﻿{"id":45584,"date":"2018-09-27T19:21:03","date_gmt":"2018-09-27T19:21:03","guid":{"rendered":"http:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=45584"},"modified":"2018-09-27T19:21:03","modified_gmt":"2018-09-27T19:21:03","slug":"cremacao-da-memoria-por-paulo-rosenbaum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=45584","title":{"rendered":"CREMA\u00c7\u00c3O DA MEM\u00d3RIA &#8211; POR PAULO ROSENBAUM"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/322_especial_3_1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-45586\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/322_especial_3_1-254x250.jpg\" alt=\"322_especial_3_1\" width=\"254\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/322_especial_3_1.jpg 254w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/322_especial_3_1-137x135.jpg 137w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/322_especial_3_1-50x50.jpg 50w\" sizes=\"(max-width: 254px) 100vw, 254px\" \/><\/a>Os museus s\u00e3o particularmente perigosos para os autocratas. Pois eles s\u00e3o, afinal, o conjunto de um invent\u00e1rio do que j\u00e1 fizemos. Eles guardam o que produzimos e as lacunas que ainda precisavam ser preenchidas. Que para cada museu interditado, destru\u00eddo ou queimado fa\u00e7a surgir, em cada esquina, um museu de ressarcimento.<\/strong><\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/322_especial_3_2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-45585\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/322_especial_3_2.jpg\" alt=\"322_especial_3_2\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/322_especial_3_2.jpg 300w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/322_especial_3_2-180x135.jpg 180w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Museu: chave anal\u00f3gica, reuni\u00e3o-dispers\u00e3o. Foco, ponto de converg\u00eancia, greg\u00e1rio. Conservat\u00f3rio, galeria, tesouro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fatalidade: Vontade-necessidade. N\u00e3o ter direito \u00e0 escolha, estar \u00e0 merc\u00ea de, s\u00f3 ter uma sa\u00edda, ser levado \u00e0 parede, n\u00e3o depender do alvedrio de ningu\u00e9m, demitir de si a vontade. Os seus dias est\u00e3o contados. O que for, soar\u00e1. Isto \u00e9 dos livros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o irei escrever &#8211; o que competentes articulistas especializados decerto far\u00e3o &#8212; sobre os 20 milh\u00f5es de itens hist\u00f3ricos que evaporaram e subiram como cinzas sob o distra\u00eddo c\u00e9u que hoje paira sobre o rio de janeiro. Nem sobre os esfor\u00e7os de D. Pedro II em arregimentar e zelar pelo patrim\u00f4nio hist\u00f3rico material e imaterial do Pa\u00eds. Tamb\u00e9m evitarei mencionar os 470 mil volumes os quais, junto com as pe\u00e7as hist\u00f3ricas, quase foram incinerados no altar da amn\u00e9sia anunciada. N\u00e3o sobra muito para dizer a n\u00e3o ser reduzir tudo \u00e0 solenidade do sil\u00eancio. Lamentar a falta de dignidade de uma luta invis\u00edvel que est\u00e1 sendo travada no Brasil. Luta que est\u00e1, simbolicamente, representada neste inc\u00eandio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7arei invertendo a ordem: n\u00e3o \u00e9 que h\u00e1 perigo nos museus. \u00c9 que museus s\u00e3o perigosos. Especialmente quando vivos. Quando longe das m\u00e3os sect\u00e1rias e censoras. De gest\u00f5es sob os aparelhamentos que dominaram o Pa\u00eds. Afinal, \u00e9 l\u00e1 que a cultura fenece sem sequer ter sido devidamente apreciada. Todo museu \u00e9 cr\u00edtico. O museu \u00e9, talvez, a mais perfeita representa\u00e7\u00e3o do inconsciente. Nos for\u00e7a, atrav\u00e9s dos sonhos, mas tamb\u00e9m fora deles, a rever o que preferimos ignorar. E entender o que prefer\u00edamos ter despejado. Nos mapas e livros rasurados pelo inferno das inquisi\u00e7\u00f5es. Nas fotos que congelavam paisagens que j\u00e1 nem existiam. Em pinturas e esculturas jamais catalogadas. Em m\u00famias que aguardavam o despertar das novas gera\u00e7\u00f5es. Em acervos drenados em ralos sem manuten\u00e7\u00e3o. Em meteoritos gigantes que viajaram anos-luz para vir ter \u00e0 Terra para provar da nossa incompet\u00eancia. Entre fios sem capa. Em mangueiras furadas, em hidrantes vazios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, neste dia 02 de setembro, os habitantes atuais e futuros foram privados para sempre de saber o que os antecedeu. Quem j\u00e1 n\u00e3o escutou o desafio dos eternos ne\u00f3fitos: para qu\u00ea o passado? Os be\u00f3cios ocultos que aparecem durante as vota\u00e7\u00f5es. Afinal o que significa um museu quando existem outras prioridades?