﻿{"id":50720,"date":"2019-10-12T22:54:05","date_gmt":"2019-10-12T22:54:05","guid":{"rendered":"http:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=50720"},"modified":"2019-10-12T22:54:05","modified_gmt":"2019-10-12T22:54:05","slug":"um-passeio-pelo-olhar-de-marjorie-sonnenschein-por-ric-peruchi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=50720","title":{"rendered":"UM PASSEIO PELO OLHAR DE MARJORIE SONNENSCHEIN &#8211; POR RIC PERUCHI"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Para a fot\u00f3grafa falecida no \u00faltimo dia 20 (de setembro), o artista \u00e9 um fazedor que enxerga a poesia dos momentos cotidianos. Fotografou de Elis Regina e Hilda Hilst a Adoniran e Chico Xavier, e dizia que a beleza do retrato est\u00e1 na troca e na entrega.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_11.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-50722\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_11-375x250.png\" alt=\"343_especial_5_1\" width=\"375\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_11-375x250.png 375w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_11-203x135.png 203w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_11.png 512w\" sizes=\"(max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marjorie Sonnenschein, entrevistada por Ric Peruchi<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neta de judeus austr\u00edacos assassinados em Auschwitz, Marjorie Sonnenschein nasceu em Fortaleza, em 26 de maio de 1944, e radicou-se em S\u00e3o Paulo no final dos anos 50. Depois de passar pela ilustra\u00e7\u00e3o, pela pintura e pelo cinema, fixou-se na arte fotogr\u00e1fica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Suas composi\u00e7\u00f5es visuais v\u00e3o da sutil explora\u00e7\u00e3o das escalas de cinza at\u00e9 a imers\u00e3o completa na cor, estabelecendo ou eliminando as fronteiras entre o figurativo e o abstrato. A partir das coisas, dos lugares e das pessoas, realizou uma meticulosa constru\u00e7\u00e3o da beleza, com absoluta precis\u00e3o nas linhas, nos enquadramentos, nas tonalidades e na captura da iman\u00eancia de tudo aquilo que fixou com suas lentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 45 anos de carreira, sempre relutante em expor e comercializar seus trabalhos, inquieta por perseguir a perfei\u00e7\u00e3o, permaneceu como a mais \u201cmaldita\u201d entre os grandes fot\u00f3grafos brasileiros, em poucas e raras exposi\u00e7\u00f5es, apesar da vasta e relevante produ\u00e7\u00e3o. Marjorie tem como legado uma obra que se caracteriza pelo di\u00e1logo intenso com as demais artes e a busca pelo essencial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Forma\u00e7\u00e3o e in\u00edcio<\/strong><br \/>\nIniciou-se no desenho, tendo estudado na Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Artes. Passou pela pintura, quando trabalhou com Lise Forell, Gershon Knispel e Harry Elsas. Dividiu ateli\u00ea com Gontran Guanaes Netto e Ionaldo Cavalcanti.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua primeira exposi\u00e7\u00e3o individual foi em um Kibutz em Israel, onde viveu por alguns meses, em 1967, por incentivo de Paulo Ludmer. De volta ao Brasil, trabalhou na produtora de anima\u00e7\u00e3o Lynxfilm, como assistente de Ruy Perotti e Daniel Messias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seguida, integrou a equipe do diretor de arte Edmar Salles na revista Claudia da Editora Abril. Seu talento como ilustradora e fot\u00f3grafa foi descoberto por Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o que a levou para a reda\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias publica\u00e7\u00f5es que editou, incluindo as revistas Planeta e Status.