﻿{"id":41497,"date":"2018-02-01T18:52:22","date_gmt":"2018-02-01T18:52:22","guid":{"rendered":"http:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=41497"},"modified":"2018-02-01T18:52:22","modified_gmt":"2018-02-01T18:52:22","slug":"resenha-de-ceu-subterraneo-de-paulo-rosenbaum-por-reuven-faingold","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=41497","title":{"rendered":"RESENHA DE &#8220;C\u00c9U SUBTERR\u00c2NEO&#8221;, DE PAULO ROSENBAUM  &#8211; POR REUVEN FAINGOLD"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/306_especial_3_1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-41498\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/306_especial_3_1.jpg\" alt=\"306_especial_3_1\" width=\"300\" height=\"132\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/306_especial_3_1.jpg 300w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/306_especial_3_1-228x100.jpg 228w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><em>&#8220;Uma descida sem cordas rumo ao mais profundo mist\u00e9rio da exist\u00eancia humana&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cC\u00e9u subterr\u00e2neo\u201d do poeta e romancista Paulo Rosenbaum \u00e9 um convite a participar de uma jornada \u00fanica muito especial. A obra, profundamente existencial, enquadra dentro de um g\u00eanero policial pouco comum, que mistura mem\u00f3ria e identidade, exist\u00eancia e destino do ser humano. A ideia de criar um comum denominador entre o passado de uma cidade e a \u201cpsique humana\u201d (j\u00e1 comentada por Sigmund Freud em O Mal-Estar na Cultura); \u00e9 um grande desafio para poucos escritores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Roma nascida da lenda de R\u00f4mulo e Remo, ou a Jeric\u00f3 de muralhas impenetr\u00e1veis; emerge na obra de Rosenbaum das ru\u00ednas de Hebron, uma cidade conflitiva situada nas montanhas da Jud\u00e9ia a 40 quil\u00f4metros de Jerusal\u00e9m. A sua santidade \u00e9 resultado de dois fronts: uma narrativa de massacres e uma batalha permanente para obter a posse daquele lugar. Em Hebron, lugar denso, localidade repleta de hist\u00f3rias; paira um ar de m\u00edstica e esoterismo. Trata-se de um dos pontos geogr\u00e1ficos mais antigos do Planeta, o sitio em que foi registrada a primeira transi\u00e7\u00e3o comercial da hist\u00f3ria por Abraham, pai de \u00e1rabes e judeus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Efron ben Tzohar vendeu a gruta Makhpel\u00e1 ao Patriarca Abraham por 400 dinares. A fortaleza herodiana composta de uma muralha retangular passou a m\u00e3os bizantinas em 614 (virando bas\u00edlica), para logo acabar em poder dos \u00e1rabes em 637. Os cruzados os derrotam em 1.100, mas os mu\u00e7ulmanos a recuperam em 1.188 com Saladino, transformando-a em mesquita. No s\u00e9culo 13, tribos de mamelucos pro\u00edbem a entrada de n\u00e3o mu\u00e7ulmanos no recinto sagrado; uma proibi\u00e7\u00e3o ampliada ap\u00f3s 1929, agora durante o Mandato Brit\u00e2nico da Palestina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O atrativo tur\u00edstico de Hebron n\u00e3o era a cidade, mas a Makhpel\u00e1, o \u201cT\u00famulo dos Patriarcas\u201d, onde pela tradi\u00e7\u00e3o judaica estariam enterrados Abraham e Sara, Isaac e Rebeca, Jac\u00f3 e L\u00e9a. Para H\u00e1 fontes menos fidedignas que incluem os sepulcros de Mois\u00e9s e Tzipora e at\u00e9 de Ad\u00e3o e Eva. Segundo o \u201cS\u00eafer Hazohar\u201d (Livro do Esplendor) atribu\u00eddo ao grande s\u00e1bio R. Shimon Bar Yohai, na Makhpel\u00e1 est\u00e3o dispostas as portas para o \u201cPara\u00edso de Alto\u201d; deixando ainda em aberto a oportunidade de uma pessoa justa entrar no \u201cPara\u00edso de Baixo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No