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, e se mem\u00f3ria fosse o \u00fanico bem pol\u00edtico real? E se sua preserva\u00e7\u00e3o assegurasse que os erros antigos fossem cada vez menos frequentes? E se a hist\u00f3ria, representada pelos objetos que hoje se extraviaram no descaso do infinito, resumisse a \u00fanica li\u00e7\u00e3o significativa? Aquela que permanece a despeito das tentativas de sufoc\u00e1-la? A \u00fanica reminisc\u00eancia que sossobra das aulas enquanto os rel\u00f3gios ainda contam as sequencias cronol\u00f3gicas? Como pudemos permitir que o tempo fosse invadido por aqueles que se acostumaram a negar a hist\u00f3ria? E da hist\u00f3ria que insiste em ser desconsiderada por aqueles que preferem ignor\u00e1-la? Ou, soterr\u00e1-la nos escombros do pragmatismo. J\u00e1 se perguntaram o que querem eles? Sim, pois eles continuam a desfilar o discurso sem conte\u00fado, a narrativa que todos n\u00f3s j\u00e1 conhecemos na tortura di\u00e1ria em r\u00e1dio e TV. Para al\u00e9m do que se convencionou chamar &#8220;hor\u00e1rio eleitoral gratuito para pol\u00edticos&#8221;, um verdadeiro \u00f4nus para todos os demais. \u00c9 que a conspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa de existir s\u00f3 porque parece urdir paranoias. E, em geral, mimetiza a palavra m\u00e1gica sacada pelos legisladores em ocasi\u00f5es como essa: fatalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro: Fatalidade prevista. Fatalidade profetizada. Fatalidade recheada de pren\u00fancios. Como a inc\u00eandio da Boite Kiss. Como as passarelas que desabam, viadutos que desmancham, enchentes que arrastam, barragens que estouram, edif\u00edcios que desmoronam, viol\u00eancia ampla geral e irrestrita que n\u00e3o cede, como as filas de pacientes sem leito empilhados nos corredores, como os impostos financiando regalias e tribunais que alimentam a inseguran\u00e7a jur\u00eddica com b\u00f4nus especulativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Decerto, todos signos da mesm\u00edssima fatalidade. Desta fatalidade que s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 muito mais fatalidade do que n\u00e3o poder prever o \u00f3bvio. Fatalidade que surge no improviso e \u00e9 o \u00e1libi do despreparo. Da imper\u00edcia de agentes que, p\u00fablicos, n\u00e3o sabem o valor daquilo pelo qual deveriam zelar. De gente, que prefere que o esquecimento ven\u00e7a o conhecimento. O simb\u00f3lico do atraso \u00e9 precisamente escolher a borracha para corrigir o que foi grafado pelas tintas acusat\u00f3rias do passado. Um passado que, mais do que nunca, reafirmaria a verdade em suas m\u00faltiplas perspectivas dial\u00f3gicas. Os museus s\u00e3o particularmente perigosos para os autocratas. Pois eles s\u00e3o, afinal, o conjunto de um invent\u00e1rio do que j\u00e1 fizemos. Eles guardam o que produzimos e as lacunas que ainda precisavam ser preenchidas. Que para cada museu interditado, destru\u00eddo ou queimado fa\u00e7a surgir, em cada esquina, um museu de ressarcimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qui\u00e7\u00e1 o luto de acervo, essa volunt\u00e1ria crema\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, sirva para refazer o vazio. E funcione como inusitado fator de uni\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Altamente improv\u00e1vel, mas como certa vez o fil\u00f3sofo deixou grafado &#8220;s\u00f3 o improv\u00e1vel tem alguma chance de ser poss\u00edvel&#8221;.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO ROSENBAUM &#8211; M\u00e9dico e escritor, assina a coluna semanal \u201cCoisas da Pol\u00edtica\u201d, no JB \u2013 Jornal do Brasil. <a title=\"PAULO ROSENBAUM\" href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=5109\">Saiba mais.<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os museus s\u00e3o particularmente perigosos para os autocratas. Pois eles s\u00e3o, afinal, o conjunto de um invent\u00e1rio do que j\u00e1 fizemos. Eles guardam o que produzimos e as lacunas que ainda precisavam ser preenchidas. Que para cada museu interditado, destru\u00eddo ou queimado fa\u00e7a surgir, em cada esquina, um museu de ressarcimento. 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