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Colaborou com O Estado de S\u00e3o Paulo, para o qual ilustrou as cr\u00edticas teatrais de S\u00e1bato Magaldi, no Caderno 2, e outros textos para o Suplemento Liter\u00e1rio, em desenhos de inspira\u00e7\u00e3o surrealista que assinava como Marjorie Baum, sobrenome de seu primeiro casamento. Na Associa\u00e7\u00e3o Amigos do MAM, o lend\u00e1rio Bar do MAM, na Rua 7 de abril, sob curadoria de Francisco de Almeida Salles, exibiu seus desenhos e pinturas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cinema e livros<\/strong><br \/>\nIngressou na Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), onde foi aluna de Paulo Em\u00edlio Salles Gomes, Roberto Santos e Rud\u00e1 de Andrade. Dirigiu dois curtas-metragens. \u201cSteinberg\u201d (1971), uma parceria com Roman Stulbach e Marcelo Tassara, desenvolvido a partir da t\u00e9cnica do tabletop, leva \u00e0 pel\u00edcula os desenhos, textos e cartas do norte-americano Saul Steinberg. \u201cO castelo do Morro dos Ingleses\u201d (1973), produzido e dirigido inteiramente por ela, \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o livre do conto \u201cA casa tomada\u201d de Julio Cort\u00e1zar. Os filmes integram o acervo da Cinemateca Brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas foi na fotografia que definiu sua trajet\u00f3ria. Clicou na Europa, nos Estados Unidos, no Canad\u00e1, em Israel e na Am\u00e9rica Latina, mas principalmente no Brasil, de Norte a Sul. Abriu caminhos na fotografia de paisagem e de arquitetura e se tornou, sobretudo, uma indiscut\u00edvel mestra do portrait. Teve grande influ\u00eancia de Ansel Adams, Georgia O\u2019Keefe e Mark Rothko, dominava igualmente a escala de cinzas e o abstracionismo crom\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob suas lentes passaram grandes personalidades, como Pel\u00e9, Aldemir Martins, Betinho, Jos\u00e9 Celso Martinez Corr\u00eaa, Ge\u00f3rgia Gomide, Paulo Goulart, Nicette Bruno, Mazzaropi, Chico Xavier, Francisco Gaspar, Ant\u00f4nio Vaz Lemes e muitas outras. \u00c9 de sua autoria a ic\u00f4nica imagem do reencontro entre Adoniran Barbosa e Elis Regina em 1978 na Padaria Real, ao lado da extinta TV Tupi. Mestre do retrato, registrou famosos e an\u00f4nimos, sem distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi companheira de Massao Ohno por 14 anos, com quem estabeleceu tamb\u00e9m parceria profissional na confec\u00e7\u00e3o de capas e fotos de autores em toda a \u00faltima fase da produ\u00e7\u00e3o do editor independente, com dezenas de trabalhos publicados, incluindo obras de grandes autores, como Hilda Hilst.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_12.png\"><br \/>\n<\/a> <a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_22.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-50726\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_22-374x250.png\" alt=\"343_especial_5_2\" width=\"374\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_22-374x250.png 374w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_22-202x135.png 202w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_22.png 512w\" sizes=\"(max-width: 374px) 100vw, 374px\" \/><\/a><strong>Constru\u00e7\u00e3o da beleza<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Clicou intensamente a cena cultural paulistana e construiu s\u00e9ries marcantes, que incluem \u201cOs far\u00f3is da costa brasileira\u201d, \u201cMinha Janela\u201d e \u201cBlow up\u201d. Nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, desenvolveu um trabalho pioneiro que denominou \u201cImagem-terapia\u201d. Por meio da fotografia, devolvia autoestima a pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade ao capturar e revelar a beleza que via em seus rostos e corpos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o in\u00edcio do novo mil\u00eanio passou a explorar as possibilidades do digital como um novo instrumento e um retorno \u00e0 pintura, em pouco tempo criando dom\u00ednio e investigando novas linguagens. Sua produ\u00e7\u00e3o digital ultrapassa 30 mil imagens. Apresentou sua \u00faltima mostra, \u201cTrajet\u00f3ria\u201d, no Sobrado Dr. Jos\u00e9 Louren\u00e7o em sua cidade natal em 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fot\u00f3grafa, ilustradora e cineasta faleceu na sexta-feira, 20\/9, aos 75 anos, em S\u00e3o Paulo. Lutava contra