﻿{"id":63454,"date":"2023-03-11T18:24:41","date_gmt":"2023-03-11T18:24:41","guid":{"rendered":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=63454"},"modified":"2023-03-11T18:24:41","modified_gmt":"2023-03-11T18:24:41","slug":"bessarabia-memoria-do-lugar-ou-lugar-na-memoria-por-bernardo-sorj","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=63454","title":{"rendered":"Bessar\u00e1bia: mem\u00f3ria do lugar ou lugar na mem\u00f3ria? \u2013 Por Bernardo Sorj"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Bessar\u00e1bia, hoje eu sei, n\u00e3o \u00e9 para mim um local f\u00edsico e sim aquilo que n\u00e3o pode ser desterrado, a mem\u00f3ria que eu tenho de meu pai. Poderia peregrinar nas terras que ele pisou, mas n\u00e3o ter\u00e1 rela\u00e7\u00e3o alguma com o mundo das pisadas dele.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\">A Bessar\u00e1bia da minha inf\u00e2ncia<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das primeiras palavras que ouvi na minha inf\u00e2ncia foi meu pai dizendo em Yidish[1] \u201cBoruch, voc\u00ea \u00e9 um bessaraber\u201d. Bessaraber, da Bessar\u00e1bia, a terra de onde veio meu pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mam\u00e3e nasceu na Argentina, de uma fam\u00edlia rec\u00e9m-chegada da cidade de Bialystok, na Pol\u00f4nia. Mas n\u00e3o tinha mem\u00f3rias associadas a Bialistok. Afinal de contas, ela era argentina, e papai viveu at\u00e9 os 18 anos na Bessar\u00e1bia, mais precisamente em Chotin.[2]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Possivelmente mais importante que os dados geogr\u00e1ficos era o fato de que meu av\u00f4 era rabino, assim como v\u00e1rios de meus tios e tatarav\u00f3s. E sobre ele pairava uma aura de respeito quase m\u00edstico. Venera\u00e7\u00e3o que se fundia com o exterm\u00ednio da fam\u00edlia de meu pai, incluindo meus av\u00f3s, tios e sobrinhos, no Holocausto. Sobre a fam\u00edlia de minha m\u00e3e nada de especial, aparentemente, havia para contar. Pelo contr\u00e1rio, meu av\u00f4 materno deixou lembran\u00e7as negativas nas suas filhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante toda a minha inf\u00e2ncia ouvi as est\u00f3rias que meu pai contava sobre a vida no \u201cshtetl\u201d, o vilarejo aonde viveu. Em primeiro lugar, que ele tinha nascido em Kelmenitz, mas logo a fam\u00edlia se transferiu para Chotin, onde seu pai, al\u00e9m de rabino, tinha certas fun\u00e7\u00f5es delegadas de juiz, conferidas pelo poder russo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele contava como a vida no shtetl, inclusive na casa de meu av\u00f4, era de uma grande pobreza, e o frio no inverno muito duro de suportar. Uma tia, para ajudar \u00e0 fam\u00edlia, cruzava o rio Dniester para contrabandear cigarros sob risco de ser morta. Uma das fam\u00edlias ricas enviava de vez em quando alguns quilos de farinha de milho para preparar uma polenta. <em>Mameligue<\/em>, polenta, era t\u00e3o presente na vida dos bessaraber que eles se chamavam entre eles de \u201cmameligues\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Papai, o \u00fanico dos irm\u00e3os sem voca\u00e7\u00e3o para os estudos (gostava de correr pela rua com seu \u00fanico brinquedo, uma roda de arame que ele dirigia com um pauzinho e, quando adolescente, de flertar com as meninas), querendo ajudar foi trabalhar colhendo nozes. Voltou em casa com o pagamento da jornada e as m\u00e3os enegrecidas pelo labor. Meu av\u00f4, que nunca bateu nem gritou com ele, ficou muito chateado. Isso, n\u00e3o era um trabalho digno para o filho de um rabino! Foi encaminhado para ser aprendiz de relojeiro, trabalho mais condizente. Depois de desarmar v\u00e1rios rel\u00f3gios e n\u00e3o conseguir colocar as pe\u00e7as de volta no lugar, abandonou a tentativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma outra forma das crian\u00e7as ganharem alguns trocados era esperar a chegada dos