﻿{"id":36447,"date":"2017-05-06T19:27:06","date_gmt":"2017-05-06T19:27:06","guid":{"rendered":"http:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=36447"},"modified":"2017-05-06T19:27:09","modified_gmt":"2017-05-06T19:27:09","slug":"da-resistencia-do-gueto-a-marcha-da-vida-por-paulo-rosenbaum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=36447","title":{"rendered":"\u201cDA RESIST\u00caNCIA DO GUETO \u00c0 MARCHA DA VIDA\u201d- POR PAULO ROSENBAUM"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/289_especial_2_1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-36448\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/289_especial_2_1-254x250.jpg\" alt=\"289_especial_2_1\" width=\"254\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/289_especial_2_1.jpg 254w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/289_especial_2_1-137x135.jpg 137w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/289_especial_2_1-50x50.jpg 50w\" sizes=\"(max-width: 254px) 100vw, 254px\" \/><\/a>Estamos firmemente engajados nesta iniciativa (Marcha da Vida), pois acreditamos que ela tem fun\u00e7\u00f5es que transcendem os objetivos imediatos e por isso pedimos que voc\u00ea considere com carinho ajudar a viabilizar a viagem destes adolescentes e ou promova esta ideia em outras escolas dentro e fora da comunidade.<\/strong><\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, 19 de abril de 1943, consegui chegar at\u00e9 a rua de Mila, entrar e sair do bunker. A New Olimpik parecia estar vazia. Acabaram de decretar o esvaziamento do Gueto. J\u00e1 sab\u00edamos que o decreto foi &#8220;exterm\u00ednio completo&#8221;. Dos 450 mil restavam 35.000 pessoas. Mas nas \u00faltimas horas, nenhum soldado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhum blindado. Apenas as ru\u00ednas de sempre, ofuscadas por uma ou outra rajada de fuzil e morteiros, ou, gritos fracos de fome e pedidos in\u00fateis de ajuda. Sabia que a vingan\u00e7a estava a espreita. O comandante n\u00e3o aceitava e ficou incr\u00e9dulo com a ideia de que um grupelho de miser\u00e1veis, famintos e sem recursos ousasse uma insurg\u00eancia. Resistimos mais dias do que Paris e o ex\u00e9rcito polon\u00eas. Foram 27 contando hoje. Sorri sozinho pensando na cara de espanto da SS e o impacto da not\u00edcia em Berlim. Sentei apoiado no beco, entre as duas esquinas, e, pela primeira vez desde que come\u00e7amos a resistir, deitei a pistola no ch\u00e3o. Resistir para que? Para que o massacre promova suas festas logo adiante? Foi quando o vi o pelot\u00e3o nazista com um cord\u00e3o de condenados. No meio da fila l\u00e1 estava ele. Pequeno, com a boina quase ca\u00edda. Com as m\u00e3os para cima olhava buscando algum tipo de pedagogia, sem imaginar que nenhum adulto poderia lhe oferecer resposta alguma. Neste caso garoto, respondi mentalmente, &#8220;existem mais perguntas do que respostas&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Suas perguntas seriam&#8221; &#8220;Como isso pode acontecer?&#8221; &#8220;\u00c9 real ou um daqueles sonhos que sentimos alegria ao acordar?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu me espremi contra o muro para n\u00e3o ser visto, esperando uma chance para minha \u00faltima interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deveria agir? Preservar minha vida ou ser o her\u00f3i que ningu\u00e9m lembraria? As d\u00favidas diminuem muito quando voc\u00ea sabe que est\u00e1 condenado. Apenas aguardaria o embarque na esta\u00e7\u00e3o daquelas pessoas e morreria levando um punhado de alem\u00e3es comigo. Foi uma explos\u00e3o que interrompeu minhas d\u00favidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acordei numa vala fora de Vars\u00f3via e sobrevivi com a ajuda da resist\u00eancia polonesa. Foi a \u00faltima vez que vi aquele garoto de n\u00e3o mais do que 12 anos. Hoje, 74 anos depois, eu, como um dos poucos sobreviventes do evento que foi conhecido como &#8220;Levante do Gueto de Vars\u00f3via&#8221; fui convidado a visitar o campo de concentra\u00e7\u00e3o de Auschwitz. Sempre recusei vir, hoje n\u00e3o. Tinha preparado um discurso, mas, na hora, recitei uma poesia achada enfiada \u00e0s pressas na parede de uma das casas do Gueto, presente de um amigo da resist\u00eancia polonesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com tinta quase apagada em uma folha amarela, estava escrita em polon\u00eas e dizia o seguinte:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Vars\u00f3via, 19 de abril de 1943<br \/>\nPodemos sentir,<br \/>\nmesmo que nenhuma folha<br \/>\nvoe para fora e passe al\u00e9m destes port\u00f5es.