quest\u00e3o e, tamb\u00e9m, sobretudo, os \u201cpensadores da di\u00e1spora diante de Israel e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":34727,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3,8],"tags":[147],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/34725"}],"collection":[{"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=34725"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/34725\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":34939,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/34725\/revisions\/34939"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/34727"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=34725"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=34725"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=34725"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}