﻿{"id":55801,"date":"2020-10-24T21:28:53","date_gmt":"2020-10-24T21:28:53","guid":{"rendered":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=55801"},"modified":"2020-10-24T21:28:53","modified_gmt":"2020-10-24T21:28:53","slug":"diario-do-apartamento-6-o-risco-da-esperanca-por-paulo-rosenbaum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=55801","title":{"rendered":"DI\u00c1RIO DO APARTAMENTO 6 \u2013 O RISCO DA ESPERAN\u00c7A &#8211; POR PAULO ROSENBAUM"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-55804 alignleft\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/365_especial_1_1-254x250.png\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"230\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/365_especial_1_1-254x250.png 254w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/365_especial_1_1-137x135.png 137w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/365_especial_1_1-50x50.png 50w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/365_especial_1_1.png 255w\" sizes=\"(max-width: 234px) 100vw, 234px\" \/>O \u00fanico sinal externo de que a anormalidade insiste em tornar-se normativa s\u00e3o as m\u00e1scaras e as fantasias por tr\u00e1s de cada uma delas. Afinal, quem ordenou tudo isso? E quem foi que nos acusou de n\u00e3o estamos gratos por continuar vivos? Podemos estar solid\u00e1rios com quem sofreu e ao mesmo tempo declarar emancipa\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas governamentais.<\/strong><\/em><\/p>\n<hr>\n<p style=\"text-align: justify;\">O asteroide de 15 kilometros de di\u00e2metro que h\u00e1 66 milh\u00f5es de anos atingiu a pen\u00ednsula de Yucatan no M\u00e9xico extinguiu os dinossauros e quase toda a vida na superf\u00edcie do Planeta. Segundo muitos, estamos aos 0,6 do in\u00edcio da segunda maior amea\u00e7a a vida, desta vez \u00e9 a humanidade que ser\u00e1 apagada. At\u00e9 os n\u00e3o negacionistas sabem, que voltar ao trabalho n\u00e3o \u00e9 uma escolha. \u00c9 pedir muito voltar a aceitar uma condi\u00e7\u00e3o que se remonta ao G\u00eanesis e nos imp\u00f4s que o sustento deveria ser obtido atrav\u00e9s do esfor\u00e7o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ontem foi inevit\u00e1vel voltar a ter uma rotina fora de casa. Busquei disfar\u00e7ar e tive que conter a satisfa\u00e7\u00e3o enquanto caminhava at\u00e9 o escrit\u00f3rio. Estava chegando no pr\u00e9dio quando fui interpelado por uma mo\u00e7a toda encapotada: \u2014 E essa cara feliz?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pego de surpresa, teria uma estranha capturado alguma euforia ignorada?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013Pois \u00e9, estou retomando a rotina, primeiro dia. E at\u00e9 consegui esbo\u00e7ar um sorriso amistoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013Ah, voltando a trabalhar? Ela aplicou um leve tom de censura \u00e0 pergunta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Uma hora teria que acontecer, minimizei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Olha. N\u00e3o sei n\u00e3o! E ela franziu as sobrancelhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O que \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o sabe? E depois de ter me ensopado de \u00e1lcool gelatinoso, j\u00e1 com o antebra\u00e7o enfiado na porta de entrada, reflui dando um passo atr\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Sei l\u00e1, o Sr. n\u00e3o \u00e9 mais nenhum jovem, \u00e9 grupo de risco, n\u00e3o acha que \u00e9 muita ousadia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Amiga, \u00e9 aceitar o jogo e ir em frente, nos proteger, e, como dizem os ingleses, \u201cespere pelo melhor\u201d. E virei para seguir minha jornada. Ela n\u00e3o desistiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Est\u00e1 brincando? Neste caos no qual estamos metidos? \u00c9 s\u00e9rio que voc\u00ea acha que vale a pena se arriscar? Eu se fosse voc\u00ea\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois \u00e9. Ela n\u00e3o era eu, portanto n\u00e3o respondi e determinado, entrei no pr\u00e9dio para subir e come\u00e7ar a atender as pessoas que j\u00e1 estavam \u00e0 minha espera. Pensei na facilidade com que a interpeladora me abordou para fazer observa\u00e7\u00f5es