cossacos que vinham fazer compras e beber vodca, amarrando e cuidando os cavalos. Ele o fez alguma vezes, mas parou quando um cossaco b\u00eabado, no lugar de uma gorjeta, arrancou a orelha de um amigo por se tratar de um \u201cjudeu imundo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mundo de meu pai era totalmente voltado para dentro da comunidade. A tal ponto que quando chegou ao Uruguai a \u00fanica l\u00edngua que ele falava, escrevia e lia, era o Yidish. O mundo \u201cexterior\u201d, formado pelos <em>goyim<\/em> (gentios) era hostil e do qual se devia manter dist\u00e2ncia. Nem sempre era poss\u00edvel, em particular nas v\u00e9speras da Semana Santa, quando uma multid\u00e3o, com o sacerdote na frente portando uma cruz, passava pelas ruas judias jogando pedras, roubando e incendiando as casas dos ditos assassinos de Cristo. Em um desses pogroms morreu queimado um primo do meu pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As lembran\u00e7as sobre minha av\u00f3 s\u00e3o poucas. Como era tradicional, os jovens rabinos promissores casavam com as filhas de fam\u00edlias mais ricas, que entregavam um dote. Os recursos permitiam que o rabino se dedicasse aos estudos enquanto a esposa cuidava dos filhos e dos neg\u00f3cios. Foi o destino da minha av\u00f3 Frida, que administrava o neg\u00f3cio comprado com o dote. Doente desde jovem e tomando conta da fam\u00edlia, o empreendimento terminou falindo. Apesar das dificuldades, papai me dizia que a vida no <em>shtetl<\/em> era mais cheia de sentido do que no mundo de hoje, mas muito dif\u00edcil para as mulheres, \u201cque n\u00e3o eram devidamente reconhecidas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As lembran\u00e7as do papai eram centradas na figura paterna. Sua vida era dedicada ao estudo, ficando todos os dias relendo o Talmude. Arbitrava situa\u00e7\u00f5es de conflito, muitas vezes assuntos comerciais entre pessoas mais ricas e mais pobres. Meu av\u00f4 n\u00e3o se sometia as demandas dos mais poderosos pois ele achava que seu papel era proteger os mais necessitados, sofrendo como repres\u00e1lia n\u00e3o contar com o apoio financeiro deles. Lembrava do respeito que as pessoas tinham por meu av\u00f4: todas os presentes na sinagoga se levantavam quando ele entrava. Meu pai, na sinagoga no Uruguai, quando ia ao p\u00falpito fazer a ben\u00e7\u00e3o da Tor\u00e1 (pentateuco) era chamado de \u201cBentzion filho do rabino Boruch\u201d, sua principal fonte de orgulho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Repetia a meu pai que \u201cviemos ao mundo para fazer o bem\u201d, que \u201c as ora\u00e7\u00f5es n\u00e3o valem nada se a pessoa n\u00e3o for boa\u201d. Sempre lhe recordava que amor \u00e9 proteger quem voc\u00ea ama, e por isso o amor tem um alto pre\u00e7o, o de sofrer quando as pessoas que voc\u00ea ama sofrem. E antes dele viajar para o Uruguai lhe lembrou que \u201ctzu zain a yd is tzu zain a mentsh\u201d (ser um judeu \u00e9 ser humano).[3]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00e9poca, rabinos chass\u00eddicos,[4] de linhagens transmitidas geralmente de pai para filho, iam de cidade em cidade com suas cortes, recebendo a popula\u00e7\u00e3o local para distribuir b\u00ean\u00e7\u00e3os que teriam poderes miraculosos. Em troca, recebiam os mais diversos presentes de pessoas que pouco tinham para dar. Meu av\u00f4 calava, mas transmitia a meu pai seu desgosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os retratos de meus av\u00f3s e de meus tios ficavam no aparador, e minha m\u00e3e sempre tentava colocar de lado, para que a vis\u00e3o de meu pai n\u00e3o cruzasse com eles e as lagrimas escorregassem sem ele poder se conter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu recebi o nome de meu av\u00f4, Boruch. Um peso enorme, que meus pais, mas tamb\u00e9m familiares, das mais variadas formas, me faziam sentir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu