﻿{"id":38437,"date":"2017-08-05T19:20:51","date_gmt":"2017-08-05T19:20:51","guid":{"rendered":"http:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=38437"},"modified":"2017-08-05T20:42:22","modified_gmt":"2017-08-05T20:42:22","slug":"odisseia-particular-por-meraldo-zisman","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=38437","title":{"rendered":"ODISSEIA PARTICULAR &#8211; POR MERALDO ZISMAN"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em style=\"line-height: 1.5;\"><strong><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/295_especial_4_11.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter  wp-image-38533\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/295_especial_4_11.jpg\" alt=\"295_especial_4_1\" width=\"223\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/295_especial_4_11.jpg 298w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/295_especial_4_11-90x135.jpg 90w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/295_especial_4_11-166x250.jpg 166w\" sizes=\"(max-width: 223px) 100vw, 223px\" \/><\/a>\u201cOs c\u00e3es s\u00e3o o nosso elo com o Para\u00edso. Eles n\u00e3o conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um c\u00e3o ao p\u00e9 de uma colina numa linda tarde, \u00e9 voltar ao \u00c9den onde ficar sem fazer nada n\u00e3o era t\u00e9dio, era paz.&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong> (Milan Kundera, escritor)<\/strong><\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao voltar de uma viagem resolvi adotar um c\u00e3o labrador. Fui a um canil para a escolha. Logo de sa\u00edda, fui por ele escolhido. Batizei-o com o nome de S\u00f3crates.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No primeiro ano que passamos a morar juntos ele traquinava quando eu saia. Ro\u00eda os moveis, fazia as suas necessidades por toda a casa, rasgava as toalhas, ralhava com ele amea\u00e7ando d\u00e1-lo para o quartel da pol\u00edcia militar para sentar pra\u00e7a como c\u00e3o farejador. O seu nome? S\u00f3crates. O mesmo causava estranheza por toda vizinhan\u00e7a. Quando, com ele passeava, confundiam o nome do fil\u00f3sofo S\u00f3crates com o craque futebol\u00edstico de igual apelido. Com o tempo passou a ser conhecido e querido por todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Argos, na mitologia grega, \u00e9 o c\u00e3o de Ulisses, her\u00f3i grego, que depois de passar 10 anos na Guerra de Tr\u00f3ia, sobreviveu outros 10 anos tentando regressar ao seu lar. Quando Ulisses lhe surgiu, disfar\u00e7ado de mendigo, Argos n\u00e3o teve a menor d\u00favida que estava perante seu dono. Recebeu-o como evidente reconhecimento e, deitando- se aos seus p\u00e9s, suspirou pela \u00faltima vez. Ulisses, que nem diante do poder e f\u00faria dos deuses fraquejou, derramou l\u00e1grimas a seu amigo. Argos \u00e9 um s\u00edmbolo da fiel rela\u00e7\u00e3o entre o animal e seus donos, fidelidade e dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O meu s\u00e1bio est\u00e1 envelhecendo. N\u00e3o corre, n\u00e3o brinca, e, quando o chamo, insistentemente, vem at\u00e9 mim mancando e, com grande esfor\u00e7o. O seu pelo, dantes lustroso, est\u00e1 embranquecendo, evidenciando a perda do vi\u00e7o. Sinto, ao contr\u00e1rio do grego Ulisses, que perderei meu grande amigo muito mais cedo do que eu gostaria. Para se ter um c\u00e3o, n\u00e3o se precisa ser um Ulisses das Odisseias, mas, ter um leg\u00edtimo sentimento pelo animal. Talvez essa seja a raz\u00e3o pela qual, n\u00f3s, seres humanos, nunca conseguimos ficar totalmente longe dos outros animais. Tanto no zool\u00f3gico quanto domesticados, os outros animais lembram-nos de algo que ficou para tr\u00e1s, mas cuja perda \u00e9 apavorante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Creio, mesmo, que teria sido um desterro, algo insuport\u00e1vel, Ulisses n\u00e3o ser reconhecido sequer pelo seu c\u00e3o. Quem sabe, n\u00e3o seja por outra raz\u00e3o que Freud, doente e aquebrantado, ao final de sua vida, s\u00f3 compreendeu que seu tempo acabara, quando at\u00e9 seu c\u00e3o, dele se afastou, pelo cheiro nauseabundo exalado do seu maxilar canceroso. Quando o c\u00e3o lhe virou as costas, a \u00faltima criatura que ainda lhe fazia suportar a vida, Freud desabou. Depois dessa recusa, ele sentia-se um \u201cningu\u00e9m.\u201d Rendeu-se, por fim, \u00e0 perecibilidade. Morreu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os c\u00e3es, diferente do que pensamos, entendem muito mais sobre a natureza do que n\u00f3s, eles \u00e9 que s\u00e3o s\u00e1bios, embora n\u00f3s sejamos os civilizados, aculturados, intelectualizados, marginalizados, quero dizer com isso, \u00e0 margem dessa sua sabedoria. Ah, S\u00f3crates, voc\u00ea \u00e9 o cantinho afetivo desta minha diminuta odisseia particular! Sinto isto, mas, pe\u00e7o-lhe, n\u00e3o te v\u00e1s t\u00e3o brevemente, amig\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DR. MERALDO ZISMAN \u2013 M\u00e9dico, psicoterapeuta, \u00e9 natural de Recife \u2013 Pernambuco. <a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=4915\" target=\"_blank\">Saiba mais.<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"meraldozisman@uol.com.br&lt;meraldozisman@uol.com.br&gt;\" target=\"_blank\">meraldozisman@uol.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cOs c\u00e3es s\u00e3o o nosso elo com o Para\u00edso. Eles n\u00e3o conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. 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