﻿{"id":51281,"date":"2019-11-16T22:04:11","date_gmt":"2019-11-16T22:04:11","guid":{"rendered":"http:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=51281"},"modified":"2019-11-16T22:04:11","modified_gmt":"2019-11-16T22:04:11","slug":"o-caso-do-doutor-tchekhov-por-meraldo-zisman","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=51281","title":{"rendered":"O CASO DO DOUTOR TCHEKHOV &#8211; POR MERALDO ZISMAN"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/345_especial_4_1.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-51282\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/345_especial_4_1-166x250.png\" alt=\"345_especial_4_1\" width=\"166\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/345_especial_4_1.png 166w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/345_especial_4_1-90x135.png 90w\" sizes=\"(max-width: 166px) 100vw, 166px\" \/><\/a>O grande contista e teatr\u00f3logo russo oferece, nos trabalhos liter\u00e1rios, uma vis\u00e3o acurada de como era a vida m\u00e9dica na R\u00fassia, no fim do s\u00e9culo XIX.<\/strong><\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>(Anton Pavlovitch Tchekhov. 1860-1904)<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00b7 \u201cA vida \u00e9 pesada de se carregar. Muitos entre n\u00f3s a consideram silenciosa e desesperada. Entretanto, devemos confessar que ela se torna dia a dia mais luminosa, mais f\u00e1cil, e tudo faz crer que n\u00e3o est\u00e1 longe o tempo: ela se iluminar\u00e1 inteiramente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2022 \u201cDaqui a duzentos ou trezentos anos, ou mesmo mil anos \u2013 n\u00e3o se trata de exatid\u00e3o \u2013 haver\u00e1 uma vida nova. Nova e feliz. N\u00e3o tomaremos parte nessa vida, \u00e9 verdade\u2026, mas \u00e9 para ela que trabalhamos e, se bem que soframos, n\u00f3s a criamos. E nisso est\u00e1 o objetivo de nossa exist\u00eancia aqui\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2022 \u201cQuando lemos um romance, tudo nos parece t\u00e3o f\u00e1cil, t\u00e3o claro, mas basta que n\u00f3s mesmos amemos, para vermos que ningu\u00e9m sabe nada e que cada um deve decidir por si\u201d. (Da pe\u00e7a \u201cAs Tr\u00eas Irm\u00e3s\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um m\u00e9dico, um g\u00eanio na aprecia\u00e7\u00e3o e defini\u00e7\u00e3o do g\u00eanero humano de sua terra natal. Um antrop\u00f3logo inato. Um teatr\u00f3logo de estirpe. Na arte do conto, conseguiu fazer a atmosfera preponderar sobre o enredo. O seu estilo \u00e9 seco e conciso. F\u00ea-lo um capacitado de criar e armar toda uma situa\u00e7\u00e3o em menos de uma p\u00e1gina, sendo, por este dom, denominado um diretor teatral sem enredo, assemelhando-se com os seus donos. Sabia como refletir o ambiente onde desenrolava suas cria\u00e7\u00f5es, seja em \u201cTio V\u00e2nia\u201d, \u201cAs Gaivotas\u201d, ou na sua amada pe\u00e7a de teatro \u201cO jardim das Cerejeiras\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dizem ser o conto o modelo liter\u00e1rio que visa uma maior intensidade de efeito. Ele o fez com maestria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No s\u00e9culo XX, este g\u00eanero tomou duas vertentes: a francesa, exponenciada por Guy de Maupassant e, a russa, com a figura do m\u00e9dico Tchekhov. E, sem tirar o m\u00e9rito de outros autores, o contista moderno mais proclamado, Ernest Hemingway, no seu caminhar de escrita a uma contida depend\u00eancia \u00e0 tens\u00e3o e \u00e0 viol\u00eancia. Da figura m\u00e1xima do conto cl\u00e1ssico brasileiro, cabe homenagear Machado de Assis, com \u201cO Alienista\u201d, publicado como livro em 1862.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A evolu\u00e7\u00e3o deste g\u00eanero liter\u00e1rio processa-se do livre contador de est\u00f3rias das feiras, at\u00e9 atingir a forma de princ\u00edpio, meio e fim do s\u00e9culo passado, sem preju\u00edzo da sua beleza. E, nisto, o Dr. Tchekhov temperava seus curtos relatos e pe\u00e7as teatrais com objetividade e com a compreens\u00e3o da fragilidade do homem, expressas magistralmente no seu \u201cCamponeses\u201d (mujique), \u201cA Ravina\u201d, \u201cO Duelo\u201d \u2013 contos feitos para florescer dentro de sua pe\u00e7a \u201cNo Jardim das Cerejeiras\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perguntaram a Tchecov como ele poderia conciliar a medicina com a literatura:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A medicina \u00e9 minha esposa e a literatura minha amante\u2026 e quando eu sei que tenho duas profiss\u00f5es sou homem mais confiante. Prosseguia: Isto me d\u00e1 muito mais confian\u00e7a em meu trabalho, justamente por ser escritor e m\u00e9dico, homem com duas profiss\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grande contista e teatr\u00f3logo russo oferece, nos trabalhos liter\u00e1rios, uma vis\u00e3o acurada de como era a vida m\u00e9dica na R\u00fassia, no fim do s\u00e9culo XIX. Obrigado a ficar, ainda adolescente, como tutor dos filhos do principal credor do seu pai, em sua cidade natal, Tagangrog \u2013 cidade perto do mar de Azov, onde seu pai fora pr\u00f3spero comerciante e faliu \u2013 o jovem l\u00e1 ficou, como uma esp\u00e9cie de ref\u00e9m das d\u00edvidas paternas