<br \/>\nA \u00e1rvore central viver\u00e1,<br \/>\npois n\u00e3o est\u00e1 suspensa.<br \/>\nFormou ra\u00edzes nos asfaltos,<br \/>\nnas pedras das cidades,<br \/>\nnas cabe\u00e7as do mundo.<br \/>\nN\u00f3s?<br \/>\nVoaremos como vento, ar, fuma\u00e7a,<br \/>\ne iremos ter com o Alto,<br \/>\ncom a certeza de que mesmo<br \/>\nsob o sil\u00eancio diante de todas as perguntas,<br \/>\nmesmo no p\u00f3 que tentaram nos transformar,<br \/>\nnossa resposta ser\u00e1 um solene &#8220;permaneceremos&#8221;.<br \/>\nEu ri,<br \/>\ne se me perguntassem por que sorri<br \/>\ndiria, eles nem imaginam nosso segredo.<br \/>\nA \u00e1rvore da vida \u00e9 mais teimosa<br \/>\ndo que os campos da morte&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, como um dos \u00faltimos sobreviventes vivos do holocausto, quero convocar jovens de todo mundo, de todas as etnias e religi\u00f5es a visitar este lugar. Recentemente uma estudante de direito inglesa n\u00e3o judia, que identificarei apenas como &#8220;MCM&#8221; que participou de uma visita \u00e0 Auschwitz me enviou a seguinte mensagem a qual, depois de muito tempo me emocionou e fez com que eu aceitasse o convite:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu tive a oportunidade de visitar Auschwitz quando tinha 16 anos. Eu fui a Auschwitz, fazendo parte de uma iniciativa de um grupo chamado <em>Holocaust Educational Trust<\/em>, que da a alguns jovens de toda a Inglaterra a oportunidade de fazer essa visita. O princ\u00edpio do <em>Holocaust Educational Trust<\/em>, com o que eu concordo plenamente, \u00e9 que ver n\u00e3o \u00e9 como escutar; \u00e9 mais. Durante a visita fomos ao Auschwitz I, e ao Auschwitz II. Primeiro, visitamos ao Auschwitz I, que \u00e9 o campo original, e o menor dos dois, constru\u00eddo para prisioneiros pol\u00edticos que \u00e9 formado de 22 pr\u00e9dios nos quais, hoje, pode se ver roupas; malas; brinquedos e cabelos cortados das v\u00edtimas. Depois fomos ao Auschwitz II, o maior campo de exterm\u00ednio onde morreram mais de um milh\u00e3o de pessoas em menos de 5 anos. Conhecer os fatos antes de ir j\u00e1 era inacredit\u00e1vel e horr\u00edvel mas nunca eu achei que ia ver, sentir e entrar em contato com um evento hist\u00f3rico que me afetaria tanto como nessa visita. O impacto que essa visita teve sobre mim foi extraordin\u00e1rio. Primeiro porque foi educativo; me ensinou detalhes e me vez aprender de uma maneira que livros n\u00e3o ensinam. Segundo, e o que eu dou mais valor, foi que essa visita teve um impacto existencial e emocional. A visita n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Eu vi fotos das v\u00edtimas, algumas quais me lembraram de pessoas que conhe\u00e7o; andei nos t\u00faneis que elas andaram, os t\u00faneis que os levaram a morte; os pr\u00e9dios que dormiam, se dormiam e at\u00e9 senti o frio que sentiram. Teve uma foto especificamente de duas meninas de n\u00e3o mais de 10\/11 anos de idade; irm\u00e3s talvez. As duas me lembraram de mim e da minha irm\u00e3. At\u00e9 hoje quando lembro disso, e mesmo escrevendo isso, l\u00e1grimas enchem os meus olhos porque n\u00e3o somos t\u00e3o diferentes daqueles que morreram nos campos de concentra\u00e7\u00e3o. A vida que aquelas pessoas viveram \u00e9 algo que eu n\u00e3o consigo imaginar e uma realidade que depois da visita virou uma das mais dif\u00edceis de lembrar e uma importante experi\u00eancia de vida. Hoje eu sou uma advogada, qualificada na Inglaterra. Devido \u00e0s v\u00e1rias experi\u00eancias da minha vida, incluindo essa visita a Auschwitz, uma das minhas metas profissionalmente e pessoalmente \u00e9 ter certeza de que o que aconteceu em 1940 nos campos de concentra\u00e7\u00e3o de Auschwitz nunca aconte\u00e7a de novo. Eu sei que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil assim mas eu acredito que abrir os olhos e n\u00e3o s\u00f3 