﻿{"id":50164,"date":"2019-09-07T21:04:03","date_gmt":"2019-09-07T21:04:03","guid":{"rendered":"http:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=50164"},"modified":"2019-09-19T21:22:19","modified_gmt":"2019-09-19T21:22:19","slug":"identidade-judaica-na-mesa-por-henrique-veltman","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=50164","title":{"rendered":"IDENTIDADE JUDAICA NA MESA &#8211; POR HENRIQUE VELTMAN"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/341_especial_2_1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-50165\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/341_especial_2_1-250x250.jpg\" alt=\"341_especial_2_1\" width=\"250\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/341_especial_2_1-250x250.jpg 250w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/341_especial_2_1-135x135.jpg 135w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/341_especial_2_1-50x50.jpg 50w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/341_especial_2_1.jpg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><\/a>Nos filmes judaicos (e filmes sobre judeus) a comida \u00edidiche, casher ou n\u00e3o, representa tradi\u00e7\u00f5es, hist\u00f3ria e identidade. Pra n\u00e3o ir muito longe, \u00e9 o que acontece nos filmes de Woody Allen.<\/strong><\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 muitos anos, escrevi um artigo sobre a via gastron\u00f4mica da identidade judaica. Eu falava da m\u00e1gica do guefilte fish, do herring, do borscht e dos vareniques sobre o mais desligado dos judeus, at\u00e9 mesmo aqueles que se declaram brasileiros de remota origem judaica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Narrei a aventura vivida no restaurante Europa (que n\u00e3o existe mais), no Bom Retiro, quando alguns dirigentes do Fundo Comunit\u00e1rio, \u00e0 custa de algumas doses generosas de vodca e um prato cheio de vareniques e kischkes, lograram comover o cora\u00e7\u00e3o empedernido de um empres\u00e1rio da \u00e1rea de revistas e TV, e arrancar, ali mesmo, na mesa do restaurante, uma generosa contribui\u00e7\u00e3o para a Magbit.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, em muitas ocasi\u00f5es, o caminho mais f\u00e1cil para que algu\u00e9m assuma ou reassuma a sua identidade, passa necessariamente pela tradicional mesa judaica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa edi\u00e7\u00e3o da revista de A Hebraica, num janeiro que j\u00e1 vai longe, o Breno Lerner escreveu com talento sobre a falta de charme da culin\u00e1ria de Hollywood. Mas ele n\u00e3o comentou a presen\u00e7a i\u00eddiche na s\u00e9tima arte americana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a\u00ed surge a pergunta, e a culin\u00e1ria judaica, como ela \u00e9 tratada no cinema americano?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos filmes judaicos (e filmes sobre judeus) a comida \u00edidiche, casher ou n\u00e3o, representa tradi\u00e7\u00f5es, hist\u00f3ria e identidade. Pra n\u00e3o ir muito longe, \u00e9 o que acontece nos filmes de Woody Allen.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Beigales e caviar<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Beigales, matzot e sandu\u00edches de pastrami em p\u00e3o de centeio s\u00e3o definitivamente judeus. J\u00e1 o p\u00e3o de forma branco, a maionese, o presunto e as lagostas simbolizam tudo o que n\u00e3o faz parte do universo judaico. Como dizia o comediante Lenny Bruce, &#8220;presunto enlatado \u00e9 goy e p\u00e3o de centeio \u00e9 i\u00eddiche?