﻿{"id":63648,"date":"2023-03-28T20:14:19","date_gmt":"2023-03-28T20:14:19","guid":{"rendered":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=63648"},"modified":"2023-04-15T19:38:05","modified_gmt":"2023-04-15T19:38:05","slug":"nao-e-religiao-sao-nervos-para-topol-por-paulo-rosenbaum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=63648","title":{"rendered":"N\u00e3o \u00e9 religi\u00e3o, s\u00e3o Nervos : para Topol\u00a0\u2013 Por Paulo Rosenbaum"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">Topol, o ator protagonista de &#8220;O Violinista no Telhado&#8221; (1934-2023)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Faleceu ontem (11\/03) o ator Chaim Topol, aos 84 anos, que atuou no ic\u00f4nico, estereotipal, brilhante, reducionista, destarte maravilhoso filme acima referido. &#8220;Tevye&#8221; foi seu personagem, de aparente simplicidade como tudo que se refere a uma an\u00e1lise panor\u00e2mica e unidimensional, abriu ao mundo uma percep\u00e7\u00e3o in\u00e9dita: retratou o modo como viviam os judeus em seus stetl (guetos) na Europa oriental do XIX, em uma dimens\u00e3o que abrangeu o humor peculiar, a est\u00e9tica dos costumes e principalmente a musicalidade inata de uma na\u00e7\u00e3o de ouvidos absolutos. Mas \u00e9 o subtexto abordado naquela pel\u00edcula era menos mostrar ao mundo a peculiar condi\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria das popula\u00e7\u00f5es judaicas e sua estranha felicidade imotivada, e muito mais evidenciar a cansativa, ma\u00e7ante e abjeta repeti\u00e7\u00e3o das persegui\u00e7\u00f5es judeof\u00f3bicas e antissemitas, pelo visto incur\u00e1veis v\u00edcios da humanidade. Muito provavelmente o termo &#8220;pel\u00edcula&#8221; \u00e9 cronologicamente insustent\u00e1vel, mas ser\u00e1 mantido j\u00e1 que a insustentabilidade pode, em algumas almas, produzir regozijo inexplic\u00e1vel .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ataques antissemitas crescem pelo mundo, de New York a Nova Zel\u00e2ndia, o n\u00famero de crimes de \u00f3dio e discursos que misturam xenofobia e teses mit\u00f4manas explodiu, culminando em um record perturbador. Desde os anos 30 n\u00e3o se registrava esta quantidade de atos terroristas contra pessoas e institui\u00e7\u00f5es judaicas pelo mundo. Alimentadas por autocratas e patrocinadas por teocracias pseudo democr\u00e1ticas. Gente boa, como os que, sob licen\u00e7a do populismo arrivista, puderam recentemente atracar suas belonaves no Atl\u00e2ntico Sul para que os membros da Guarda Revolucion\u00e1ria viessem pegar um bronze da hora em Copacabana. S\u00e3o os mesmos acusados de organizar o ataque terrorista contra a AMIA em Buenos Aires e de recentemente terem fornecido a log\u00edstica para franco atiradores massacrar pelo menos 500 mulheres nos recentes protestos pela morte de Mahsa Amini contra a pol\u00edcia moral dos aiatol\u00e1s que fiscaliza o uso do hijab, o v\u00e9u.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob os mais diversos argumentos justificacionistas a guerra contempor\u00e2nea contra os judeus se repete sob slogans e f\u00f3rmulas das mais incr\u00edveis e autenticamente paradoxais: s\u00e3o de esquerda, s\u00e3o de direita, liberais em demasia, povo conservador, s\u00e3o capitalistas, s\u00e3o socialistas, apegados \u00e0 mat\u00e9ria, lun\u00e1ticos que vivem no mundo supernal, povo isolado, querem se integrar, est\u00e3o dispersos, defendem valores anacr\u00f4nicos, sionistas, por que n\u00e3o v\u00e3o embora para Israel, s\u00e3o alegres demais, excessivamente melanc\u00f3licos, reclamam demais, tiveram a passivividade de cordeiros, tem autonomia exagerada, se fazem de vitimas, defendem-se demais, como ousam protestar contra os foguetes di\u00e1rios, e mais uma centenas de teses e sintaxes hostis para bem al\u00e9m dos neonazistas, que enchem a boca, as redes sociais, as p\u00e1ginas de gente acr\u00edtica e a testeira dos jornais, num amplo arco de nonsense, ignor\u00e2ncia n\u00e3o dial\u00e9tica e desonestidade intelectual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trecho do livro &#8220;A Verdade Lan\u00e7ada ao Solo&#8221;*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o \u00e9 religi\u00e3o, s\u00e3o nervos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A manh\u00e3 vai amea\u00e7ando