﻿{"id":51278,"date":"2019-11-16T22:04:22","date_gmt":"2019-11-16T22:04:22","guid":{"rendered":"http:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=51278"},"modified":"2019-11-16T22:04:22","modified_gmt":"2019-11-16T22:04:22","slug":"a-judia-aracy-de-almeida-por-henrique-veltman","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=51278","title":{"rendered":"A JUDIA ARACY DE ALMEIDA &#8211; POR HENRIQUE VELTMAN"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/345_especial_3_1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-51279\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/345_especial_3_1-250x250.jpg\" alt=\"345_especial_3_1\" width=\"250\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/345_especial_3_1.jpg 250w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/345_especial_3_1-135x135.jpg 135w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/345_especial_3_1-50x50.jpg 50w\" sizes=\"(max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><\/a>Evang\u00e9lica por influ\u00eancia paterna, converteu-se ao juda\u00edsmo e o rabino Henrique Lemle cuidou disso, na ARI.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conheci pessoalmente Aracy de Almeida nos idos dos anos 1950, quando integrei o grupo Curumins da Tupi. Ela era muito amiga de Silvia Autuori, que comandava os programas do grupo, encarnando a Tia Chiquinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aracy sempre tinha uma palavrinha para n\u00f3s, meninos que sonh\u00e1vamos com o r\u00e1dio, o jornal, a televis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois ent\u00e3o, essa Aracy de Almeida era vidrada na Tor\u00e1, no Testamento Hebraico. Evang\u00e9lica por influ\u00eancia paterna, converteu-se ao juda\u00edsmo e o rabino Henrique Lemle cuidou disso, na ARI. Essa contradi\u00e7\u00e3o m\u00edstico-religiosa de Aracy se somava ainda ao culto quase religioso a Noel Rosa, de quem era a melhor int\u00e9rprete.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Herm\u00ednio Bello de Carvalho situou esse conflito num pequeno espet\u00e1culo intitulado \u2018A Paix\u00e3o Noel Segundo Aracy de Almeida\u2019, apresentado h\u00e1 alguns anos no Teatro Teresa Rachel, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num depoimento sobre Aracy, o Herm\u00ednio fala do \u201cSerm\u00e3o do Profeta\u201d, um recital de Elizeth Cardoso com trechos do vulgarmente chamado de Antigo Testamento, selecionados por Aracy. Diz o Herm\u00ednio: \u201cSe n\u00e3o virei um especialista em Mois\u00e9s, nem decorei os salmos de David e sequer as profecias de Isa\u00edas, pelo menos sobraram-me alguns prov\u00e9rbios de Salom\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Encantado<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A casa de Aracy, no sub\u00farbio do Encantado, era casa no mais vasto sentido: ampla, com jardins ao fundo, janelas permanentemente abertas, ensolarada. E quadros de Di Cavalcanti, Clovis Graciano, Antonio Bandeira, Walter Wendhausen, Heitor dos Prazeres, Luis Canabrava, Aldemir Martins. Uma bela cole\u00e7\u00e3o de opalinas, al\u00e9m de faian\u00e7as, rel\u00f3gio de ouro, gramofone, vasos valiosos, badulaques espalhados pela casa \u2013 e um busto seu, esculpido por Bruno Giorgi, sobre o \u00e9tag\u00e8re. Tapetes persas, lustres da Bohemia, biscuits rar\u00edssimos \u2013 e a algaravia feita pelos seus animais de estima\u00e7\u00e3o, companheiros ciumentos e insepar\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, nada a ver com a imagem de Aracy nos programas de audit\u00f3rio da televis\u00e3o, ela era uma verdadeira dama!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A voz do morto<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caetano Veloso, em Sobre as letras, comenta que &#8220;A voz do morto&#8221; lhe foi &#8220;ditada por Aracy de Almeida&#8221;. Conta o baiano: &#8220;Ela estava em S\u00e3o Paulo para fazer a Bienal do Samba (&#8230;) e estava muito irritada com a ideologia em torno daquilo. Ela veio falar comigo: &#8216;P\u00f4, me tratar como Gl\u00f3ria nacional pensando que v\u00e3o me salvar? (&#8230;) Quero que voc\u00ea fa\u00e7a um samba, porque voc\u00ea \u00e9 que \u00e9 o verdadeiro Noel, porque voc\u00ea \u00e9 violento, voc\u00ea \u00e9 novo!&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aracy de Almeida ditou o samba, Caetano fez a m\u00fasica, ela adorou, Aracy estava de &#8220;saco cheio desse neg\u00f3cio de Noel Rosa&#8221;, de ter que &#8220;arrastar esse morto pelo resto da vida&#8221;) e gravou &#8211; Bienal do samba (1968).