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em A Hist\u00f3ria de Benny Goodman , filme de Valentine Davies de 1955, o personagem principal namora uma gentia. Quando ela pergunta \u00e0 m\u00e3e de Goodman a raz\u00e3o pela qual se op\u00f5e ao casamento, a futura sogra responde: &#8220;Beigales e caviar simplesmente n\u00e3o combinam&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A saudosa Nora Ephron, que escreveu os roteiros de Julia e Julie, Harry e Sally e Sintonia de Amor, traduziu como gentio o car\u00e1ter \u00e9tnico-social da maionese Hellman\u2019s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No filme Hannah e Suas Irm\u00e3s, o personagem Mickey, interpretado por Woody Allen, resolve se converter ao catolicismo. Chega em casa, retira da sacola do supermercado uma embalagem de Wonder Bread e um vidro de maionese Hellman\u2019s.<br \/>\nA antrop\u00f3loga americana Ruth Behar \u00e0s vezes expressa o desconforto que sente por ter se casado com um homem que come &#8220;p\u00e3o branco e maionese&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No telefilme de Susan Mogul, realizado em 1984, The Last Jew in America, Barbara, a hero\u00edna que tenta atrair um rapaz judeu fingindo ser crist\u00e3, compra um p\u00e3o de forma Wonder Bread e remove de sua despensa n\u00e3o apenas a caixa de matz\u00e1 como tamb\u00e9m todas as embalagens de comida chinesa (prefer\u00eancia absoluta entre os judeus norte-americanos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No filme Essa Estranha Atra\u00e7\u00e3o, dirigido por Paul Bogart em 1988, Anne Bancroft, que interpreta a m\u00e3e do protagonista gay, vasculha os arm\u00e1rios da cozinha na casa do filho \u00e0 procura de farinha de matz\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando encontra a caixa, n\u00e3o se cont\u00e9m: &#8220;Ele tem matzemail! Eu o criei como se deve!&#8221; O fato do filho usar um produto tipicamente judaico torna-se, naquele momento, uma compensa\u00e7\u00e3o frente a sua op\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No centro do conflito<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na famosa seq\u00fc\u00eancia do orgasmo em Harry e Sally, filmada na Katz\u2019s, tradicional delicatessen kasher no Lower East Side de Manhattan, Harry, como bom judeu, pede um sandu\u00edche de pastrami no p\u00e3o de centeio e faz cara feia quando Sally, a shikse, escolhe um sandu\u00edche de peito de peru e maionese no p\u00e3o branco. Uma cena parecida acontece em Noivo Neur\u00f3tico, Noiva Nervosa, um Woody Allen de 1977.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o dos sandu\u00edches simboliza as diferen\u00e7as culturais entre judeus e suas amadas n\u00e3o judias e os problemas que, talvez, venham a enfrentar no futuro. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 deles a prerrogativa: tanto em Noivo Neur\u00f3tico, Noiva Nervosa como em A descoberta de Leon (1992), de Jean Vadim e Gary Sinyor, tentativas pat\u00e9ticas de escaldar, cozinhar e comer lagostas evidenciam a dist\u00e2ncia entre desajeitados protagonistas judeus e seus objetos (n\u00e3o judaicos) de atra\u00e7\u00e3o er\u00f3tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A carne de porco, proibida pelas leis da kashrut, tamb\u00e9m sinaliza o abismo entre judeus e gentios, representando tudo aquilo que \u00e9 taref, treif, ou n\u00e3o kasher. L\u00e1 atr\u00e1s, em 1930, Big Boy, filme estrelado por Al Jolson, termina com o protagonista cantando as alegrias de voltar para casa, \u00e0 sua pequena cabana. Rica em detalhes, a letra da m\u00fasica exalta o aroma do presunto que sua m\u00e3e prepara. Uma breve pausa e, ent\u00e3o, Al Jolson diz: &#8220;Presunto?&#8230;Espere a\u00ed! Esta n\u00e3o \u00e9 a minha casa!