﻿{"id":61130,"date":"2022-05-19T19:01:28","date_gmt":"2022-05-19T19:01:28","guid":{"rendered":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=61130"},"modified":"2022-06-04T20:41:29","modified_gmt":"2022-06-04T20:41:29","slug":"horizontes-substitutos-mutacao-da-linguagem-iii-yon-hazikaron-e-yon-haatzmaut-por-paulo-rosenbaum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=61130","title":{"rendered":"Horizontes Substitutos &#8211; Muta\u00e7\u00e3o da linguagem III\u00a0&#8211;\u00a0Yon Hazikaron e Yon Haatzmaut\u00a0\u2013 Por Paulo Rosenbaum"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Qual seria ent\u00e3o o nosso horizonte substituto? Aquele que ainda, at\u00f4nitos, n\u00e3o vimos. Aquele que substituir\u00e1 as promessas de aniquila\u00e7\u00e3o por processos de integra\u00e7\u00e3o. Nosso povo, vale dizer nenhum povo que n\u00e3o seja maioria aceitar\u00e1 doravante emendas relativas. Tampouco aceitar\u00e1 mortes injustific\u00e1veis.<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio da prega\u00e7\u00e3o dos revisionistas o testemunho e as testemunhas s\u00e3o os \u00fanicos documentos irrefut\u00e1veis da hist\u00f3ria. Escutamos, aqui e agora, desejando ou n\u00e3o, admitindo ou n\u00e3o, que a longa marcha da intoler\u00e2ncia ainda tem sua voz garantida. Dentro e fora dos Estados Nacionais. Est\u00e1 nos indiv\u00edduos, encontra-se nas institui\u00e7\u00f5es. Uma das provas deste amarga repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 a met\u00e1fora obsedante de teor anti judaico e anti sionista que vem tomando conta dos discursos e das narrativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, agora para justificar uma opera\u00e7\u00e3o evoca-se a propor\u00e7\u00e3o de &#8220;sangue judeu&#8221; do carrasco e suas equival\u00eancias. A m\u00e1quina de propaganda inclui um gigantesco lapso de an\u00e1lise cr\u00edtica por parte da m\u00eddia. E agora ousa culpabilizar a v\u00edtima pela agress\u00e3o como confirmou o candidato em entrevista \u00e0 uma revista americana outrora expressiva. N\u00e3o se trata apenas do uso temer\u00e1rio da linguagem que vem assumindo contornos alarmantes. \u00c9 torn\u00e1-la o avesso do trabalho de constru\u00e7\u00e3o da liberdade e da justi\u00e7a. \u00c9 a pervers\u00e3o dos significados e qui\u00e7\u00e1 um crime contra a literatura decente. N\u00e3o que ela deva tornar-se prescritiva, mas deveria abster-se de associar-se \u00e0 perf\u00eddia ideol\u00f3gica e datada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece persuadir a vida que erros assim vigorem como regras contra acertos de exce\u00e7\u00e3o. Indo adiante, a evoca\u00e7\u00e3o maligna emitida por pol\u00edticos e l\u00edderes ancora-se no medo. Assim tem sido quando exortam a demoniza\u00e7\u00e3o. Not\u00edcias que espalham-se nos mesmos ares comuns e com o mesmo vigor fantasmag\u00f3rico. Insinua-se, como nos recentes ondas de pestil\u00eancia, atrav\u00e9s de uma energia invis\u00edvel e indecifr\u00e1vel, a despeito de ser constrangedoramente palp\u00e1vel. Encontra-se na intrag\u00e1vel boca dos chanceleres do oriente e na did\u00e1tica pouco corajosa do ocidente. O ocidente cuja neutralidade ricocheteia nas v\u00edtimas para terminar alojada no colete \u00e0 prova de solidariedade dos gabinetes decis\u00f3rios. Que encontra na estrat\u00e9gica omiss\u00e3o as mesmas devasta\u00e7\u00f5es das cidades abertas em guerras recentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora j\u00e1 aprendemos, todos. A linguagem \u00e9 um ber\u00e7o selvagem. Que em tempos b\u00e9licos deixa apenas sulcos sem sentido. As acusa\u00e7\u00f5es contra Israel costumam vir das generaliza\u00e7\u00f5es, organizadas pela l\u00edngua que trama e confunde. Apesar da polissemia artificial que o termo vem assumindo recentemente na boca do antissemitismo hist\u00f3rico, os verdadeiros nazistas e seus c\u00famplices ideol\u00f3gicos ainda sabem instrumentaliza-lo como poucos. Eles vem como enxames err\u00e1ticos para disseminar uma poliniza\u00e7\u00e3o fan\u00e1tica entre flores acr\u00edticas. &#8220;Voc\u00eas \u00e9 que s\u00e3o nazistas&#8221; tornou-se uma esp\u00e9cie de slogan-\u00e1libi garantido para praticar as a\u00e7\u00f5es que tipificaram o III Reich.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual seria ent\u00e3o o nosso horizonte substituto? Aquele que ainda, at\u00f4nitos, n\u00e3o vimos. Aquele que substituir\u00e1 as promessas de aniquila\u00e7\u00e3o por processos de integra\u00e7\u00e3o. Nosso povo, vale dizer nenhum povo que n\u00e3o seja maioria aceitar\u00e1 doravante emendas relativas. Tampouco aceitar\u00e1 mortes injustific\u00e1veis. N\u00e3o acatar\u00e1 imputa\u00e7\u00f5es manipuladas. \u00c0s vezes, o descanso semanal, o Shabat, n\u00e3o basta para pautar o descanso, nem o luto para treinar o sofrimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nosso horizonte substituto? Ficar \u00e0 deriva? Render-se \u00e0 passagem de um tempo que n\u00e3o progride? Capitular diante do mar de injusti\u00e7as e das calamidades previs\u00edveis? Sem uma enorme carga de obje\u00e7\u00e3o ao volume de ataques, o futuro indicaria a repeti\u00e7\u00e3o de uma trag\u00e9dia de propor\u00e7\u00f5es da Shoah. E como devemos agir? Contemplativos? Adotando a imperturbabilidade estoica? Sob