n\u00e3o solicitadas. E cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que faz parte de uma mentalidade que tem virado epid\u00eamica, todos devem estar dispon\u00edveis todo o tempo, todos s\u00e3o devass\u00e1veis, todos podem ser julgados e interpretados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabe-se que a palavra otimismo vem assumindo uma conota\u00e7\u00e3o pejorativa. O termo tem variado muito de significado, entre \u201cing\u00eanuo\u201d e \u201cc\u00e2ndido\u201d e evoluiu rapidamente \u00e0 \u201ctrouxa\u201d e \u201cimbecil\u201d, podendo sempre descer mais, quando palavras menos nobres ser\u00e3o utilizadas. Chegamos a pensar seriamente que compreend\u00edamos para onde caminh\u00e1vamos. Mas, por pura incompet\u00eancia, cessaram as fantasias de que ser\u00edamos ref\u00e9ns da tecnologia. E olhem que n\u00e3o esbarramos nos limites das \u00f3rbitas distantes, na tem\u00edvel singularidade dos buracos negros, nem nas dimens\u00f5es de estrelas que pelo tamanho escapam de toda estimativa matem\u00e1tica: a hist\u00f3ria registrar\u00e1 que entramos num estado de anima\u00e7\u00e3o suspensa diante de um animal\u00edculo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O v\u00edrus (do latim, veneno) n\u00e3o se contentou em ser s\u00f3 mais um fen\u00f4meno da natureza. Transformou-se numa escatologia programada. Mas, antes, deu descomunal poder a quem nunca soube us\u00e1-lo da \u00fanica forma que tornaria uma democracia realmente sustent\u00e1vel: benevol\u00eancia e genu\u00edno interesse pelos governados. Como disse em mar\u00e7o o ex-juiz da Suprema Corte do Reino Unido, Sir Lord Jonathan Sumption, referindo-se a um evento que reprimiu pessoas que desafiaram o lockdown: \u201cEis a apar\u00eancia de um Estado Policial\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No mundo todo o fato \u00e9 que para mostrar servi\u00e7o quando os governos n\u00e3o sabiam qual servi\u00e7o mostrar, o poder e seus agentes impuseram, tergiversaram, emitiram vers\u00f5es paradoxais, criaram regras marciais, prenderam cr\u00edticos e soltaram criminosos, aturdiram, espalharam desconhecimento, desorganizaram os incautos, mudaram leis, transformaram a medicina em armamento ideol\u00f3gico, e, finalmente, respaldados por extrapola\u00e7\u00f5es epidemiol\u00f3gicas a toque de caixa est\u00e3o na imin\u00eancia de prescrever solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas, apelidadas de experimentais. E o principal: deixaram quem mais precisava relegados a um lockdown espiritual intermitente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqueles que v\u00eam acusando o poder de promover bullyings de Estado contra os cidad\u00e3os podem ser etiquetados como desejarem, mas, sem d\u00favida \u00e9 deles a coragem que falta \u00e0s institui\u00e7\u00f5es. Acham exagero denunciar o drama? Tanto quanto transformar uma mol\u00e9stia em mito e espalhar o pavor. No lugar da m\u00ednima responsabilidade testemunhamos o autoritarismo sendo aperfei\u00e7oado usando o slogan do risco. Isto tudo sob a licenciosidade das m\u00eddias que, se livres, escolheram ser s\u00f3cias volunt\u00e1rias dos governantes contra os governados e a opini\u00e3o p\u00fablica. Ouviu-se mais de um ancora de TV cochichar nos bastidores a mesm\u00edssima frase \u201ctem mais \u00e9 que apavorar mesmo\u201d. Sob a indec\u00eancia das morda\u00e7as psicol\u00f3gicas, com a previs\u00edvel corros\u00e3o da linguagem, n\u00e3o foi dif\u00edcil imaginar porque \u00e9 que todos fomos calados, sem que nenhuma boca se insurgisse. De fato, insurrei\u00e7\u00f5es foram registradas, sempre por causas parasitas, perif\u00e9ricas, subleva\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias, motins autorit\u00e1rios, f\u00fateis e at\u00e9 engra\u00e7ados diante da superficialidade das reivindica\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o surgiram os \u201canti\u201d, aqueles que s\u00f3 se importam com a vida de alguns \u2014 e ocasionalmente defendem suprimir as demais se for para melhor testar suas teses. E, finalmente, emergiram aqueles que usaram as m\u00faltiplas fantasias conspirat\u00f3rias para desconstruir as verdadeiras amea\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sou otimista nem