﻿{"id":60183,"date":"2022-03-05T23:11:23","date_gmt":"2022-03-05T23:11:23","guid":{"rendered":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=60183"},"modified":"2022-03-22T03:15:44","modified_gmt":"2022-03-22T03:15:44","slug":"os-judeus-do-marrocos-e-a-selva-amazonica-por-mendy-tal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=60183","title":{"rendered":"OS JUDEUS DO MARROCOS E A SELVA AMAZ\u00d4NICA &#8211; POR MENDY TAL"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-60184 alignleft\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_1-367x250.jpg\" alt=\"\" width=\"285\" height=\"194\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_1-367x250.jpg 367w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_1-198x135.jpg 198w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_1.jpg 371w\" sizes=\"(max-width: 285px) 100vw, 285px\" \/>Hoje, a comunidade de Bel\u00e9m conta com cerca de 300 a 400 fam\u00edlias; a de Manaus, com 200 fam\u00edlias. H\u00e1 uma integra\u00e7\u00e3o completa no novo ambiente, sem perda, contudo, da identidade ancestral.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A presen\u00e7a judaica no Brasil \u00e9 muito mais antiga do que se pensa e faz parte, inclusive, do imagin\u00e1rio popular: lendas sobre expedi\u00e7\u00f5es judaicas \u00e0 Amaz\u00f4nia em tempos b\u00edblicos s\u00e3o frequentes no Norte do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fugidos de massacres, h\u00e1 s\u00e9culos eles vivem entre \u00edndios e seringueiros e foram importantes personagens na hist\u00f3ria da regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os protagonistas dessa hist\u00f3ria eram judeus que moravam principalmente em Tetuan e em T\u00e2nger, cidades no norte do Marrocos, \u00c1frica, e que foram parar em pleno cora\u00e7\u00e3o da floresta amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta imigra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma parte relevante da grande epopeia do sefardismo ocidental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Obrigados a viverem fechados em pequenos guetos, passando fome e sofrendo persegui\u00e7\u00f5es, os judeus marroquinos viram na misteriosa Amaz\u00f4nia uma chance de escapar da insuport\u00e1vel discrimina\u00e7\u00e3o que enfrentavam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E come\u00e7aram a migrar em massa logo no come\u00e7o do s\u00e9culo 19. O \u00eaxodo continuou por quase todo o s\u00e9culo e formou na Amaz\u00f4nia uma comunidade que contava, no fim da d\u00e9cada de 1880, com mais de 50 mil descendentes.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-60187 size-large\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_2-331x250.png\" alt=\"\" width=\"331\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_2-331x250.png 331w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_2-179x135.png 179w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_2.png 437w\" sizes=\"(max-width: 331px) 100vw, 331px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os judeus que sa\u00edram do Marrocos e vieram para o Brasil tinham origem ib\u00e9rica. Haviam sido expulsos da Espanha em 1492 e de Portugal quatro anos mais tarde. Com a expuls\u00e3o, um dos lugares escolhidos para a nova morada foi o norte da \u00c1frica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A guerra hispano-marroquina, em 1870, ou a pobreza das comunidades judaicas no Marrocos, espalhadas pelas \u00e1reas de influ\u00eancia espanhola, como Tanger, Tetuan ou Casablanca, e \u00e1rabe, como Rabat, Fez e Marrakesh, entre muitas outras, poderiam ser apontadas tamb\u00e9m como fatores que motivaram a sa\u00edda dos judeus naquele tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Marrocos, eram conhecidos como megorachim \u2013 espanh\u00f3is exilados sem p\u00e1tria. Apesar de tudo, alguns conseguiram prosperar. Mesmo assim, os judeus continuavam a sofrer constrangimentos, humilha\u00e7\u00f5es e confisco de seus bens \u2013 fora os j\u00e1 rotineiros massacres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O auge do ciclo da borracha, entre 1880 e 1910, do mesmo modo, atraiu comerciantes e outros trabalhadores, esse per\u00edodo coincidiu com o pico da imigra\u00e7\u00e3o judaica para a Bacia Amaz\u00f4nica; eles estabeleceram novas comunidades ao longo do interior do Rio Amazonas, em Santar\u00e9m e Manaus, Brasil, e tanto quanto Iquitos, no Peru, no lado leste da Cordilheira dos Andes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Proclamada a Rep\u00fablica no Brasil, em 1889, o decreto 119 do governo provis\u00f3rio de Deodoro da Fonseca aboliu a uni\u00e3o legal da Igreja com o Estado e instituiu o princ\u00edpio da plena liberdade de culto. Nessa \u00e9poca, os judeus oriundos do Marrocos viviam, na Amaz\u00f4nia, o pleno apogeu do ciclo da borracha \u2013 o que serviu para incentivar ainda mais a j\u00e1 cont\u00ednua migra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira parada dos judeus marroquinos costumava ser Bel\u00e9m, no Par\u00e1, onde eram recebidos por fam\u00edlias como os Nahon, Serfatty, Israel e Roff\u00e9, que j\u00e1 estavam aqui porque tinham neg\u00f3cios com empresas inglesas e francesas. Eles providenciavam roupas para os rec\u00e9m-chegados e os alojavam numa hospedaria. L\u00e1, os rapazes recebiam r\u00e1pidas e singelas informa\u00e7\u00f5es sobre como deviam se comportar nos s\u00edtios ao longo dos rios onde iriam viver nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o havia muita dificuldade quanto ao idioma, j\u00e1 que todos falavam espanhol e haketia (uma mistura de espanhol, portugu\u00eas, hebraico e \u00e1rabe desenvolvida no Marrocos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os judeus foram os primeiros regat\u00f5es (caixeiros-viajantes) da Amaz\u00f4nia. Suas embarca\u00e7\u00f5es levavam as mercadorias para serem trocadas nos seringais mais distantes por borracha, castanha, copa\u00edba (cujo b\u00e1lsamo era, ent\u00e3o, a medica\u00e7\u00e3o por excel\u00eancia das doen\u00e7as ven\u00e9reas na Europa), peles e couros de animais silvestres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A preocupa\u00e7\u00e3o em se adaptar, sem perder a pr\u00f3pria identidade, fez com que adotassem estrat\u00e9gias diversas de relacionamento com a sociedade em torno. Alguns traduziram seus nomes para se parecerem menos diferentes, como, por exemplo, Elmaleh para Salgado ou Bar Mosh\u00e9 para Alves.