&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em O Cantor de Jazz o personagem desse mesmo Al Jolson faz quest\u00e3o de consumir ostensivamente comida n\u00e3o kasher: assim que abandona a casa de sua fam\u00edlia ortodoxa para lutar por uma carreira no palco, ele entra num restaurante, pede salsichas e ovos e praticamente dan\u00e7a de satisfa\u00e7\u00e3o na cadeira ao saborear o proibido. H\u00e1 at\u00e9 mesmo uma tomada do prato e a cena na qual come bacon sublinhando a rapidez de sua assimila\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mobilidade social<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No filme Europa, Europa, de 1991, dirigido por Agnieska Holland, cujo pano de fundo \u00e9 o Holocausto, \u00e9 servido presunto ao her\u00f3i judeu que se faz passar por gentio durante um jantar na casa da namorada. Ele come para ocultar sua origem e sobreviver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No filme Um Pre\u00e7o Acima dos Rubis, de Boaz Yakin, a protagonista usa um cachorro-quente comprado numa esquina de Nova York para indicar sua revolta contra o hass\u00eddismo. Mais tarde, em outra seq\u00fc\u00eancia, seu marido e o rabino, que \u00e9 terapeuta do casal, ficam chocados quando ela confessa que mant\u00e9m a kashrut apenas &#8220;em casa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em A Era do R\u00e1dio, de Woody Allen, uma seq\u00fc\u00eancia antol\u00f3gica mostra uma fam\u00edlia judia sentada em casa durante o Iom Kipur, todos famintos e entediados. Quando vizinhos judeus, ateus e comunistas, aumentam ao m\u00e1ximo o volume do r\u00e1dio, o pai bate \u00e0 porta deles para reclamar. Uma hora depois volta para casa, satisfeito e convertido ao comunismo. Mas imediatamente come\u00e7a a ter indigest\u00e3o gra\u00e7as ao presunto e \u00e0s batatas fritas com que quebrara o jejum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Noivo Neur\u00f3tico, Noiva Nervosa, Allen expressa seu desconforto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 culin\u00e1ria da fam\u00edlia de Annie (Diane Keaton). Quando Alvy, seu personagem, \u00e9 convidado para o almo\u00e7o de P\u00e1scoa na casa dos futuros sogros anglo-sax\u00f5es protestantes, cumprimenta a av\u00f3 por seu &#8220;presunto-dinamite&#8221;. Enquanto isso, a velhinha o imagina vestindo a longa capota preta e o chap\u00e9u dos judeus hass\u00eddicos. O recurso da tela dividida na seq\u00fc\u00eancia seguinte, sobrepondo ambas as fam\u00edlias \u00e0 mesa durante uma refei\u00e7\u00e3o, refor\u00e7a as diferen\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A assimila\u00e7\u00e3o na comida<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alimentos proibidos tamb\u00e9m s\u00e3o sinais de sofistica\u00e7\u00e3o e de assimila\u00e7\u00e3o. A revista Commentary publicou na d\u00e9cada de 1970 um an\u00fancio de p\u00e1gina inteira do vinho italiano Bolla em que a garrafa aparecia em meio a frutos do mar e salames, claramente identificando os elementos que compunham a foto com eleg\u00e2ncia e cosmopolitismo&#8230; Apesar do leitorado da revista ser considerado moderno, esse an\u00fancio pegou mal entre os leitores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Woody Allen usa o mesmo tipo de associa\u00e7\u00e3o em Mem\u00f3rias, de 1980. Quando Sandy (Allen) e Dorrie (Charlotte Rampling) se beijam pela primeira vez, ela murmura entre um abra\u00e7o e outro: &#8220;Por que n\u00e3o saio por um minuto e compro algo para comermos? N\u00f3s podemos ficar em casa e cozinhar!