pai chegou no Uruguai com o endere\u00e7o de um dos filhos da fam\u00edlia Sancovski, a mesma que enviava farinha de milho para a casa de meus av\u00f3s. Embora os judeus que chegavam em Montevid\u00e9u se organizassem em <em>Farbands<\/em> (associa\u00e7\u00f5es) com sinagogas pr\u00f3prias, rapidamente elas passaram a agrupar os moradores do bairro, pois no s\u00e1bado n\u00e3o se pode usar um meio de transporte, reunindo assim pessoas das mais diversas proced\u00eancias. Na sinagoga a l\u00edngua franca era o Yidish, e as diversas origens ficavam num segundo plano, embora meu tio falasse em h\u00fangaro com um conterr\u00e2neo e alguns fossem chamados pela sua regi\u00e3o de nascimento, como o \u201c<em>litvish<\/em>\u201d (o lituano).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Bessar\u00e1bia de Israel<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1955 chegou na sinagoga um senhor que cumpria uma fun\u00e7\u00e3o tradicional de levantar recursos para <em>Yeshivot<\/em> (centros de estudo) em Israel. O <em>fund-raising<\/em> tem uma longa tradi\u00e7\u00e3o no juda\u00edsmo! Depois das ora\u00e7\u00f5es, a tradi\u00e7\u00e3o era que o visitante fizesse um coment\u00e1rio sobre algum tema religioso. Ao t\u00e9rmino da apresenta\u00e7\u00e3o explicou que tinha passado pela cidade de Cali, na Col\u00f4mbia e perguntou se havia algu\u00e9m de Chotin, pois os Moverman sabiam que tinham um parente no Uruguai e pediam que fossem contatados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os Moverman era primo-irm\u00e3os de papai do lado da m\u00e3e. Papai entrou em contato, e eles contaram que um filho do irm\u00e3o dele tinha sobrevivido ao Holocausto e morava em Israel. Tinha se salvado, pois a m\u00e3e, a esposa de meu tio Moishe, quando todos os judeus do povoado foram levados a caminhar no meio da noite invernal e fuzilados, ela conseguiu se jogar numa sarjeta e carregou os dois filhos at\u00e9 alcan\u00e7ar o lado controlado pelos sovi\u00e9ticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando cheguei em Israel encontrei meu primo David e pedi que me contasse mais coisas sobre a fam\u00edlia. David tinha suprimido o passado, sobre o qual nunca contou nada a suas filhas. Inclusive somente falou sobre o tema com sua esposa, depois de quinze anos de casados, quando o processo de Eichmann em 1961, explodiram emo\u00e7\u00f5es contidas.[5] Nunca mais voltaram a falar sobre o assunto. Israel, para eles, representava um renascimento e o pesadelo deveria ser deixado para tr\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As poucas coisas que consegui tirar do David completaram um pouco mais o quadro da hist\u00f3ria da fam\u00edlia de papai at\u00e9 o exterm\u00ednio. Moishe, o irm\u00e3o mais velho e pai do David, mantendo a tradi\u00e7\u00e3o, casou com a filha de uma fam\u00edlia rica e se mudou para um outro vilarejo, Secureni (hoje Sokyryany) distante quase 100 quil\u00f4metros de Chotin. David contou que o pai dele toda semana viajava at\u00e9 a casa dos pais para levar sortimentos e se assegurar que eles estavam bem. Que quando veio a guerra, Moishe trouxe os pais para morar com eles, e que na marcha da morte, quando meu av\u00f4 n\u00e3o conseguiu mais caminhar, foi carregado pelo Moishe e finalmente ambos ca\u00edram, sendo fuzilados na frente dos filhos. Que uma das tias, irm\u00e3 de meu pai, era professora e lia literatura universal. Que o outro irm\u00e3o, o menor, Shimsha (Sanson) era um g\u00eanio em matem\u00e1tica e foi estudar numa cidade grande. Meu pai, sabendo que Shimsha n\u00e3o estava no vilarejo no momento da matan\u00e7a, mantinha a esperan\u00e7a que ainda estivesse vivo. David me contou que no final da guerra voltou com a m\u00e3e (o irm\u00e3o maior tinha sido recrutado pelo Ex\u00e9rcito Vermelho) e procurou pelos membros da fam\u00edlia. Souberam que Shimsha quando estourou a guerra tinha tentado