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-60188\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_3-380x250.png\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"219\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_3-380x250.png 380w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_3-205x135.png 205w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_3.png 604w\" sizes=\"(max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar do conv\u00edvio cordial, os judeus foram, eventualmente, alvo de manifesta\u00e7\u00f5es de intoler\u00e2ncia. Mas o horror, mesmo, ocorreu em 1901, nas localidades de Camet\u00e1, Bai\u00e3o, Mocajuba, Araquereruba, Mangabeira, Prainha, avan\u00e7ando pelas margens dos rios, onde os judeus tinham suas casas-armaz\u00e9ns.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, de um modo geral, os judeus marroquinos que vieram para a Amaz\u00f4nia conseguiram se adaptar bem \u00e0s novas condi\u00e7\u00f5es. Eliezer Salgado (Elmaleh) trabalhava no regat\u00e3o, no rio Purus, para sustentar nove filhos. Servia, tamb\u00e9m, de chazan e mohel, oficiava casamentos e brit-milot e, em sua casa, como em outras ribeirinhas, oficiavam-se os servi\u00e7os de Rosh Hashan\u00e1 e Yom Kipur, segundo relato de seus filhos e descendentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para esses judeus marroquinos, a fam\u00edlia era o n\u00facleo a partir do qual constru\u00edam sua judeidade em plena Amaz\u00f4nia. A identidade judaica n\u00e3o era apenas profundamente enraizada, mas admitida com orgulho e alegria. As hist\u00f3rias contadas pelos descendentes remetem \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o dos antepassados: os que moravam longe pegavam seus batel\u00f5es para passar os Yamim Noraim nas cidades maiores, como Alenquer ou Camet\u00e1.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-60185\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_4-344x250.png\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"242\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_4-344x250.png 344w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_4-186x135.png 186w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_4.png 502w\" sizes=\"(max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sexta-feira \u00e0 tarde, depois de fechar a loja, iniciavam-se os preparativos para o Shabat com toda a hiba (pompa), vestindo-se de linho branco, engomado e gravata. A m\u00e3e, numa cadeira de espaldar, punha-se a meldar (rezar) e pitnear (cantar) o Shir Hashirim (C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos), mizmorim (can\u00e7\u00f5es) e, durante o Arbit (reza da noite), reuniam-se em casa de um ou outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os filhos aos poucos deixavam de falar haketia, uma mistura de \u00e1rabe, hebraico e ladino, mantendo apenas express\u00f5es muito significativas e sem paralelo em portugu\u00eas (como traduzir, por exemplo, achlash, fecheado, abu, chosmin e sachorita?), e o ladino ficava como uma segunda l\u00edngua falada em casa, entre los nuestros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo na aus\u00eancia de rabinos, shlichim zelavam pelo rigor ritual, incluindo a lavagem do corpo e provid\u00eancias para o enterro. Ainda hoje estes cemit\u00e9rios sobrevivem como testemunhos da hist\u00f3ria judaica na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os tzadikim eram venerados e dentre eles destacava-se Shimon Bar Iochai. \u00c0 mesa, a cashrut era adaptada \u00e0s condi\u00e7\u00f5es locais, sem ferir a Halach\u00e1. Em vez do vinho, a cacha\u00e7a, as frutas tropicais, matz\u00e1 de tapioca e peixes para substituir as iguarias marroquinas. Com exce\u00e7\u00e3o da dafina e do couscous, de que n\u00e3o abriam m\u00e3o de forma alguma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o fim da riqueza propiciada pela borracha, muitos judeus abandonaram o &#8220;sert\u00e3o&#8221; e se estabeleceram em Bel\u00e9m ou emigraram para o sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, a comunidade de Bel\u00e9m conta com cerca de 300 a 400 fam\u00edlias; a de Manaus, com 200 fam\u00edlias. H\u00e1 uma integra\u00e7\u00e3o completa no novo ambiente, sem perda, contudo, da identidade ancestral.<\/p>\n<hr>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mendy Tal<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-60186 alignnone\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_5-250x250.png\" alt=\"\" width=\"209\" height=\"209\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_5-250x250.png 250w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_5-135x135.png 135w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_5-50x50.png 50w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/387_Especial_2_5.png 272w\" sizes=\"(max-width: 209px) 100vw, 209px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cientista Pol\u00edtico e Ativista Comunit\u00e1rio<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/mendytal@gmail.com<mendytal@gmail.com>&#8220;>mendytal@gmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, a comunidade de Bel\u00e9m conta com cerca de 300 a 400 fam\u00edlias; a de Manaus, com 200 fam\u00edlias. 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