com suas migalhas. Nos olhos fotof\u00f3bicos de Zult \u00e9 poss\u00edvel ver o reflexo da janela com os pontos nevados ao fundo. No primeiro plano, acompanha o deslize de carro\u00e7as, que passavam lentamente, transportando, precariamente, tambores de madeira contendo leite fresco. O leite gotejava h\u00e1 d\u00e9cadas nas t\u00e1buas ressecadas da carro\u00e7a. As poucas crian\u00e7as mal agasalhadas correm ao largo para se divertir com os cavalos do leiteiro. Ganhariam sobras no final da jornada. A cena \u00e9 bela, mas na tradu\u00e7\u00e3o interna de Zult, ela se estabiliza como angina melanc\u00f3lica, que o oprimem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os campos poloneses nunca deixaram de ser altiplanos agro-pastoris. Os primeiros judeus que ali aportaram remontam a \u00e9poca da primeira cruzada em 1098. Primeiro vieram em agrupamentos para buscar ref\u00fagio do clima fan\u00e1tico antijudaico na Europa central que se tornava insuport\u00e1vel durante os surtos de peste negra. Novas levas, desta vez em massa, vieram depois no s\u00e9culo XVI, tentando escapar das unhas afiadas do santo of\u00edcio em seguida aos \u00e9ditos imperiais luso-hisp\u00e2nicos. Esperan\u00e7osos, como sempre, imaginavam-se seguros em lugares cada vez mais remotos e frios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia seguinte, um domingo, o primeiro dia \u00fatil da semana Zult descansa o bra\u00e7o no mesmo sof\u00e1 de madeira despeda\u00e7ado. Est\u00e1 esperando ser chamado para a reza da manh\u00e3 \u2013 o que, aparentemente, n\u00e3o exigiria muito dele, pois o Shil, a sinagoga, era sua pr\u00f3pria casa. Cansa-se, por um momento, da rotina mec\u00e2nica dos afazeres diuturnos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o devia ter acumulado tantas fun\u00e7\u00f5es\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato Zult era orador, editor, rabino, escritor, m\u00e9dico, orientador de cabe\u00e7as extraviadas, lenhador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cConfesso Oh Alt\u00edssimo que tenho medo&#8230;medo de descobrir novos talentos&#8230;teria que exerc\u00ea-los\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retoma a explica\u00e7\u00e3o, desta vez foca o olhar reluzente sobre a filha Dvora Lea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que Zult achava mesmo extraordin\u00e1rio era a capacidade das crian\u00e7as para construir imagens sobre o mundo espiritual. Pegava-se espiando para ouvir o que conversavam, de prefer\u00eancia antes de terem sido formalmente instru\u00eddas sobre conceitos religiosos. O que o interessava era capturar a osmose delas, que antes de tudo, pescavam do que viam e sentiam. Como impressionava a facilidade com que desenvolviam os temas. Quando podia, anotava ideias com a aten\u00e7\u00e3o de um disc\u00edpulo acr\u00edtico. Enxergava a despretens\u00e3o inata na constru\u00e7\u00e3o da linguagem, numa gram\u00e1tica intuitiva. Alguns assuntos se mostravam t\u00e3o complexos que nenhum mentor poderia ter correspondido satisfatoriamente \u00e0s argui\u00e7\u00f5es. Mas, ainda assim, Zult seguia \u00e0 risca o h\u00e1bito hass\u00eddico de jamais responder sem ser antes questionado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante anos passou a coletar uma s\u00e9rie de perguntas em um bloco de sobras de pergaminho. A maioria formaria uma esp\u00e9cie de antologia, um livro dos \u201cpor qu\u00eas\u201d sem resposta:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuem criou o Criador?\u201d \u201cPor que ele deixa que tudo isso aconte\u00e7a?\u201d \u201cA alma \u00e9 uma bola de ferro pregada dentro?\u201d \u201cEle est\u00e1 depois do nada?\u201d \u201cN\u00f3s fomos eleitos para que?\u201d \u201cDe onde vem a boa sorte?\u201d \u201cO universo \u00e9 um escorpi\u00e3o enrolado com a cabe\u00e7a voltada para a cauda?\u201d \u201cO que \u00e9 o outro mundo?\u201d \u201cOnde est\u00e3o os justos?\u201d \u201cPrecisamos de Deus ?\u201d \u201cQuem \u00e9 Ele, ou \u00e9 Ela?\u201d \u201cO nada estava l\u00e1? Antes de tudo?\u201d \u201cDeus est\u00e1 nas janelas?\u201d\u201cO que viemos fazer aqui?