retornar \u00e0 casa dos pais, mas morreu de frio e fome no caminho<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">David deixou no Museu de <em>Yad Vashem<\/em> (Museu do Holocausto) em Jerusal\u00e9m os nomes da fam\u00edlia. A \u00fanica foto que mantinha guardada, perdida em algum lugar, era a de meu av\u00f4, j\u00e1 velho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para mim, o mais importante que queria contar para meu pai assim que voltasse a encontr\u00e1-lo, era que a fam\u00edlia dele estava economicamente bem. Que a culpa que carregava por n\u00e3o ter conseguido juntar dinheiro para trazer os pais para Uruguai, e assim salv\u00e1-los, n\u00e3o se justificava. Que os pais tinham recursos para ir embora, mas estavam enraizados em Bessar\u00e1bia. Quando relatei para ele, meu pai meu olhou e falou: \u201cHoje meus pais e irm\u00e3os possivelmente j\u00e1 estariam mortos, mas as crian\u00e7as &#8230;\u201d Mais uma vez papai expressava uma grandeza que lhe era \u00fanica. Seu sentimento de mundo n\u00e3o se reduzia a seu sofrimento pelas culpas pessoais. Para ele, o Holocausto, sobretudo, n\u00e3o era a dor pessoal e sim a destrui\u00e7\u00e3o das outras vidas, em particular das crian\u00e7as, que deveriam ter sido vividas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Bessar\u00e1bia do cientista social<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, de forma dispersa, tentei obter informa\u00e7\u00f5es mais \u201cobjetivas\u201d sobre a Bessar\u00e1bia. Tudo o que sabia era que papai nasceu na R\u00fassia czarista, mas foi embora quando o territ\u00f3rio ficou nas m\u00e3os da Rom\u00eania depois da primeira guerra mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria de Chotin sintetiza os avatares daquela regi\u00e3o do mundo. Durante os s\u00e9culos XIII ao XVIII ela foi parte do Principado da Mold\u00e1via, mas em certos per\u00edodos ficou sob tutela da Comunidade Polaco-Lituana. Por sua vez, o Principado da Mold\u00e1via era um vassalo do Imp\u00e9rio Otomano, que por um s\u00e9culo (1711-1812) governou Chotin diretamente. De 1812 a 1917 foi parte do imp\u00e9rio Russo, e em 1918 foi anexada pela Rom\u00eania. Ap\u00f3s a segunda Guerra Mundial, at\u00e9 os dias de hoje, passou ser parte da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que constituiu a Bessar\u00e1bia hoje em grande parte est\u00e1 inclu\u00edda na Rep\u00fablica de Mold\u00e1via, y uma parte menor na Ucr\u00e2nia. A identidade de meu pai n\u00e3o era nem romena nem ucraniana. Apesar da maioria dos bessarabers ter deixado a Rom\u00eania, nasceram na R\u00fassia czarista e os judeus da Bessar\u00e1bia n\u00e3o se consideravam romenos, pelo contr\u00e1rio, os judeus romenos constitu\u00edam um grupo com identidade diferente.[6] Eles eram bessarabers.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encontrei um livro em hebraico sobre Chotin e um cap\u00edtulo em ingl\u00eas.[7] Aprendi que a popula\u00e7\u00e3o total em 1930 (papai saiu em 1928) era de 5.781 pessoas das quais 37.7% eram judeus.[8] Com pouco mais de 2.000 pessoas a comunidade possu\u00eda um hospital, um asilo de anci\u00e3os, duas escolas elementares para meninos e meninas, uma escola de ensino religioso, uma biblioteca com um dos melhores acervos na Bessar\u00e1bia em hebraico e em Yidish, um Fundo de Poupan\u00e7a e Empr\u00e9stimo que n\u00e3o cobrava juros, um cemit\u00e9rio sob os cuidados da comunidade, um local para receber os necessitados e uma organiza\u00e7\u00e3o, Maot Hittim atrav\u00e9s da qual a comunidade apoiava 500 fam\u00edlias em necessidade, sendo que boa parte dela recebia assist\u00eancia em forma secreta, para que n\u00e3o se sentissem humilhadas. Dos recursos arrecadados pela comunidade, um ter\u00e7o do total era dedicado a atividades culturais e educativas. Tinha um fundo que assegurava a pens\u00e3o dos funcion\u00e1rios das institui\u00e7\u00f5es, formado