﻿{"id":55131,"date":"2020-08-29T22:40:50","date_gmt":"2020-08-29T22:40:50","guid":{"rendered":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=55131"},"modified":"2020-08-29T22:40:50","modified_gmt":"2020-08-29T22:40:50","slug":"adin-steinsaltz-qual-e-a-pergunta-que-nao-quer-calar-1937-2020-por-paulo-rosenbaum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=55131","title":{"rendered":"ADIN STEINSALTZ: QUAL \u00c9 A PERGUNTA QUE N\u00c3O QUER CALAR? &#8211; (1937-2020) &#8211; POR PAULO ROSENBAUM"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-55133 alignleft\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/362_especial_3_1-254x250.png\" alt=\"\" width=\"213\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/362_especial_3_1-254x250.png 254w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/362_especial_3_1-137x135.png 137w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/362_especial_3_1-50x50.png 50w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/362_especial_3_1.png 255w\" sizes=\"(max-width: 213px) 100vw, 213px\" \/><em><strong>Algu\u00e9m j\u00e1 o chamou de um homem da Renascen\u00e7a. Provavelmente esta defini\u00e7\u00e3o fa\u00e7a mais sentido, j\u00e1 que Adin reunia, natural e espontaneamente, v\u00e1rios campos do saber sem se preocupar em reafirmar uma expertise em nenhum deles. Ali\u00e1s, era afiado quando se tratava de criticar os limites do saber superespecializado.<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211;Isso \u00e9 um obitu\u00e1rio?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211;O que voc\u00ea acha?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O h\u00e1bito dos judeus de responder uma pergunta com outra n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um estereotipo. \u00c9 um s\u00edmbolo, um modo de viver, uma marca existencial que est\u00e1 impressa, tanto no gen\u00f3tipo como na tradi\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Pergunta, oh Israel!&#8221; tem sido um motto deste povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois \u00e9 isso que Adin Steinsaltz, qu\u00edmico, rabino, talmudista, soci\u00f3logo, educador, fil\u00f3sofo entre outros tantos atributos tentou deixar como legado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos ficariam impressionados com sua notoriedade mundial. A revista &#8220;Time&#8221; certa vez o classificou como &#8220;um erudito que nasce a cada mil\u00eanio&#8221; (em livre tradu\u00e7\u00e3o). Faz mais ou menos uns 30 anos que um querido tio pr\u00f3ximo apontou-me uma mat\u00e9ria de jornal que comentava aquela reportagem do saudoso &#8220;Jornal da Tarde&#8221; para chamar aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia do fen\u00f4meno. Displicente, n\u00e3o prestei muita aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m da mem\u00f3ria fotogr\u00e1fica, traduzir &#8212; ou, emprestando, a express\u00e3o do Haroldo de Campos, &#8220;transcriar&#8221; &#8212; ou verter o Talmud ao hebraico contempor\u00e2neo era tido como uma tarefa imposs\u00edvel. E, para alguns, her\u00e9tica. Pois foi o que, durante 45 anos, ele se disp\u00f4s a fazer. E isso pode ser um ind\u00edcio de um esp\u00edrito que transcende a erudi\u00e7\u00e3o comum: trata-se de uma perseveran\u00e7a intelectual obsessiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sempre achamos que os encontros com as pessoas s\u00e3o duradouros. Agora descubro que n\u00e3o duram. A dura\u00e7\u00e3o pode ser de uma brevidade inc\u00f4moda, e, \u00e9, geralmente, insuficiente. E s\u00f3 retrospectivamente conseguimos avaliar a densidade, a qualidade e o significado de uma interlocu\u00e7\u00e3o. Quantos n\u00e3o passam diante de n\u00f3s sem que a mem\u00f3ria d\u00ea-se ao trabalho de fixar a conversa, a presen\u00e7a, ou ambos. Na extensa sucess\u00e3o de momentos de uma vida s\u00f3 alguns merecem grava\u00e7\u00e3o. Foi o que aconteceu nas quatro vezes que tive o privil\u00e9gio de encontrar e entrevistar Adin Steinsaltz, gra\u00e7as a ajuda do grande amigo Isaac Michaan.