﻿{"id":63212,"date":"2023-02-11T05:19:56","date_gmt":"2023-02-11T05:19:56","guid":{"rendered":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=63212"},"modified":"2023-02-25T03:26:42","modified_gmt":"2023-02-25T03:26:42","slug":"um-suspiro-quebra-o-mundo-por-paulo-rosenbaum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=63212","title":{"rendered":"&#8220;Um suspiro quebra o mundo&#8221;\u2013 Por Paulo Rosenbaum"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Talmud<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que um suspiro quebraria o mundo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu, por exemplo, continuo suspirando sem ainda ter detectado movimentos na crosta terrestre. Alguns estalos ouvi, mas nunca os comprovei empiricamente. O suspiro tem poder para quebrar o mundo porque a audi\u00e7\u00e3o do mundo tem uma aten\u00e7\u00e3o flutuante.Somos como antenas direcionadas que prolongam a inspira\u00e7\u00e3o diante das emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conhecido tamb\u00e9m como express\u00e3o de lamentos, solu\u00e7os de J\u00f3 e trenos de Jeremias. \u00c9 poss\u00edvel testemunha-los no dia a dia e \u00e9 importante registrar que trata-se de conceito ambivalente: pode significar lamento ou interesse, pena ou desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Basta alguma aten\u00e7\u00e3o para testemunhar sua frequ\u00eancia nas ruas, nos mercados, na solid\u00e3o dos gabinetes, nos transeuntes que trabalham ininterruptamente, e em estudantes sobrecarregados por aulas desinteressantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O suspiro tem uma incid\u00eancia epidemiol\u00f3gica m\u00e1xima durante processos pr\u00e9vios \u00e0s decis\u00f5es vitais. Existem um sem n\u00famero de modalidades: pode ser prolongado, curto ou ininterrupto. Af\u00e1vel ou agressivo. Penetrante ou raso.O mais comum \u00e9 o suspiro r\u00e1pido, aquele que nem percebemos, camuflado numa respira\u00e7\u00e3o mais ligeira. O mais vulgar \u00e9 o suspiro inconsciente que aflige os usu\u00e1rios de redes sociais diante de imagens e textos infames e que geralmente precedem bloqueios sum\u00e1rios.Eles vem como avalanches, e, muitas vezes mesmo com os aparelhos desligados \u00e9 imposs\u00edvel det\u00ea-los e aos seus efeitos colaterais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O suspiro que aprendemos a admitir quase \u00e0 normalidade \u00e9 um suspiro de al\u00edvio, sob o &#8220;ufa&#8221; que sai de n\u00f3s quando um susto ou o pior j\u00e1 passou. E \u00e9 quando nos perguntamos se o pior j\u00e1 passou mesmo? Nem sempre, \u00e9 que, da mesma forma que negamos a morte para escapar da tanatofobia, nos iludimos com a posterga\u00e7\u00e3o das tempestades e dos tempos obscuros. H\u00e1 um suspiro quase obrigat\u00f3rio, aquele que sempre ocorre quando diante da d\u00favida e da interroga\u00e7\u00e3o que vai logo ali adiante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem suspiros de euforia seguidos de decep\u00e7\u00e3o. Segundo relatam os historiadores coube a Alexandre III, o mais logo e intenso suspiro do qual se tem not\u00edcia. Foi quando consultou o famoso or\u00e1culo de Delphos.O comandante em chefe queria saber o progn\u00f3stico e o destino de seus ex\u00e9rcitos. Ap\u00f3s um breve momento de empolga\u00e7\u00e3o, o suspiro rapidamente transformou-se em hesita\u00e7\u00e3o at\u00e9 ser compactado em p\u00e2nico brando.Segundo testemunhas, com o suspiro foi contido na garganta e apesar de nunca mais ter mencionado o assunto jamais se recuperou at\u00e9 sua morte precoce aos 32 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 tamb\u00e9m uma categoria especial do suspiro que \u00e9 o do resmungo. Cam\u00f5es bem retratou bem em &#8220;Os Lus\u00edadas&#8221; ao se referir os refr\u00f5es mal humorados dos velhos do Restelo.Mais contemporaneamente foi reativado aos milh\u00f5es diante de uma promessa grandiosa que virou um campanha esportiva p\u00edfia e humilhante realizada em um Pa\u00eds distante. Numa categoria an\u00e1loga est\u00e3o os suspiros ocos, os que perderam o significado, os expressos por instinto ou vicio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra curiosidade sobre suspiros: eles podem vir em salvas e chegam a atrapalhar a oxigena\u00e7\u00e3o do sangue. A suspirose \u00e9 um quadro que denota ansiedade (vale dizer, inquietude) acerca do nosso devir. H\u00e1 ainda o suspiro arrogante dos que imaginam que tudo compreenderam.Nesta modalidade de suspiro a