um andar lento e majestoso deslizar entre os ladrilhos alaranjados de Jerusal\u00e9m? Ou nas intermit\u00eancias de uma f\u00e9 que oscila entre o nascer e o p\u00f4r do sol? Entre um mar incognosc\u00edvel que nunca ser\u00e1 completamente atravessado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que me ofereces horizonte? Al\u00e9m de Nada, al\u00e9m das promessas de posteridade? De aceita\u00e7\u00e3o cordial de um destino n\u00e3o escolhido? Ou ser\u00e1 mais um dos enigmas que ningu\u00e9m ousa perscrutar? O que nos desvela horizonte? A calma inapropriada de dias sem sentido? Ou a certeza de que tudo n\u00e3o passa das mesm\u00edssimas experi\u00eancias com revezamento dos protagonistas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que pode nos dizer horizonte? Que somos um mero palco para tua atua\u00e7\u00e3o? Hoje as cinzas de uma mortalha desavisada chovem sobre n\u00f3s. E n\u00e3o molha s\u00f3 os exauridos judeus Meu pai estava na mesma tempestade. assim como todas as gera\u00e7\u00f5es ancestrais, e parecem reivindica-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata mais de um amanh\u00e3, o transe se imp\u00f4s hoje, violento como s\u00f3 a invisibilidade pode proporcionar. A vulnerabilidade \u00e9 uma sequela impertinente. O transe se imp\u00f5e por uma aus\u00eancia arbitr\u00e1ria, ref\u00e9m de uma peste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prevejo que n\u00e3o ser\u00e1 um solo comum, ou uma vida de alegrias imotivadas. Antes, tu tecer\u00e1s uma rede de amarras para criar a sensa\u00e7\u00e3o de fim. Mas o que eles n\u00e3o contavam \u00e9 com este pequeno imponder\u00e1vel. N\u00e3o sabemos bem a quem pertence o horizonte. A n\u00f3s, que sem a pretens\u00e3o de alinhamentos estamos coesos?. Sei que n\u00e3o \u00e9s or\u00e1culo, nem pode ou deves predizer o que nos falta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E por isso suspeitamos que a fus\u00e3o de horizontes n\u00e3o passe de uma quimera se o prumo n\u00e3o estiver disposto em solo plano. Um desfecho de fic\u00e7\u00e3o para quem esperava realidade. Por que ent\u00e3o ainda nos acossa com esperan\u00e7a, horizonte? Com expectativas que jamais surgir\u00e3o e com promessas tra\u00eddas pela realidade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se pudesse arriscar responderia que nossa vis\u00e3o te incorporou sem entender bem o que significa o grande panorama. Aquele que nos retirar\u00e1 da vulgaridade do senso comum para nos mostrar um nov\u00edssimo pertencimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem partidos, sem fundamentos r\u00edgidos, num horizonte male\u00e1vel que interponha sua coluna de prote\u00e7\u00e3o. Que simplesmente separa milagrosamente os tiranos dos justos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eleito, seria este o horizonte substituto: quem sabe assim conhecer\u00edamos o sentido esf\u00e9rico da palavra shalom?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que sob sirenes, ou violinos, teu anivers\u00e1rio de 74 anos de exist\u00eancia seja assim!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: mat\u00e9ria publicada no Blog Estad\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/conto-de-noticia\/os-horizontes-substitutos\/\">https:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/conto-de-noticia\/os-horizontes-substitutos\/<\/a><\/p>\n<hr>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Rosenbaum<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-61132 alignleft\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/392_Especial_2_1.png\" alt=\"\" width=\"172\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/392_Especial_2_1.png 172w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/392_Especial_2_1-93x135.png 93w\" sizes=\"(max-width: 172px) 100vw, 172px\" \/>Paulo Rosenbaum nasceu em S\u00e3o Paulo em 1959. \u00c9 m\u00e9dico e escritor. Possui Mestrado em Medicina Preventiva, Doutorado em Ci\u00eancias e P\u00f3s-doutorado em Medicina Preventiva pela USP, com mais de uma dezena de livros publicados na \u00e1rea. Escreve, regularmente, para o jornal Estado de S\u00e3o Paulo, no blog \u201cConto de not\u00edcia\u201d. Roteirista e produtor de document\u00e1rios, atuou como editor de revistas cient\u00edficas no campo da sa\u00fade. \u00c9 pesquisador na \u00e1rea de cl\u00ednica m\u00e9dica, semiologia cl\u00ednica, rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente, preven\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e pesquisa de medicamentos. Al\u00e9m de ensa\u00edsta, \u00e9 poeta, contista e romancista. Antes de Navalhas pendentes, publicou os romances: A verdade lan\u00e7ada ao solo (Record, 2010) e C\u00e9u subterr\u00e2neo (Perspectiva, 2016).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/rosenbau@usp.br<rosenbau@usp.br>&#8220;>rosenbau@usp.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qual seria ent\u00e3o o nosso horizonte substituto? Aquele que ainda, at\u00f4nitos, n\u00e3o vimos. Aquele que substituir\u00e1 as promessas de aniquila\u00e7\u00e3o por processos de integra\u00e7\u00e3o. Nosso povo, vale dizer nenhum povo que n\u00e3o seja maioria aceitar\u00e1 doravante emendas relativas. Tampouco aceitar\u00e1 mortes injustific\u00e1veis. 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