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algu\u00e9m j\u00e1 o chamou de um homem da Renascen\u00e7a. Provavelmente esta defini\u00e7\u00e3o fa\u00e7a mais sentido, j\u00e1 que Adin reunia, natural e espontaneamente, v\u00e1rios campos do saber sem se preocupar em reafirmar uma expertise em nenhum deles. Ali\u00e1s, era afiado quando se tratava de criticar os limites do saber superespecializado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cA ci\u00eancia funciona porque se limita a um grupo pequeno de assuntos. N\u00e3o h\u00e1 ci\u00eancia com letra mai\u00fascula. Alguns dos cientistas que lidam com as grandes quest\u00f5es s\u00e3o acusados pelos colegas de praticar filosofia. Eu os respeito e minha forma\u00e7\u00e3o original \u00e9 em qu\u00edmica, n\u00e3o em ci\u00eancias humanas. Tenho muito mais prazer em falar sobre um tubo de ensaio e testes laboratoriais do que de assuntos filos\u00f3ficos, mas a ci\u00eancia faz parte da insanidade. \u00c9 parte da insanidade quando assume que os assuntos s\u00e3o muito maiores do que eles realmente s\u00e3o. Quando se fala com um cientista, perguntam-se coisas, que se voc\u00ea for sincero responder\u00e1: como por Deus eu vou saber? Voc\u00ea me pergunta sobre o destino da humanidade? Eu n\u00e3o saberia responder. Se voc\u00ea me perguntar o que vai acontecer daqui dois dias, como vou saber? Eu posso responder sobre as poucas coisas que eu sei agora. Eu n\u00e3o tento fazer da ci\u00eancia uma esp\u00e9cie de deus pag\u00e3o. E ao fazer isto, eu estou fazendo bem \u00e0 ci\u00eancia porque \u00e9 isso que ela \u00e9. Quando o sol \u00e9 um deus, \u00e9 um deus perigoso, quando o sol \u00e9 apenas uma estrela no c\u00e9u \u00e9 muito mais f\u00e1cil lidar com ele&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua intelig\u00eancia, imprevis\u00edvel e anal\u00f3gica, intrigava os interlocutores. E, ao mesmo tempo, impulsionava sua pr\u00f3pria curiosidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua forma de perscrutar a mente dos homens e mulheres com quem conversava era de algu\u00e9m que partia do nada. Era a c\u00e9u aberto que ele iniciava sua explora\u00e7\u00e3o. Nos encontros que tive pude sentir seu olhar investigador, n\u00e3o exatamente como o de um cientista, mas o de algu\u00e9m que, mesmo diante de uma vida intelectual das mais intensas n\u00e3o perdia a capacidade de se surpreender.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele me olhava, enquanto acendia, reiteradamente, o fumo do fogo quase extinto. E era este fogo quase sempre quase extinto que o mantinha aceso. Era mais do que uma met\u00e1fora a brasa que ele tentava manter em evid\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao lembrar do isqueiro que puxava a chama para o centro do cachimbo, e o chiado que acompanhava a aspira\u00e7\u00e3o do tabaco holand\u00eas, demorei quase uma d\u00e9cada para notar que sua pesquisa ininterrupta era direcionada a encontrar nas pessoas algum tra\u00e7o de novidade. Minha impress\u00e3o \u00e9 que ele vasculhava no palheiro em busca das fagulhas que encontram-se espalhadas, sabia que era preciso reuni-las, mas sem unific\u00e1-las. Se devem estar juntas, s\u00f3 podem existir como entidades separadas. Por isso, ele sempre insistiu nos trechos das escrituras que enalteciam a a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu fa\u00e7o&#8221; ele insistia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em algumas entrevistas, que podem ser encontradas no YouTube e atrav\u00e9s da sua funda\u00e7\u00e3o, a &#8220;Aleph Society, \u00e9 poss\u00edvel avaliar a mir\u00edade de assuntos que ele dominava e trafegava com desenvoltura: de m\u00edstica \u00e0 medicina, intelig\u00eancia artificial e clonagem, aos assuntos mais delicados da pol\u00edtica e da filosofia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha impress\u00e3o, ouvindo minhas conversas gravadas com ele \u00e9 que buscava capturar um ou v\u00e1rios nutrientes que poderiam ser usados para formular perguntas nunca antes formuladas. Usava o m\u00e9todo para testar o m\u00e9todo. N\u00e3o como um instrumento pronto e cristalizado, mas para achar novas maneiras de opera-lo. Afinal, esse era seu leitmotiv, conforme expressou em v\u00e1rias entrevistas quando tentava justificar sua insist\u00eancia e predile\u00e7\u00e3o pelo livro que compilou a tradi\u00e7\u00e3o oral do juda\u00edsmo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O Talmud \u00e9 um livro \u00fanico, n\u00e3o h\u00e1 nada parecido, \u00e9 um livro de discuss\u00f5es, que n\u00e3o ensina sanidade, mas cria sanidade&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que? Pela capacidade de instigar a ininterrupta formula\u00e7\u00e3o de perguntas. Neste sentido, poderia parecer uma antecipa\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo cient\u00edfico moderno de indu\u00e7\u00e3o emp\u00edrica, mas n\u00e3o \u00e9. N\u00e3o \u00e9 somente isso. H\u00e1, na compreens\u00e3o generosa que Adin trouxe &#8212; e quem pode entender a express\u00e3o \u00fanica que seus olhos transmitiam sabe do que falo &#8212; uma finalidade \u00faltima, uma teleologia geradora de futuro, que aperfei\u00e7oa o discernimento, que tem a potencia para tornar as pessoas melhores do que elas s\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua confer\u00eancia na Universidade de Oxford h\u00e1 alguns anos, assim como em muitas outras palestras que concedeu pelo mundo, funcionava como um aviso, otimista, mas ainda assim uma advert\u00eancia, a mesma mensagem unificada que estava no t\u00edtulo do livro que publicou nos anos 60: &#8220;A sociologia da ignor\u00e2ncia&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tornar o mundo melhor \u00e9, tamb\u00e9m, desmistific\u00e1-lo, e \u00e9 disso que afinal a civiliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea carece, onde paganismo e fanatismo anulam os esfor\u00e7os para promover o tikun olam, &#8220;o conserto do mundo&#8221;. E, para conserta-lo, \u00e9 preciso desconcert\u00e1-lo. Isso n\u00e3o significa abolir os s\u00edmbolos ou o pr\u00f3prio misticismo individual, mas um especial cuidado para n\u00e3o tornar deuses substitutos em titulares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211;E a pergunta que n\u00e3o quer calar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211;Adin, pode responder?<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00e9dico e escritor, mestre em medicina preventiva, doutor em ci\u00eancias (USP) e p\u00f3s doutor em Medicina Preventiva (FMUSP) , autor de Outro C\u00f3digo da Medicina, Medicina do Sujeito, Nov\u00edssima Medicina, Entre Arte e Ci\u00eancia, as bases hermen\u00eauticas da homeopatia. Na literatura publicou os romances &#8220;A Verdade Lan\u00e7ada ao Solo&#8221; (Ed. Record, 2010), &#8220;C\u00e9u Subterr\u00e2neo&#8221; (Perspectiva, 2016), &#8220;A Pele que nos Divide&#8221; (Poesia &#8211; Quixote-Do, 2018). Desde 2013 edita e publica o Blog &#8220;Conto de Not\u00edcia&#8221; no Jornal O Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/paulorosenbaum@hotmail.com&lt;paulorosenbaum@hotmail.com&gt;\">paulorosenbaum@hotmail.com<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota &#8211; mat\u00e9ria publicada no Estad\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/conto-de-noticia\/adin-steinsaltz-qual-e-a-pergunta-que-nunca-cala1937-2020\/\">https:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/conto-de-noticia\/adin-steinsaltz-qual-e-a-pergunta-que-nunca-cala1937-2020\/<\/a><\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algu\u00e9m j\u00e1 o chamou de um homem da Renascen\u00e7a. Provavelmente esta defini\u00e7\u00e3o fa\u00e7a mais sentido, j\u00e1 que Adin reunia, natural e espontaneamente, v\u00e1rios campos do saber sem se preocupar em reafirmar uma expertise em nenhum deles. 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