pela contribui\u00e7\u00e3o parit\u00e1ria dos empregados e da comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Junto com as institui\u00e7\u00f5es formais, nas \u00faltimas d\u00e9cadas antes da guerra tinham se formado todo tipo de associa\u00e7\u00f5es culturais e de agrupamentos ligados ao movimento sionista, que meu av\u00f4 apoiava, o que n\u00e3o comum entre os rabinos da \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os ventos da modernidade chegavam na Bessar\u00e1bia, mas com atraso em rela\u00e7\u00e3o a outras partes de Europa de Leste, pois a grande maioria vivia em vilarejos pequenos, distantes culturalmente dos grandes centros urbanos. N\u00e3o \u00e9 casual que o Bar\u00e3o de Hirsch, quando procurou candidatos para o projeto de criar col\u00f4nias agr\u00edcolas no Rio Grande do Sul se decidiu pela Bessar\u00e1bia, pois a influ\u00eancia do socialismo ainda n\u00e3o teria chegado l\u00e1, \u00e0 diferen\u00e7a de boa parte das outras comunidades judias de Europa do Leste. A consequ\u00eancia \u00e9 que hoje o Brasil possui uma grande concentra\u00e7\u00e3o de descendentes de bessarabers.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A procura de Chotin nos mapas inicialmente foi simples, apesar de que muitas cidades foram mudando de pronuncia\u00e7\u00e3o e forma de escrita de acordo com o governante do momento. Kelmentiz, por\u00e9m, n\u00e3o aparecia nos mapas, mas depois de circular pelo Google descobri que o nome da cidade era Kelmentsy, e que em Ydish era pronunciada Kelmenitz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais dif\u00edcil foi achar refer\u00eancias sobre os nomes dos membros da fam\u00edlia. S\u00f3 para dar dois exemplos: meu nome e do meu av\u00f4, em Yidish se escreve Boruch (em hebraico moderno Baruch). S\u00f3 que no Yidish falado era pronunciado de forma diferente, imagino do que por influ\u00eancia eslava e sobretudo porque em hebraico n\u00e3o existem vogais de forma que as mesmas letras podem dar lugar as mais diversas combina\u00e7\u00f5es. Assim, Boruch virava Burech ou Burke, como meu av\u00f4 era chamado,[9] e como aparece no livro sobre Chotin.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o nome de fam\u00edlia? O nome de meu pai, em Yidish, era Shorch. Quando chegou ao Uruguai virou Sorj (pois n\u00e3o existe Sh em espa\u00f1ol). Meu primo o hebraizou para Sorek, e o nome dos familiares mortos que ele inscreveu em Iad Vashem, aparecem como Szorch, sendo que inicialmente outra testemunha, ligada a meu tio Mordechai, escreveu Shorkh.[10]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mem\u00f3ria do lugar ou lugar de mem\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando li, d\u00e9cadas atr\u00e1s, \u201cCem anos de solid\u00e3o\u201d uma frase sobre Macondo me marcou sem saber bem o porqu\u00ea, mas lembro at\u00e9 hoje: \u201c&#8230; pues estaba previsto que la ciudad de los espejos (o los espejismos) ser\u00eda arrasada por el viento y desterrada de la memoria de los hombres\u2026).\u201d Bessar\u00e1bia, hoje eu sei, n\u00e3o \u00e9 para mim um local f\u00edsico e sim aquilo que n\u00e3o pode ser desterrado, a mem\u00f3ria que eu tenho de meu pai. Poderia peregrinar nas terras que ele pisou, mas n\u00e3o ter\u00e1 rela\u00e7\u00e3o alguma com o mundo das pisadas dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Procuramos nos apegar a vest\u00edgios materiais e dar um significado transcendental a eles. Hoje n\u00e3o tenho mais o desejo, que por muito tempo acalentei, de visitar Chotin, se bem entendo que pessoas fa\u00e7am peregrina\u00e7\u00f5es para os lugares onde moraram seus antepassados, na procura de tra\u00e7os que os relacionem com a passagem do tempo, al\u00e9m daquele que nos toca viver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Papai, algu\u00e9m que quando perguntei se acreditava na chegada do Messias, me respondeu que o Messias chegou, que era o