&#8221; A entona\u00e7\u00e3o da atriz \u00e0 palavra &#8220;cozinhar&#8221; indica que ela tem outras iguarias em mente. Sua sofistica\u00e7\u00e3o e as proezas sexuais que sugere se expressam nas del\u00edcias de preparar entre beijos e abra\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certa vez, Nora Ephron levantou a hip\u00f3tese de que talvez comprasse Gourmet, conhecida revista de gastronomia americana, porque seria o mais pr\u00f3ximo a uma mulher gentia que ela jamais chegaria a ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O m\u00e9dico judeu de Tudo o Que Voc\u00ea Sempre Quis Saber Sobre Sexo Mas Tinha Medo de Perguntar pede caviar como prel\u00fadio \u00e0s atividades sexuais que est\u00e1 prestes a manter com uma ovelha. Frutos do mar, em especial a lagosta, s\u00e3o \u00edcones que representam lux\u00faria e excesso. Para Allen, lagostas simbolizam um desejo sexual insaci\u00e1vel, s\u00e3o como ardentes encontros il\u00edcitos em contraponto aos pratos rotineiros de um casamento. Alvy e Annie fortalecem seu relacionamento em Noivo Neur\u00f3tico, Noiva Nervosa quando, a quatro m\u00e3os, eles matam, cozinham e comem lagostas. Em Sonhos Er\u00f3ticos de uma Noite de Ver\u00e3o, quando sua esposa interroga-o a respeito de um antigo relacionamento, Allen responde com um certo nervosismo: &#8220;Sa\u00edmos juntos uma vez&#8230; e comemos algumas lagostas, isto foi tudo!&#8221;. Num epis\u00f3dio da s\u00e9rie Seinfeld, Jerry namora uma garota judia que mant\u00e9m a kashrut e, portanto, se recusa a comer a lagosta que Jerry, George, Kramer e Elaine pescaram durante o fim-de-semana em Long Island. Durante todo o jantar, os quatro amigos falam como a lagosta est\u00e1 deliciosa e suculenta e a tenta\u00e7\u00e3o acaba excessiva. No meio da noite, a garota se esgueira at\u00e9 a cozinha em busca da lagosta. Mas Kramer, adivinhando que isso aconteceria, fica em frente \u00e0 geladeira e a pro\u00edbe de comer, tornando-se guardi\u00e3o auto proclamado dos seus princ\u00edpios. Neste caso, a lagosta significa claramente tenta\u00e7\u00e3o e abandono e, ao n\u00e3o com\u00ea-la, a mo\u00e7a mant\u00e9m-se ritualmente pura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tabu do incesto<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rela\u00e7\u00e3o entre restri\u00e7\u00f5es diet\u00e9ticas e sexuais faz parte da cultura judaica e s\u00e3o comuns as interpreta\u00e7\u00f5es que ligam o sexo \u00e0 kashrut. Na verdade, est\u00e3o inexoravelmente vinculados desde que Ad\u00e3o e Eva comeram a ma\u00e7\u00e3 no Paraiso. Num artigo publicado em 1979 no New York Review of Books, Jean Soler sustenta que o tabu do incesto b\u00edblico est\u00e1 ligado \u00e0 enigm\u00e1tica proibi\u00e7\u00e3o de se cozer a cria no leite materno, observando que &#8220;m\u00e3e e filho n\u00e3o devem ocupar a mesma panela da mesma forma que n\u00e3o devem ocupar a mesma cama&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Comida e sexualidade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alisa Lebow e Cynthia Madansky deram o t\u00edtulo de Taref num document\u00e1rio sobre l\u00e9sbicas judias, de 1998. No filme que Tony Goldwyn fez em 1999, A Walk on the Moon, uma jovem religiosa come bacon pela primeira vez e indica que se sente mais alerta sexualmente. Na cena final do orgasmo em Harry e Sally uma senhora na mesa ao lado se dirige ao gar\u00e7om: &#8220;Vou comer o que ela est\u00e1 comendo&#8221;, talvez uma insinua\u00e7\u00e3o sobre o efeito er\u00f3tico que a comida n\u00e3o kasher pode ter sobre judeus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A obra inteira de Woody Allen cont\u00e9m refer\u00eancias sobre sexo e comida. S\u00e3o quase sin\u00f4nimos em seus filmes. Em Noivo Neur\u00f3tico, Noiva Nervosa, ele diz: &#8220;Agora vamos nos beijar&#8230; depois, sa\u00edmos para comer&#8221;. Em outra cena, quando chega ao apartamento de Annie, em Manhattan, pronto para ir para a cama com ela, pergunta: &#8220;Voc\u00ea tem alguma coisa para comer em casa?&#8221; \u00c9 uma quest\u00e3o delicada: sua incapacidade de cozinhar torna-o impotente. Ainda em Mem\u00f3rias Charlotte Rampling comenta: &#8220;Seu espaguete podia ter cozinhado mais uns vinte minutos&#8221;, ao que Allen retruca perguntando: &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o quer macarr\u00e3o mole demais, quer?