texto de Rosenbaum, Hebron \u00e9 o segundo lugar sagrado, seu ar m\u00edstico \u00e9 um ponto nevr\u00e1lgico de animosidades, afinal qualquer fagulha pode ascender os brios entre \u00e1rabes e judeus. A Hebron de \u201cC\u00e9u Subterr\u00e2neo\u201d abriga numerosos jornalistas e observadores internacionais. \u00c9 uma cidade que, teoricamente, havia superado os traum\u00e1ticos \u201cAcordos de Oslo\u201d em 1993, o tr\u00e1gico assassinato do Premi\u00ea Itzhak Rabin em 1995, o expansionismo xiita e at\u00e9 a \u201cPrimavera \u00c1rabe\u201d iniciada em dezembro de 2010.<br \/>\nNessa Hebron toda contempor\u00e2nea aparece o protagonista de \u201cC\u00e9u Subterr\u00e2neo\u201d: o psic\u00f3logo Adam Mondale, um judeu laico especialista em comportamento animal, destitu\u00eddo do cargo de diretor de uma renomada universidade brasileira, aposentado precocemente para embarcar em uma aventura \u00edmpar: buscar o significado oculto de uma fotografia pouco n\u00edtida hospedada faz algum tempo numa m\u00e1quina Polaroide.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Adam Mondale apresenta digress\u00f5es com relatos de sua fam\u00edlia. Nele desfilam sua esposa, seu sogro, pais (escravos da ind\u00fastria automobil\u00edstica alem\u00e3, sobreviventes do Holocausto), a ditadura no Brasil, as pesquisas acad\u00eamicas e, naturalmente, seu desejo de tornar-se um reconhecido escritor. Para Berta Waldman, Titular do Departamento de Literatura Hebraica da USP, Adam Mondale \u00e9 o alter ego do autor, contemplado com uma bolsa a Israel para pesquisar material e escrever seu pr\u00f3ximo livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo em que transcorre a jornada de Adam Mondale n\u00e3o \u00e9 cronol\u00f3gico. Suas aventuras come\u00e7am em Jerusal\u00e9m com a dificuldade para falar o hebraico, a conversa com o taxista que o deixa em plena madrugada na rua, as malas dif\u00edceis de carregar, o prec\u00e1rio apartamento alugado pela internet (a falta aquecimento na moradia), e a vontade de Adam de adaptar-se para que tudo na viagem desse certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No primeiro dia, j\u00e1 instalado em seu apartamento, Adam viaja de taxi a um laborat\u00f3rio fotogr\u00e1fico especializado em revela\u00e7\u00f5es de todo tipo. Ali ele entrega um negativo que poderia guardar parte de uma imagem original. O que conteria teria essa imagem? Pois \u00e9 essa imagem o n\u00facleo da trama, uma mescla de mist\u00e9rio e suspense, um misto de enigma e segredo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tal imagem \u00e9 da Makhpel\u00e1, por\u00e9m ela precisa ser decifrada. Que h\u00e1 de oculto na Makhpel\u00e1? Parafraseando Shakespeare: To be or not to be? Eis a quest\u00e3o&#8230; Uma foto ou um documento podem tirar qualquer pesquisador do anonimato ou do limbo da mediocridade. A santidade de Hebron afeta mentalmente o protagonista. Adam est\u00e1 ciente da import\u00e2ncia do lugar e isto o deixa perplexo, at\u00f4nito e euf\u00f3rico na sua constante busca. N\u00e3o \u00e9 exagerado afirmar que elucidar o que h\u00e1 na gruta da Makhpel\u00e1 passa a ser a obsess\u00e3o final do personagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O interlocutor imagin\u00e1rio de Adam Mondale \u00e9 Assis Beiras, a quem destina suas reflex\u00f5es metalingu\u00edsticas: \u201cSe h\u00e1 alguma fun\u00e7\u00e3o para o escritor, s\u00f3 pode ser fazer com que o leitor se afaste do m\u00e9todo e seja tomado pela imagina\u00e7\u00e3o. Tomado. S\u00f3 assim, com a fun\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o pura suspensa, a hist\u00f3ria funcionaria como uma vida \u00e0 parte. S\u00f3 assim poder\u00edamos circular entre os dois mundos, do autor ao