um c\u00e2ncer nos pulm\u00f5es. Deixa os filhos Luciano, Micael, Maya e Matheus, a neta Daphne, a irm\u00e3 Magn\u00f3lia e um acervo de aproximadamente 100 mil imagens. Uma sele\u00e7\u00e3o de seus trabalhos foi adquirida para integrar o acervo permanente do Instituto Moreira Salles (IMS), um dos mais importantes dedicados \u00e0 fotografia na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rara entrevista, sua \u00faltima, Marjorie Sonnenschein revela um olhar peculiar sobre a arte e o universo das imagens. Fala abertamente, de maneira \u00edntima e sens\u00edvel, de sua trajet\u00f3ria como criadora, de seus medos, inten\u00e7\u00f5es e descobertas ao longo de 45 anos de carreira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O primeiro instrumento do artista \u00e9 o olho?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu acho que esse ac\u00famulo de olhares, de todas as coisas vistas, se re\u00fane no momento em que vou realizar o trabalho. De alguma forma, uso essa experi\u00eancia, a experi\u00eancia de quem vive de olhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_3.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-50727\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_3-205x250.png\" alt=\"343_especial_5_3\" width=\"205\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_3-205x250.png 205w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_3-110x135.png 110w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_3.png 419w\" sizes=\"(max-width: 205px) 100vw, 205px\" \/><\/a>O olho edita o mundo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mente edita o mundo. O olho \u00e9 o copi\u00e3o. Quem edita mesmo \u00e9 a mente. O copi\u00e3o capta tudo, mas a mente \u00e9 que me leva a fixar no nozinho daquela garrafa ou no verde do seu olho que estou vendo agora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para que voc\u00ea fotografa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro eu quero gostar. Se eu n\u00e3o gostar, n\u00e3o tem jeito. Ou seja, eu fotografo pra mim, pro meu prazer. \u00c9 o meu prazer em ver e comparar aquela beleza que vi com o que consegui realizar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois fico imaginando assim\u2026 Normalmente as pessoas v\u00e3o pro trabalho, pra casa, v\u00e3o de carro, n\u00e3o sei o que, e n\u00e3o t\u00eam a oportunidade de fixar. At\u00e9 passam pelos momentos belos, ou momentos interessantes, mas passam e n\u00e3o veem. E o artista, ou esse fazedor, est\u00e1 dispon\u00edvel. Sua vida \u00e9 ficar recortando tudo isso que passa. \u00c9 um indiv\u00edduo que se predisp\u00f5e a fazer esses cortes. Ent\u00e3o, aquele que passa e que n\u00e3o tem tempo porque est\u00e1 indo para outra atividade vai ter a oportunidade de ver esses cortes ou de reconhec\u00ea-los. Eu desejo, portanto, com as minhas imagens, dar um prazer para o outro individuo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 como se voc\u00ea quisesse que os outros vissem aquilo que s\u00f3 voc\u00ea v\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Compartilho aquilo que vejo porque \u00e9 muito incr\u00edvel. \u00c9 muito para ser s\u00f3 de um. \u00c9 isso. Eu gosto que voc\u00ea veja aquilo que eu vejo. Embora n\u00e3o saiba se voc\u00ea vai gostar, se isso vai impressionar voc\u00ea como me impressionou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 uma necessidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s vezes, uma beleza \u00e9 insuport\u00e1vel. Preciso pegar, botar num lugar e me livrar dela. A beleza \u00e9 deslumbrante. Minha tentativa sempre \u00e9 de reproduzir esse estado de contato com a beleza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quer dizer\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma imagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual a primeira imagem da sua exist\u00eancia que permanece em sua mem\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando morava em Fortaleza havia um alpendre em volta da casa inteira, que era ao lado da praia. Em todo esse