hubris manifesta-se como um d\u00e9ficit cronico de autocritica.Tamb\u00e9m se incluem nesta categoria o suspiro diante daqueles que det\u00e9m o monop\u00f3lio da benevol\u00eancia, dos fil\u00f3sofos que abandonaram a d\u00favida, dos literatos que encontraram o elixir do senso comum, dos tecnocratas que, por hora, determinam o que pode e o que n\u00e3o pode ser exibido emhor\u00e1rio nobre, pelas injusti\u00e7as que o povo sofre diante dos <em>bullyings<\/em> de Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos mais comoventes contudo \u00e9 o suspiro por pessoas desaparecidas prematuramente, suspiro por pessoas que deixaram insan\u00e1veis vazios, e aqueles que emitimos no escuro por todas as faltas, mesmo aquelas que nem desconfiamos. Decerto um dos mais dolorosos \u00e9 o <em>maladie du pays<\/em>, que significa as saudades que os expatriados sofrem por sua terra natal. Alguns relatam que ele \u00e9 acompanhado por uma dor f\u00edsica atroz, que se assemelha um ardor no peito e descrita como &#8220;um espeto de metal em brasa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O suspiro do desejo: este se transforma em um ato infinito e \u00e9 quase imposs\u00edvel recobrar a respira\u00e7\u00e3o. Por um bom prato, diante de causas pol\u00edticas perdidas, por utopias, pelo tempo perdido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O suspiro amoroso estranhamente tornou-se cada vez mais raro &#8212; substitu\u00eddo ou n\u00e3o pelas paix\u00f5es pol\u00edticas, portanto indevidas. Suspeita-se que pode estar sendo praticado longe dos olhos p\u00fablicos. Especula-se tamb\u00e9m que talvez esteja sendo estocado para \u00e9pocas mais estimulantes j\u00e1 que o movimento rom\u00e2ntico assim como a subjetividade e o sujeito est\u00e3o em baixa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E quanto ao grande suspiro? O suspiro que n\u00e3o racha o mundo, mas o reaglutina, e regenera as partes fendidas.Deplorar ou bendizer, talvez nesta referida ambival\u00eancia resida sua maior virtude: ao quebrar o mundo um suspiro pode, enfim, romper o sil\u00eancio que nos cerca e agu\u00e7ar a benevol\u00eancia do Universo, ou, nos tornar menos invis\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/brasil\/conto-de-noticia\/um-suspiro-quebra-o-mundo-2\/\">https:\/\/www.estadao.com.br\/brasil\/conto-de-noticia\/um-suspiro-quebra-o-mundo-2\/<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>via <a href=\"https:\/\/paulorosenbaum.com.br\/2022\/12\/12\/um-suspiro-quebra-o-mundo-blog-estadao\/\">@Verdadelancada<\/a><\/strong><\/p>\n<hr>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Rosenbaum<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/406_Especial_3_1.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-63213 alignleft\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/406_Especial_3_1-172x250.png\" alt=\"\" width=\"172\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/406_Especial_3_1-172x250.png 172w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/406_Especial_3_1-93x135.png 93w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/406_Especial_3_1.png 189w\" sizes=\"(max-width: 172px) 100vw, 172px\" \/><\/a>Paulo Rosenbaum nasceu em S\u00e3o Paulo em 1959. \u00c9 m\u00e9dico e escritor. Possui Mestrado em Medicina Preventiva, Doutorado em Ci\u00eancias e P\u00f3s-doutorado em Medicina Preventiva pela USP, com mais de uma dezena de livros publicados na \u00e1rea. Escreve, regularmente, para o jornal Estado de S\u00e3o Paulo, no blog \u201cConto de not\u00edcia\u201d. Roteirista e produtor de document\u00e1rios, atuou como editor de revistas cient\u00edficas no campo da sa\u00fade. \u00c9 pesquisador na \u00e1rea de cl\u00ednica m\u00e9dica, semiologia cl\u00ednica, rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente, preven\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e pesquisa de medicamentos. Al\u00e9m de ensa\u00edsta, \u00e9 poeta, contista e romancista. Antes de Navalhas pendentes, publicou os romances: A verdade lan\u00e7ada ao solo (Record, 2010) e C\u00e9u subterr\u00e2neo (Perspectiva, 2016).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/rosenbau@usp.br<rosenbau@usp.br>&#8220;>rosenbau@usp.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Talmud Por que um suspiro quebraria o mundo? Eu, por exemplo, continuo suspirando sem ainda ter detectado movimentos na crosta terrestre. Alguns estalos ouvi, mas nunca os comprovei empiricamente. 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