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sentido (o significado) da can\u00e7\u00e3o de Caetano Veloso est\u00e1 tensionado no t\u00edtulo: &#8220;A voz do morto&#8221; \u00e9 uma par\u00f3dia de &#8220;A voz do morro&#8221;. O objeto, em ambas, \u00e9 o samba: gl\u00f3ria nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sujeito de &#8220;A voz do morto&#8221; denuncia que eles (a patrulha ideol\u00f3gica) querem salvar o samba. Ou seja, mant\u00ea-lo a salvo das funestas influ\u00eancias. Coitados, eles esquecem que preservar cegamente uma cultura, ou simplesmente desprez\u00e1-la em um museu, \u00e9 uma pervers\u00e3o, em um pa\u00eds t\u00e3o diverso quanto o Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mistura de elementos (ouro, prata, fil\u00f3 de nylon) indicia a justaposi\u00e7\u00e3o e a bricolagem de versos (significantes), extra\u00eddos de can\u00e7\u00f5es de Noel Rosa (e de sambas can\u00f4nicos), que ouvimos proliferados ao longo de &#8220;A voz do morto&#8221;. Mas tamb\u00e9m apontam a hibrida\u00e7\u00e3o daquilo que \u00e9 o samba brasileiro: ouro e fil\u00f3 de nylon: tudo junto e misturado agora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Deus est\u00e1 morto&#8221; &#8211; acusou Nietzsche, apontando a perda de Deus no turbilh\u00e3o de zelos das religi\u00f5es. Bem como lan\u00e7ando aos indiv\u00edduos a responsabilidade sobre suas vidas. &#8220;A voz do morto&#8221; (da defunta voz ou da voz defunta?) vem (do al\u00e9m) mostrar sua for\u00e7a insofism\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A voz da can\u00e7\u00e3o (a voz do samba: morto pelo excesso de zelo) nega esta prote\u00e7\u00e3o que lhe sufoca. Essa voz \u00e9 alegre. Ela sabe do poder da mesti\u00e7agem parab\u00f3lica ambulante do Brasil. Os signos filigranados ao longo da letra tentam condensar a pluralidade de ritmos que resultam em samba. O rock n\u00e3o fica de fora: &#8220;Eu sou terr\u00edvel&#8221; \u00e9 recolhido dos versos da Jovem Guarda (&#8220;opositora&#8221; daqueles que queriam salvaguardar as gl\u00f3rias nacionais).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este gesto de ir contra a &#8220;patrulha ideol\u00f3gica&#8221; imp\u00f5e \u00e0 voz do morto a condi\u00e7\u00e3o de marginalizado. Por\u00e9m, no Brasil, o samba (a alegria) \u00e9 o deus que n\u00e3o discrimina, ao contr\u00e1rio, agrega, na festa da afirma\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia, todos os seus &#8220;seguidores&#8221;: o foli\u00e3o (o indiv\u00edduo errante, pelo mundo). Ao inv\u00e9s de prender, este deus, solta a gente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Na Gl\u00f3ria!&#8221; &#8211; exalta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m recolhida de Noel &#8211; coroa este samba que tem Jesus de Nazar\u00e9 e os tambores do candombl\u00e9: apontando o Brasil como v\u00e9rtice da &#8220;paz do mundo&#8221;, como o s\u00e1bio Jorge Mautner defende.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A voz do morto<\/strong><br \/>\n(Caetano Veloso)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos aqui no tablado<br \/>\nfeito de ouro e prata<br \/>\ne fil\u00f3 de nylon<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles querem salvar as gl\u00f3rias nacionais<br \/>\nAs gl\u00f3rias nacionais, coitados<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m me salva<br \/>\nningu\u00e9m me engana<br \/>\nEu sou alegre<br \/>\nEu sou contente<br \/>\nEu sou cigana<br \/>\nEu sou terr\u00edvel<br \/>\nEu sou o samba<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A voz do morto<br \/>\nOs p\u00e9s do torto<br \/>\nO cais do porto<br \/>\nA vez do louco<br \/>\nA paz do mundo<br \/>\nNa Gl\u00f3ria!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu canto com o mundo que roda<br \/>\nEu e o Paulinho da Viola<br \/>\nViva o Paulinho da Viola!<br \/>\nEu canto com o mundo que roda<br \/>\nMesmo do lado de fora<br \/>\nMesmo que eu cante agora<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m me atende<br \/>\nNingu\u00e9m me chama<br \/>\nMas ningu\u00e9m me prende<br \/>\nNingu\u00e9m me engana<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu sou valente<br \/>\nEu sou o samba<br \/>\nA voz do morto<br \/>\nAtr\u00e1s do muro<br \/>\nA vez de tudo<br \/>\nA paz do mundo<br \/>\nNa Gl\u00f3ria!<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>HENRIQUE VELTMAN \u00e9 jornalista.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"hbv@uol.com.br%20&lt;hbv@uol.com.br&gt;\" target=\"_blank\"><strong>hbv@uol.com.br<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Evang\u00e9lica por influ\u00eancia paterna, converteu-se ao juda\u00edsmo e o rabino Henrique Lemle cuidou disso, na ARI. 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