terra\u00e7o, o ch\u00e3o era feito de losangos vermelhos. Um lado da constru\u00e7\u00e3o era a entrada social e, no lado de tr\u00e1s, havia uma torneira de onde se puxava uma mangueira que alcan\u00e7ava toda a casa\u2026 e as bitucas de cigarro da minha m\u00e3e. Ali eu ficava desenhando sobre os losangos. Foi meu primeiro contato com o desenho. Eu devia ter oito anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A sua primeira rela\u00e7\u00e3o com a arte foi o desenho, ent\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi isso mesmo. Minha fam\u00edlia se formou em Fortaleza, depois fomos para Natal, onde vivemos uns tr\u00eas anos. Cheguei aos 14 em S\u00e3o Paulo e fomos morar no Brooklin. J\u00e1 que desde cedo eu gostava de desenhar, meu pai percebeu. Ele era austr\u00edaco e, claro, me colocou para estudar com um senhor alem\u00e3o. E eu ia sempre. Tinha de desenhar ferramentas, chaves de fenda\u2026 [risos] Eram desenhos t\u00e9cnicos mesmo. Depois observava esculturas e figuras humanas\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o passei por algo incr\u00edvel. Fiz cursos de desenho de costura e tamb\u00e9m de desenho livre, com nu art\u00edstico e tudo o mais, na Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Belas Artes. Fizemos uma exposi\u00e7\u00e3o numa galeria que havia embaixo do Viaduto do Ch\u00e1. Foi minha primeira. Ganhei uma medalhinha. \u00c9\u2026 Minha hist\u00f3ria come\u00e7ou com os desenhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando a arte virou trabalho?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Teve uma primeira hist\u00f3ria\u2026 Quando vi os desenhos do Caryb\u00e9 fiquei louca por aquilo e comecei a desenhar inspirada por ele e fazia cart\u00f5ezinhos. Eram jangadeiros e outros temas que tinham a ver com a minha inf\u00e2ncia no Nordeste. Um amigo do meu pai chegou a imprimir algumas coisas e a fazer cart\u00f5es postais. Eu achava que minha hist\u00f3ria ia ser isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas depois \u00e9 que come\u00e7ou mesmo. Um dia vi um an\u00fancio no jornal para a Lynxfilm, que era uma produtora de anima\u00e7\u00e3o. Buscavam um assistente de dire\u00e7\u00e3o para desenhos animados. Respondi e fui contratada. Trabalhei com o Ruy Perotti, que dirigia os filmes, e tamb\u00e9m com o Daniel Messias, que era um grande ilustrador. Eu desenhava os movimentos. Foi meu primeiro trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fiquei um tempo ali e vi outro an\u00fancio, desta vez da revista Claudia, para ser assistente de dire\u00e7\u00e3o de arte. Fiquei um ano l\u00e1, com o Edmar Salles. Fazia diagrama\u00e7\u00e3o. Foi l\u00e1 que eu conheci o Loyola (Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o), que curtia muito o meu trabalho. Onde ele ia, me levava. Fomos para a Planeta e depois para a Status, sempre como ilustradora. Ainda como parte dessa fase, ilustrei as cr\u00edticas teatrais do S\u00e1bato Magaldi no Estad\u00e3o e outros textos para o Suplemento Liter\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea chegou a pintar?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito. Comecei a pintar sozinha, como autodidata. Depois frequentei um ateli\u00ea coletivo, que pertencia a um italiano. Era ao lado da Escola Panamericana, perto de onde \u00e9 hoje o Restaurante Piolim. Numa daquelas casas morava o Fl\u00e1vio Imp\u00e9rio com a m\u00e3e dele. Havia v\u00e1rios artistas importantes l\u00e1. Lembro do Gontran (Guanaes Netto) e do Ionaldo (Cavalcanti). Cada um tinha seu cavalete e trabalhava ali. E eu tinha o meu. Comecei olhando e ajudando. Foi ent\u00e3o que a artista naif Lise Forell, com quem cheguei a trabalhar, me apresentou o Gershon Knispel. Foi uma paix\u00e3o. Estudei ainda com o Harry Elsas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que existe dessa produ\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabe o que aconteceu? Destru\u00ed todas as minhas pinturas e a maioria dos desenhos, brigando com os companheiros. Quando eu enlouquecia e brigava com um companheiro, em vez de quebrar a casa, eu destru\u00eda minhas obras. Reneguei tudo, menos a fotografia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na fotografia s\u00f3 sobrevivem instantes e muitas imagens s\u00e3o jogadas fora. Voc\u00ea acha que a vida tamb\u00e9m \u00e9 isso? S\u00e3o instantes que sobrevivem?