pessimista. \u00c9 que as vezes sou tomado por uma estranha credulidade: cultuo a alegria imotivada. Soa imperdo\u00e1vel? Para desespero de muitos hoje a pandemia \u2014 assim como seus instrumentadores \u2014 est\u00e1 saindo de foco. A press\u00e3o evolutiva sobre o v\u00edrus est\u00e1 resultando em menos mortes, ele ainda se espalha, mas a gravidade da doen\u00e7a se arrefece e n\u00e3o s\u00f3 porque hoje j\u00e1 h\u00e1 alguns tratamentos eficientes. Recorro ao sempre presente Professor Titular de Patologia Walter E. Maffei: \u201co v\u00edrus n\u00e3o quer matar o paciente\u201d, precisa se propagar. Mas h\u00e1 uma analogia pedag\u00f3gica que merece ser mencionada: o veneno, assim como parte significativa dos pol\u00edticos, tamb\u00e9m aprendeu a f\u00f3rmula para permanecer entre n\u00f3s: v\u00e3o continuar nos dando dor de cabe\u00e7a sem nos aniquilar completamente. E como num zoom out, as piores cenas, ainda bem, v\u00e3o ficando cada vez mais distantes. Sob as usinas de lives, as telas com polui\u00e7\u00e3o visual de rostos justapostos vinham criando uma est\u00e9tica mortificadora. O \u00fanico sinal externo de que a anormalidade insiste em tornar-se normativa s\u00e3o as m\u00e1scaras e as fantasias por tr\u00e1s de cada uma delas. Afinal, quem ordenou tudo isso? E quem foi que nos acusou de n\u00e3o estamos gratos por continuar vivos? Podemos estar solid\u00e1rios com quem sofreu e ao mesmo tempo declarar emancipa\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas governamentais. Nossa sobreviv\u00eancia n\u00e3o pode ser mais creditada ao Estado provedor, aos populistas confessos ou aos saqueadores da subjetividade \u00e0 espreita da pr\u00f3xima crise. A desumaniza\u00e7\u00e3o come\u00e7a com a uniformiza\u00e7\u00e3o e termina com a arte e cultura ref\u00e9ns da ideologia. Quando superarmos esta fase ser\u00e1 gra\u00e7as aos esfor\u00e7os individuais, ao sacrif\u00edcio silencioso das maiorias torturadas pela tirania de of\u00edcio. Infelizmente nem mesmo o rod\u00edzio no poder, a \u00faltima salvaguarda para a democracia, parece ter deixado claro o que precisamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que os bem pensantes nunca imaginariam \u2014 e detestam a sensa\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 um territ\u00f3rio que n\u00e3o conseguem entender \u2014 \u00e9 que eles perderam a hegemonia. Se h\u00e1 um risco que vale a pena correr \u2014 em oposi\u00e7\u00e3o ao determinismo dos cultores do apocalipse \u2014 \u00e9 precisamente o risco da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 \u00c9 que na tradi\u00e7\u00e3o judaica \u2014 eu deveria ter tentado explicar \u00e0 mo\u00e7a encapotada \u2014 a \u00e1rvore que nos habita abriga mais de um tipo de papiro, com fibras que misturam prud\u00eancia com ousadia. Propositalmente artesanal, o papel \u00e9 temperado para que a tinta do \u00danico sele, carimbe e nos inscreva no livro da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota &#8211; mat\u00e9ria publicada no o Blog &#8220;Conto de Not\u00edcia&#8221; no Jornal O Estado de S\u00e3o Paulo<\/p>\n<hr>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulo Rosenbaum &#8211; M\u00e9dico e escritor, mestre em medicina preventiva, doutor em ci\u00eancias (USP) e p\u00f3s doutor em Medicina Preventiva (FMUSP) , autor de Outro C\u00f3digo da Medicina, Medicina do Sujeito, Nov\u00edssima Medicina, Entre Arte e Ci\u00eancia, as bases hermen\u00eauticas da homeopatia. Na literatura publicou os romances &#8220;A Verdade Lan\u00e7ada ao Solo&#8221; (Ed. Record, 2010), &#8220;C\u00e9u Subterr\u00e2neo&#8221; (Perspectiva, 2016), &#8220;A Pele que nos Divide&#8221; (Poesia &#8211; Quixote-Do, 2018). Desde 2013 edita e publica o Blog &#8220;Conto de Not\u00edcia&#8221; no Jornal O Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/rosenbau@usp.br<rosenbau@usp.br>&#8220;>rosenbau@usp.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O \u00fanico sinal externo de que a anormalidade insiste em tornar-se normativa s\u00e3o as m\u00e1scaras e as fantasias por tr\u00e1s de cada uma delas. Afinal, quem ordenou tudo isso? E quem foi que nos acusou de n\u00e3o estamos gratos por continuar vivos? 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