saber os fatos mas entender o que a vida era para aqueles que sofreram e morreram ensina algo que livros n\u00e3o conseguem ensinar. Abrem os olhos aos pequenos atos que podemos fazer e ao que podemos prestar aten\u00e7\u00e3o para que isso n\u00e3o aconte\u00e7a de novo. Mas n\u00e3o quer dizer que todos que foram comigo foram afetados da mesma maneira ou tem as mesmas metas que esta experi\u00eancia inspirou em mim, mas mesmo assim tenho certeza que s\u00e3o pessoas que n\u00e3o veem o que aconteceu entre 1940 e 1945 como um fato hist\u00f3rico apenas, mas sim como uma parte de todos n\u00f3s como seres humanos ; algo que n\u00e3o s\u00f3 afeta aos que morreram mas aos que est\u00e3o vivos hoje. O que aconteceu nos ensina e abre os nossos olhos para a nossa realidade de aqui e agora.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem participa da &#8220;Marcha da Vida&#8221; adquire ao menos uma experi\u00eancia: no final da caminhada temos a certeza de que todos juntos precisamos prestigiar este monumento \u00e0 preven\u00e7\u00e3o de &#8220;Amanh\u00e3s de erros antigos&#8221;. A &#8220;Marcha da Vida&#8221; n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um s\u00edmbolo ativo do slogan &#8220;Nunca mais&#8221;, ela \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de que a vida pode ser sustentada mesmo contra todas as evid\u00eancias da raz\u00e3o. N\u00e3o se enganem, o lugar \u00e9 sinistro, o lugar \u00e9 ao mesmo tempo um dos mais vergonhosos e dolorosos para a humanidade, Um campo de concentra\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode nos ajudar a dar qualquer resposta \u00e0 perplexidade &#8212; por exemplo, daquele garoto nunca identificado cuja face me assombra at\u00e9 hoje &#8212; apenas nos coloca bem ao lado dele para tentar acordar do sono que nos envenenou. Esta \u00e9 a \u00fanica homenagem poss\u00edvel \u00e0 mem\u00f3ria das v\u00edtimas do holocausto nazista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escolas judaicas e n\u00e3o judaicas organizam anualmente viagens de estudantes para visitar este lugar. O &#8220;Holocaust Educational Trust&#8221; por exemplo, estimula qualquer pessoa que queira colaborar neste trabalho. S\u00f3 h\u00e1 um objetivo geral: estimular a toler\u00e2ncia e o conv\u00edvio pac\u00edfico entre os povos. Quem puder e quiser colaborar subsidiando visitas de adolescentes ou adultos para esta viagem entre em contato. Se h\u00e1 um objetivo espec\u00edfico? Sim, e s\u00f3 pode ser descoberto por cada um.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos firmemente engajados nesta iniciativa, pois acreditamos que ela tem fun\u00e7\u00f5es que transcendem os objetivos imediatos e por isso pedimos que voc\u00ea considere com carinho ajudar a viabilizar a viagem destes adolescentes e ou promova esta ideia em outras escolas dentro e fora da comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Seguem os dados banc\u00e1rios:<\/span><br \/>\nBanco Safra &#8211; Ag. 0097 &#8211; C\/C 3821-6<br \/>\nCentro de Educa\u00e7\u00e3o Religiosa Judaica &#8211; CNPJ. 60.617.677\/0001-03<br \/>\nMuito obrigado, e ressaltamos que qualquer valor serve.<br \/>\nPor favor, se lembrar de algu\u00e9m que possa colaborar, repasse esta mensagem<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO ROSENBAUM<\/strong> &#8211; M\u00e9dico e escritor, assina a coluna semanal \u201cCoisas da Pol\u00edtica\u201d, no JB \u2013 Jornal do Brasil. <span style=\"text-decoration: underline; color: #000000;\"><strong><a style=\"color: #000000; text-decoration: underline;\" title=\"PAULO ROSENBAUM\" href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=5109\">Saiba mais.<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<div id=\"websigner_softplan_com_br\" class=\"websigner_softplan_com_br\" style=\"display: none;\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos firmemente engajados nesta iniciativa (Marcha da Vida), pois acreditamos que ela tem fun\u00e7\u00f5es que transcendem os objetivos imediatos e por isso pedimos que voc\u00ea considere com carinho ajudar a viabilizar a viagem destes adolescentes e ou promova esta ideia em outras escolas dentro e fora da comunidade. 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