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o, acho que n\u00e3o. Na realidade, instante tem a ver com instant\u00e2neo, e instant\u00e2neo tamb\u00e9m \u00e9 fotografia, n\u00e3o \u00e9? \u00c9 um sin\u00f4nimo de fotografia. Na fotografia, de uma certa forma, voc\u00ea fixa o instante, mas a vida, para mim, n\u00e3o \u00e9 isso. A vida \u00e9 um rolo de filme que passa e voc\u00ea fica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A vida n\u00e3o \u00e9 fotografia, a vida \u00e9 cinema?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida \u00e9 cinema. E eu sou louca por cinema. [risos]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como nasceu esse paix\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resolvi fazer Filosofia, como ouvinte, na Maria Ant\u00f4nia. L\u00e1 tive uma professora de Hist\u00f3ria da Arte, que era apaixonada por cinema. N\u00e3o consigo lembrar seu nome. Ela era fant\u00e1stica. Fiquei muito interessada e fui fazer a faculdade de cinema na USP.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meus contempor\u00e2neos l\u00e1 foram o (Carlos Augusto) Kalil, o Guilherme Lisboa, o S\u00e9rgio Bianchi e a T\u00e2nia Savietto, a quem eu era muito ligada. Andavam por l\u00e1 tamb\u00e9m o Nuno Leal Maia, a Regina Duarte\u2026 Entre os mestres havia o Roberto Santos, que era apaixonado pelos alunos, encantado com os jovens que curtiam cinema. Foi muito intenso. Teve ainda o Paulo Em\u00edlio (Sales Gomes) e muitos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_4.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-50728\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_4-382x250.png\" alt=\"343_especial_5_4\" width=\"333\" height=\"218\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_4-382x250.png 382w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_4-206x135.png 206w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_4.png 512w\" sizes=\"(max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/a>A Escola tinha recebido uma doa\u00e7\u00e3o de c\u00e2meras de filmar e come\u00e7ou a fornecer o equipamento para profissionais, que integravam os estudantes na equipe, para fazer a pr\u00e1tica. Eu sempre me enfiava nas trupes. Via Rud\u00e1 de Andrade e toda uma turma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma imagem minha que ilustra muito bem o que foi essa \u00e9poca. Estavam na mesma mesa, rodeados por n\u00f3s alunos, Edgard Morin, Roberto Rossellini e Glauber Rocha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea chegou a realizar filmes?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodei um curta-metragem com o Roman Stulbach e o Marcelo Tassara a partir de desenhos, textos e cartas do Saul Steinberg. Era todo em tabletop. Ainda circula por a\u00ed em mostras. Dirigi sozinha outro curta baseado no conto \u201cA casa tomada\u201d, do Julio Cort\u00e1zar. Chama-se \u201cO castelo do Morro dos Ingleses\u201d (1973). Os dois trabalhos integram o acervo da Cinemateca Brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, colaborei com a T\u00e2nia Savietto na produ\u00e7\u00e3o de um document\u00e1rio chamado \u201cComunidade Scapin\u201d (1971). Depois fui para o longa com dire\u00e7\u00e3o de arte e still. Trabalhei em \u201cJogo da vida e da morte\u201d (1972), do Mario Kuperman, em \u201cLongo caminho da morte\u201d (1972), do J\u00falio Calasso, e em \u201cO Predileto\u201d (1975), do Roberto Palmari. Meu \u00faltimo trabalho para o cinema foram as fotos de cena e para o cartaz de \u201cO amor est\u00e1 no ar\u201d (1997), do Amylton de Almeida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A fotografia, de fato, veio quando?