Estado de Israel, n\u00e3o aceitava que o Muro das Lamenta\u00e7\u00f5es fosse um empecilho para a paz. \u201cS\u00e3o pedras, ele dizia, elas n\u00e3o t\u00eam vida\u201d. \u00c9 a vida que tem que ser protegida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 para mim Bessar\u00e1bia? S\u00e3o as memorias de meu pai, com um legado de sabedoria que ele tentou praticar em uma coletividade que sentia tinha perdido o sentido de comunidade, de respeito ao estudo, e, sobretudo da obriga\u00e7\u00e3o de proteger os outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Martin Kundera escreveu que a \u201cA \u00fanica raz\u00e3o pela qual as pessoas querem ser donas do futuro \u00e9 para mudar o passado. \u201d Isto \u00e9 verdade, n\u00e3o somente para a maioria dos emigrantes, judeus ou n\u00e3o, como, quem sabe ainda mais, para os que vivemos nos tempos atuais. Lutamos contra as mais diversas lembran\u00e7as de sofrimentos, traumas ou inseguran\u00e7as individuais que nos marcaram na inf\u00e2ncia e na juventude para afirmar um presente no qual o passado foi superado. A excepcionalidade de papai \u00e9 que para ele o passado n\u00e3o era somente memorias ou um sentimento nost\u00e1lgico, mas o seu maior bem. Bessar\u00e1bia, era o mundo que lhe foi aniquilado, e para preserva-lo orientou sua conduta pelos valores recebidos, para ele o \u00fanico caminho poss\u00edvel de perpetuar a lembran\u00e7a de seus seres queridos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Zikhronam lebracha. Que a mem\u00f3ria deles seja aben\u00e7oada.<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">[1] Retomo aqui algumas das lembran\u00e7as que apresentei de forma sucinta no meu livro Vai embora da casa de teus pais. S\u00e3o Paulo, Editora Record, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 L\u00edngua originada no s\u00e9culo X na Europa Central, com base no alem\u00e3o, incluindo vocabul\u00e1rio hebraico e com influ\u00eancia dos diferentes regi\u00f5es onde os judeus se disseminaram, em particular, l\u00ednguas eslava. Se escreve usando o alfabeto hebraico. No Brasil a norma \u00e9 chamar o Yidish de Iidishe. Me custa aceitar, porque Iidische em Yidish, \u00e9 um adjetivo, algo que \u00e9 relativo ao Yidish.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Por vezes escritas como Hotin, ou em ingl\u00eas Khotyn. Como nem o portugu\u00eas nem o ingl\u00eas tem uma letra com valor fon\u00e9tico similar as letras Het e hav em hebraico (similar a letra jota em espanhol) a norma mais utilizada em portugu\u00eas \u00e9 seu substituto pelo Ch e em ingl\u00eas pelo Kh, mas por vezes tamb\u00e9m pela H.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 A tradu\u00e7\u00e3o literal de <em>mentsh,<\/em> \u00e9 homem, mas em Yidish tem um sentido de ser uma pessoa decente\/boa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Corrente renovadora dentro do juda\u00edsmo, surgida no s\u00e9culo XVII na Ucr\u00e2nia, com um forte componente m\u00edstico, impulsado pelos massacres de dezenas de milhares de judeus pelo l\u00edder cossaco Chmelnitzki. Uma breve introdu\u00e7\u00e3o ao Chassidismo pode ser encontrada em <a href=\"https:\/\/www.jewishencyclopedia.com\/articles\/7317-hasidim-hasidism\">https:\/\/www.jewishencyclopedia.com\/articles\/7317-hasidim-hasidism<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Eles estavam vendo na televis\u00e3o um testemunho que teve uma experi\u00eancia similar ao da esposa do David, que se salvou do Holocausto gra\u00e7as ao fato de que os pais a colocaram na estrada, com dez anos, com um colar com um crucifixo, sendo encontrada por uma camponesa que precisava de ajuda na casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7 Os judeus romenos, para os judeus de Europa Oriental, eram vistos como pouco honestos. Os preconceitos m\u00fatuos de judeus de uma regi\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a outra era