e apesar do trabalho \u00e1rduo na loja que pertencera ao seu pai, arranjava tempo para ensinar aos filhos de seu senhorio, dando aulas particulares aos rapazes e mo\u00e7as do local para ganhar um pouco de dinheiro extra, clandestinamente, e, envi\u00e1-lo para sua m\u00e3e, que vivia em Mo scou. Ganhou uma bolsa de estudos para cursar medicina em Moscou e, com o parco provento desta bolsa, ajudava na despesa familiar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tinha 19 anos quando come\u00e7ou o seu curso m\u00e9dico, em setembro de 1879. Concluiu-o em mar\u00e7o de 1884. Trabalhou com GRIGORI ZAHCARIN, o grande professor de medicina que muito o influenciou. Como professor de medicina, ajudou a desenvolver no jovem Anton o gosto pela observa\u00e7\u00e3o cuidadosa dos fatos e da import\u00e2ncia de anamnese bem-feita, concisa e precisa. Arte que lhe forneceu treinamento para ser um contista desse calibre. Gostava de penetrar na alma da pessoa, de seu paciente e dele temos os primeiros casos descritos de melancolia ou depress\u00e3o, como \u00e9 hoje denominada. A depress\u00e3o \u00e9 tema central de muitos de seus contos, como \u00e9 o caso de \u201cIvanov\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi encarregado de trabalhar na Sib\u00e9ria como m\u00e9dico do Estado, principalmente nas ilhas Sacalinas, onde fundou v\u00e1rias escolas. De volta, transferido para Moscou, comprou uma casa nas suas cercanias e come\u00e7ou a clinicar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encarregaria-se do emprego de m\u00e9dico funcion\u00e1rio, cuidando de mais de 26 vilarejos, v\u00e1rias escolas e de um monast\u00e9rio, al\u00e9m de desenvolver a cl\u00ednica particular. Apesar de todos esses encargos de profissional de medicina, conseguiu produzir 27 contos magistrais, num per\u00edodo de tanta trabalheira como m\u00e9dico. Ningu\u00e9m sabe como arranjava tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Teve a primeira hemoptise (um irm\u00e3o seu j\u00e1 morrera de tuberculose, de quem, provavelmente, contraiu a mol\u00e9stia) e escondeu o fato da fam\u00edlia. Como todo m\u00e9dico, n\u00e3o se cuidada. O segundo epis\u00f3dio hem\u00f3ptico, n\u00e3o p\u00f4de escond\u00ea-lo, pois fora flagrado pela fam\u00edlia. Transferiu-se para Yalta em busca de melhor clima, como se acreditava na \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Yalta, balne\u00e1rio aonde os portadores de tuberculose iam em busca de cura, continuou desenvolvendo um intenso trabalho m\u00e9dico, com os pacientes terminais. Voltou para Moscou, pela \u00faltima vez, para assistir a estreia de sua pe\u00e7a \u2013 \u201cO Jardim das Cerejeiras\u201d, em 17 de janeiro de 1904, e veio a falecer nesta cidade, em 15 de julho deste mesmo ano, com a idade de 44 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sua genialidade em escrever pequenas e viscerais est\u00f3rias do seu tempo, de seus pacientes e do momento v\u00edvido; a maneira como as descreveu ainda n\u00e3o foi superada na narrativa pouco extensa e, un\u00edvoca em sua unidade dram\u00e1tica, concentrando-se a a\u00e7\u00e3o num \u00fanico ponto de interesse. Foi um g\u00eanio na arte do conto. Mas nunca deixou de ser m\u00e9dico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quatro anos antes de morrer, Tchecov escrevia ao professor de neuropatologia da Universidade Moscou, Gregory Rosslimo: \u201cMeus estudos m\u00e9dicos t\u00eam profunda influ\u00eancia sobre meus escritos. Eles ensinam-me a arte da observa\u00e7\u00e3o e enriquecem meu conhecimento. A verdade contida nesta minha afirmativa somente poder\u00e1 ser entendida por quem \u00e9 m\u00e9dico. A intimidade com as ci\u00eancias naturais, com o m\u00e9todo cientifico, fez-me muito cuidadoso nas minhas cren\u00e7as. Restringe-me o argumento cientifico, at\u00e9 onde isso possa ser alcan\u00e7ado. Quando isto n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel de provar, prefiro nada escrever\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A a\u00e7\u00e3o do escritor \u00e9 fazer com que o leitor se disponha compreend\u00ea-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ir muito al\u00e9m do enigma do texto e desfrutar do prazer est\u00e9tico da palavra escrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em resumo, o escritor deve ter o dom de imprimir ao seu texto a capacidade de \u201creverie\u201d de quem o l\u00ea.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DR. MERALDO ZISMAN \u2013 M\u00e9dico, psicoterapeuta, \u00e9 natural de Recife \u2013 Pernambuco. <a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=4915\" target=\"_blank\">Saiba mais.<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"meraldozisman@uol.com.br%20&lt;meraldozisman@uol.com.br&gt;\" target=\"_blank\">meraldozisman@uol.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O grande contista e teatr\u00f3logo russo oferece, nos trabalhos liter\u00e1rios, uma vis\u00e3o acurada de como era a vida m\u00e9dica na R\u00fassia, no fim do s\u00e9culo XIX. (Anton Pavlovitch Tchekhov. 1860-1904) \u00b7 \u201cA vida \u00e9 pesada de se carregar. Muitos entre n\u00f3s a consideram silenciosa e desesperada. 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