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Me casei na tradi\u00e7\u00e3o judaica e quase imediatamente depois fomos para Israel, que se preparava para a guerra, em 1967, com um grupo de volunt\u00e1rios do mundo inteiro. Fomos viver num Kibutz. Ali considero minha primeira exposi\u00e7\u00e3o individual, com desenhos e pinturas. Foi no meu \u201cbarraco\u201d. Quem me apoiou muito foi o Paulo Ludmer. Foi todo o mundo do Kibutz para olhar e a\u00ed foi aquela coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na volta de Israel, passando por Paris, comprei minha primeira c\u00e2mera, uma Canon. Eu tinha interesse, gostava de fotografia. Mas era um olhar amplo para a arte. Pintura, desenho, fotografia\u2026 Eu sempre gostei de tudo. Naquele momento vi e gostei do instrumento. Mas s\u00f3 vim a fotografar mesmo quando entrei na ECA no in\u00edcio dos anos 70. L\u00e1 tinha um laborat\u00f3rio. Quando entrei e vi aquilo, adorei. Foi ent\u00e3o que comecei a me interessar por fotografia pra valer. A paix\u00e3o pelo cinema e a pregui\u00e7a de pintar me levaram para a fotografia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_5.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-50729\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_5-378x250.png\" alt=\"343_especial_5_5\" width=\"378\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_5-378x250.png 378w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_5-204x135.png 204w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/343_especial_5_5.png 500w\" sizes=\"(max-width: 378px) 100vw, 378px\" \/><\/a><strong>Falando em suas ra\u00edzes judaicas, os seus av\u00f4s estiveram em Auschwitz\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Morreram em Auschwitz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sonnenschein?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um sobrenome austr\u00edaco. Meu pai, Leopoldo, fugiu da \u00c1ustria com seu irm\u00e3o durante a Segunda Guerra. Eles eram jovens. Meu tio foi para o Canad\u00e1 e meu pai para a Argentina e de l\u00e1 para o Brasil. Eles queriam que meus av\u00f3s viessem, mas eles n\u00e3o acreditaram\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E sua m\u00e3e era brasileira?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha m\u00e3e, Francisca, era maranhense. Fez o prim\u00e1rio junto com o Aldemir Martins. Mais tarde foi estudar em Fortaleza e l\u00e1 conheceu meu pai. Deu certo. [risos]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o resultado?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Magie e Marjorie. Minha irm\u00e3 cantava e eu gostava de dan\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Continue lendo: <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/um-passeio-pelo-olhar-de-marjorie-sonnenschein\/\" target=\"_blank\">https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/um-passeio-pelo-olhar-de-marjorie-sonnenschein\/<\/a><\/p>\n<div id=\"icpbravoaccess_loaded\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para a fot\u00f3grafa falecida no \u00faltimo dia 20 (de setembro), o artista \u00e9 um fazedor que enxerga a poesia dos momentos cotidianos. Fotografou de Elis Regina e Hilda Hilst a Adoniran e Chico Xavier, e dizia que a beleza do retrato est\u00e1 na troca e na entrega. Marjorie Sonnenschein, entrevistada por Ric Peruchi Neta de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":50722,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8,5],"tags":[212],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/50720"}],"collection":[{"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=50720"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/50720\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":50731,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/50720\/revisions\/50731"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/50722"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=50720"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=50720"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=50720"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}