leitor\u201d. Convenhamos que esta nobre proposta do autor n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil de concretizar; uma vez que cada um de n\u00f3s, (pobres mortais), mal sabe caminhar dentro de seu \u201cmundinho real\u201d; totalmente condicionado e delimitado por necessidades b\u00e1sicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Berta Waldman explica: \u201cna tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica judaica (especialmente na talm\u00fadica, ligada \u00e0 lei oral), a interpreta\u00e7\u00e3o do texto n\u00e3o visa apenas delimitar um sentido un\u00edvoco e definitivo; ao contr\u00e1rio, o respeito pela origem divina do texto impede sua cristaliza\u00e7\u00e3o e sua redu\u00e7\u00e3o a um sentido \u00fanico. Assim, o coment\u00e1rio tem antes por objetivo mostrar a profundidade ilimitada da palavra divina e preparar sua leitura infinita, para gerar novas camadas de sentido at\u00e9 ent\u00e3o ignoradas\u201d. Para ela, \u201co midrash contem, assim, um sentido que n\u00e3o se fixa. Como n\u00e3o se fixa, no sentido de n\u00e3o se definir exatamente, a imagem a partir da decifra\u00e7\u00e3o do que se oculta na Makhpel\u00e1. A imagem suja, prec\u00e1ria e indefinida \u00e9 identificada como uma poss\u00edvel fonte prim\u00e1ria&#8230;\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro \u201cC\u00e9u subterr\u00e2neo\u201d nos mostra que a interpreta\u00e7\u00e3o midr\u00e2shica n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica poss\u00edvel. Eu mesmo entendo ser mais apropriado fazer uma leitura p\u00f3s-moderna, na qual a superposi\u00e7\u00e3o de tempos do romance, o mundo imagin\u00e1rio que surge em torno do psic\u00f3logo Adam Mondale, o mist\u00e9rio oculto a ser desvendado e a realidade vol\u00e1til (em choque permanente com a exist\u00eancia cotidiana), geram um clima em que o homem convive com um universo de \u00edcones e signos que pedem esclarecimento e elucida\u00e7\u00e3o de um sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cC\u00e9u Subterr\u00e2neo\u201d de Paulo Rosenbaum \u00e9 um convite para viajar no t\u00fanel do tempo. \u00c9 um livro para tentar resgatar a camada oculta de nossa exist\u00eancia e, acima de tudo, para \u201cescapar\u201d (mesmo por algumas horas ou dias); de nosso repetitivo e muitas vezes mon\u00f3tono mundo cotidiano. Leitura instigante e cativante, o romance \u00e9 uma &#8220;descida sem cordas rumo ao mais profundo mist\u00e9rio da exist\u00eancia humana&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reuven Faingold \u00e9 historiador e educador; PhD em Hist\u00f3ria e Hist\u00f3ria Judaica pela Universidade Hebraica de Jerusal\u00e9m. \u00c9 tamb\u00e9m s\u00f3cio fundador da \u201cSociedade Geneal\u00f3gica Judaica do Brasil\u201d e, desde 1984, membro do \u201cCongresso Mundial de Ci\u00eancias Judaicas\u201d em Jerusal\u00e9m. Atualmente, \u00e9 o diretor dos projetos educativos do \u201cMemorial da Imigra\u00e7\u00e3o Judaica e do Holocausto\u201d em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/conto-de-noticia\/ceu-subterraneo-por-reuven-faingold\/\" target=\"_blank\">http:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/conto-de-noticia\/ceu-subterraneo-por-reuven-faingold\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Uma descida sem cordas rumo ao mais profundo mist\u00e9rio da exist\u00eancia humana&#8221; \u201cC\u00e9u subterr\u00e2neo\u201d do poeta e romancista Paulo Rosenbaum \u00e9 um convite a participar de uma jornada \u00fanica muito especial. A obra, profundamente existencial, enquadra dentro de um g\u00eanero policial pouco comum, que mistura mem\u00f3ria e identidade, exist\u00eancia e destino do ser humano. 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