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8212; Porque estamos sempre tentando controlar a vida dos outros? Damos muito valor \u00e0s formas. H\u00e1 excessiva maledic\u00eancia e \u00f3dio gratuito. Isto \u2013 gira levemente o tronco para fitar outros interlocutores com os dedos tensos e estirados for\u00e7ando as digitais contra um p\u00falpito improvisado &#8212; n\u00e3o pode ser religi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8212; N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 \u00e9 religi\u00e3o, s\u00e3o nervos. Ponderou enquanto balan\u00e7a a cabe\u00e7a com o pesco\u00e7o tenso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Invoca o que o deixava confortado quando a intoler\u00e2ncia se pronunciava de forma muito hostil. O tratado talm\u00fadico Shabat recomenda, como exce\u00e7\u00e3o, que uma luz pode ser produzida em pleno shabat \u2013 o que significa viol\u00e1-lo \u2013 se uma crian\u00e7a apresentar p\u00e2nico de escuro, o medo incontrol\u00e1vel justifica a viola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de alguns minutos de silencio explode tentando dissimular seu inconformismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8212; \u00c9 o caso de se falar em avesso absoluto, o oposto da exig\u00eancia do Alt\u00edssimo!&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rosenbaum, P. *Verdade Lan\u00e7ada ao Solo, Record, Rio de Janeiro, 2010<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/brasil\/conto-de-noticia\/nao-e-religiao-sao-nervos-para-topol\/\">https:\/\/www.estadao.com.br\/brasil\/conto-de-noticia\/nao-e-religiao-sao-nervos-para-topol\/<\/a><\/p>\n<hr>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Rosenbaum<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/409_especial_3_1.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-63649 alignnone\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/409_especial_3_1.png\" alt=\"\" width=\"172\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/409_especial_3_1.png 172w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/409_especial_3_1-93x135.png 93w\" sizes=\"(max-width: 172px) 100vw, 172px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nasceu em S\u00e3o Paulo em 1959. \u00c9 m\u00e9dico e escritor. Possui Mestrado em Medicina Preventiva, Doutorado em Ci\u00eancias e P\u00f3s-doutorado em Medicina Preventiva pela USP, com mais de uma dezena de livros publicados na \u00e1rea. Escreve, regularmente, para o jornal Estado de S\u00e3o Paulo, no blog \u201cConto de not\u00edcia\u201d. Roteirista e produtor de document\u00e1rios, atuou como editor de revistas cient\u00edficas no campo da sa\u00fade. \u00c9 pesquisador na \u00e1rea de cl\u00ednica m\u00e9dica, semiologia cl\u00ednica, rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente, preven\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e pesquisa de medicamentos. Al\u00e9m de ensa\u00edsta, \u00e9 poeta, contista e romancista. Antes de Navalhas pendentes, publicou os romances: <em>A verdade lan\u00e7ada ao solo<\/em> (Record, 2010) e <em>C\u00e9u subterr\u00e2neo<\/em> (Perspectiva, 2016).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/rosenbau@usp.br<rosenbau@usp.br>&#8220;>rosenbau@usp.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Topol, o ator protagonista de &#8220;O Violinista no Telhado&#8221; (1934-2023) Faleceu ontem (11\/03) o ator Chaim Topol, aos 84 anos, que atuou no ic\u00f4nico, estereotipal, brilhante, reducionista, destarte maravilhoso filme acima referido. &#8220;Tevye&#8221; foi seu personagem, de aparente simplicidade como tudo que se refere a uma an\u00e1lise panor\u00e2mica e unidimensional, abriu ao mundo uma percep\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":63704,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8,34],"tags":[284],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/63648"}],"collection":[{"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=63648"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/63648\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":63705,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/63648\/revisions\/63705"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/63704"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=63648"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=63648"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=63648"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}