a norma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">8 Sefer \u1e32ehilat \u1e24ot\u1ecbn \u2013 Besarabyah &#8211; (em Hebraico). Editor Shlomo Shitnovitzer Electronic reproduction. The New York Public Library &#8211; National Yiddish Book Center Yizkor Book Project, <a href=\"http:\/\/chrome-extension:\/\/efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj\/https:\/\/ia902907.us.archive.org\/15\/items\/nybc313810\/nybc313810.pdf\" data-wplink-url-error=\"true\">https:\/\/ia902907.us.archive.org\/15\/items\/nybc313810\/nybc313810.pdf<\/a>. e \u201cKhotin\u201d, Encyclopedia of Jewish, Communities in Romania, Volume 2, (Khotyn, Ukraine), Translation of \u201cKhotin\u201d chapter from Pinkas Hakehillot Romaniam Published by Yad Vashem, Jerusalem, 1980. <a href=\"https:\/\/www.jewishgen.org\/yizkor\/pinkas_romania\/rom2_00353.html\">https:\/\/www.jewishgen.org\/yizkor\/pinkas_romania\/rom2_00353.html<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">9 O n\u00famero teria quase duplicado em 1941, mas se trata de aproxima\u00e7\u00f5es dif\u00edceis de conferir.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BERNARDO SORJ<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/408_especial_3_1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-63455 alignnone\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/408_especial_3_1-211x250.jpg\" alt=\"\" width=\"211\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/408_especial_3_1-211x250.jpg 211w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/408_especial_3_1-114x135.jpg 114w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/408_especial_3_1.jpg 311w\" sizes=\"(max-width: 211px) 100vw, 211px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bernardo Sorj, cursou o B.A. e M.A. em Hist\u00f3ria e Sociologia na Universidade de Haifa, Israel, e obteve o t\u00edtulo de Ph.D. em Sociologia na Universidade de Manchester, Inglaterra. Foi professor de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da <a href=\"https:\/\/ifcs.ufrj.br\/\">Universidade Federal de Minas Gerais<\/a>, do Instituto de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da PUC\/RJ e professor titular de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi professor visitante em diversas universidades e centros de pesquisa na Europa, Israel e nos Estados Unidos. Autor de 30 livros publicados em v\u00e1rias lingas e mais de 100 artigos acad\u00eamico. Atualmente \u00e9 diretor do Centro Edelstein de Pesquisas Sociais e de Plataforma Democr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/bernardosorj@gmail.com&lt;bernardosorj@gmail.com&gt;\">bernardosorj@gmail.com<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/bernardosorj.org\/\">www.bernardosorj.com<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bessar\u00e1bia, hoje eu sei, n\u00e3o \u00e9 para mim um local f\u00edsico e sim aquilo que n\u00e3o pode ser desterrado, a mem\u00f3ria que eu tenho de meu pai. Poderia peregrinar nas terras que ele pisou, mas n\u00e3o ter\u00e1 rela\u00e7\u00e3o alguma com o mundo das pisadas dele. A Bessar\u00e1bia da minha inf\u00e2ncia Uma das primeiras palavras que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":63455,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8,32],"tags":[283],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/63454"}],"collection":[{"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=63454"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/63454\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":63456,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/63454\/revisions\/63456"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/63455"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=63454"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=63454"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=63454"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}