&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Casamenteiros<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas situa\u00e7\u00f5es envolvendo sexualidade foram ambientadas nos hot\u00e9is de veraneio das montanhas Catskills, ao norte de Nova York, alimentando conscientemente o v\u00ednculo entre a tradi\u00e7\u00e3o judaica dos &#8220;casamenteiros&#8221; e a culin\u00e1ria kasher. Freq\u00fcentados principalmente por fam\u00edlias judias, os Catskills s\u00e3o usados por entidades que organizam fins de semana para grupos de judeus solteiros em busca de um par, um conhecido reduto rom\u00e2ntico, at\u00e9 de lua-de-mel. Um an\u00fancio do hotel mais famoso da regi\u00e3o, o Grossinger\u2019s, sugeria que, ali, as refei\u00e7\u00f5es eram pr\u00f3prias para os h\u00f3spedes se conhecerem e chegarem a casamentos end\u00f3gamos e depois aben\u00e7oados com filhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A refei\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia judia \u00e9 quase sempre o momento escolhido para o debate filos\u00f3fico que faz parte do roteiro. Cenas-chave s\u00e3o rodadas \u00e0 mesa, certamente a loca\u00e7\u00e3o mais apropriada para di\u00e1logos socr\u00e1ticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No filme Avalon, de Barry Levinson, a comemora\u00e7\u00e3o do Dia de A\u00e7\u00e3o de Gra\u00e7as por uma fam\u00edlia de imigrantes judeus \u00e9 um sens\u00edvel coment\u00e1rio sobre culin\u00e1ria e cultura judaicas que revela o legado da imigra\u00e7\u00e3o, relata a hist\u00f3ria da assimila\u00e7\u00e3o dos integrantes e deixa entrever os desvios dos valores \u00e9tnicos que vigoravam na Europa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na com\u00e9dia Entrando Numa Fria, Greg Focker, interpretado por Ben Stiller, \u00e9 um judeu que quer se casar com uma americana loira, anglo-sax\u00f4nica e protestante e, por esta raz\u00e3o, a acompanha numa visita \u00e0 casa dos pais, no norte de Long Island, pr\u00f3ximo a Nova York. Mas tudo conspira para lembr\u00e1-lo de que ele n\u00e3o passa de um judeu classe m\u00e9dia, e nisso se esmera o pai da namorada, Jack Byrnes, um ex-agente da CIA interpretado por um hilariante e paran\u00f3ico Robert De Niro. As situa\u00e7\u00f5es mais simples ocultam grandes perigos e a seq\u00fc\u00eancia em torno da mesa de jantar ganha import\u00e2ncia especial ao assinalar a dist\u00e2ncia cultural entre o judeu Focker e os wasp Byrnes. Convidado a pronunciar a b\u00ean\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as antes da refei\u00e7\u00e3o, Jack ouve da filha que &#8220;Greg \u00e9 judeu&#8221;. &#8220;Eu tenho certeza de que os judeus aben\u00e7oam seu alimento&#8221;, responde o pai com um sorriso. Greg n\u00e3o tem outra sa\u00edda, e resolve o problema repetindo os versos da trilha sonora de um filme Gospell, A Esperan\u00e7a. As refei\u00e7\u00f5es continuam a ser o terreno minado. Ele aparece no dia seguinte, no caf\u00e9 da manh\u00e3, comendo um beigale, o que claramente o identifica como judeu.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">HENRIQUE VELTMAN \u00e9 jornalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"hbv@uol.com.br%20&lt;hbv@uol.com.br&gt;\" target=\"_blank\">hbv@uol.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos filmes judaicos (e filmes sobre judeus) a comida \u00edidiche, casher ou n\u00e3o, representa tradi\u00e7\u00f5es, hist\u00f3ria e identidade. Pra n\u00e3o ir muito longe, \u00e9 o que acontece nos filmes de Woody Allen. H\u00e1 muitos anos, escrevi um artigo sobre a via gastron\u00f4mica da identidade judaica. 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