﻿{"id":70549,"date":"2025-06-14T20:37:50","date_gmt":"2025-06-14T20:37:50","guid":{"rendered":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=70549"},"modified":"2025-07-05T20:46:11","modified_gmt":"2025-07-05T20:46:11","slug":"feminismos-contra-o-fascismo-de-que-lado-voce-esta-profa-dra-eva-blay","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=70549","title":{"rendered":"FEMINISMOS CONTRA O FASCISMO: DE QUE LADO VOC\u00ca EST\u00c1? &#8211; PROF\u00aa.\u00a0 DR\u00aa. EVA BLAY"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Por que t\u00e3o poucas mulheres participam dos cargos pol\u00edticos? Por que as que ousam entrar nessa arena s\u00e3o violentadas, agredidas moralmente, t\u00eam suas vidas amea\u00e7adas? O que e quem impede as mulheres de exercerem a plena cidadania consagrada na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para analisar essas quest\u00f5es, fui convidada a participar da 1\u00aa Audi\u00eancia P\u00fablica Mulheres e Cidadania, organizada pela Escola Judici\u00e1ria Eleitoral do Tribunal Eleitoral da Bahia, cujo corajoso objetivo era diagnosticar a viol\u00eancia pol\u00edtica de g\u00eanero e ampliar a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das mulheres. Foi a primeira vez que se prop\u00f4s uma audi\u00eancia p\u00fablica por iniciativa de importantes autoridades da Escola Judici\u00e1ria: os desembargadores Abelardo Paulo da Matta Neto e Moacyr Pitta Lima Filho, al\u00e9m de uma ativa equipe de profissionais \u2013 homens e mulheres. Destaco que, pela primeira vez ao longo de minha longa participa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, presenciei um evento cujos proponentes \u2013 homens e desembargadores \u2013 permanecerem do come\u00e7o ao fim, at\u00e9 a leitura da Carta de Salvador, apontando os problemas e solu\u00e7\u00f5es propostos pela audi\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas fa\u00e7amos algumas reflex\u00f5es sobre a presen\u00e7a\/aus\u00eancia das mulheres na forma\u00e7\u00e3o sociopol\u00edtica brasileira recente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde os primeiros dias do s\u00e9culo 21 enfrentamos crises, golpes, not\u00edcias falsas, governos de tom liberal e outros que flertam com o fascismo. Esse cen\u00e1rio sintetiza a heran\u00e7a do passado recente, as consequ\u00eancias de duas guerras mundiais, o esfacelamento do comunismo e a diversifica\u00e7\u00e3o do capitalismo. Herdamos mudan\u00e7as nas rela\u00e7\u00f5es sociais de g\u00eanero, pois as guerras for\u00e7aram as mulheres a ocupar atividades econ\u00f4micas antes desempenhadas pelos homens deslocados para atividades b\u00e9licas, das quais, ali\u00e1s, nunca se livraram. Findos os conflitos, independentemente de quem tivesse sido o vencedor, as mulheres foram obrigadas (mesmo que \u00e0 revelia) a voltar para as atividades dom\u00e9sticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O retorno n\u00e3o foi pac\u00edfico, provocou mudan\u00e7as estruturais e econ\u00f4micas, estimulando a abertura de alternativas profissionais, educacionais e econ\u00f4micas para as mulheres. Ampliou-se o trabalho extradomiciliar, elevou-se o n\u00edvel educacional das mulheres, reduziu-se o n\u00famero de filhos. Concomitantemente, as cidades cresceram de maneira desorganizada, elevou-se parcamente a profissionaliza\u00e7\u00e3o masculina e feminina, o mercado de trabalho n\u00e3o acompanhou o crescimento populacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As novas tecnologias, como a internet e a intelig\u00eancia artificial, foram ocupadas por poucos, embora a criatividade da popula\u00e7\u00e3o tenha superado a car\u00eancia educacional. Romperam-se as fronteiras nacionais. Se na linguagem dos economistas passamos da polariza\u00e7\u00e3o para a globaliza\u00e7\u00e3o, do ponto de vista sociol\u00f3gico e emp\u00edrico os pap\u00e9is sociais \u2013 as rela\u00e7\u00f5es sociais de g\u00eanero \u2013 perderam tradicionais padr\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confrontando a ditadura de 1964-1985, os movimentos feministas ocuparam as ruas (antecedendo o Occupy), denunciavam o feminic\u00eddio e a car\u00eancia de instrumentos para enfrentar a viol\u00eancia contra a mulher e a menina. Na redemocratiza\u00e7\u00e3o, propostas da popula\u00e7\u00e3o resultaram em algumas solu\u00e7\u00f5es adotadas pelo Estado: os Conselhos da Condi\u00e7\u00e3o Feminina, as Delegacias da Mulher, a Casa da Mulher Brasileira e o important\u00edssimo SOS telef\u00f4nico. Essas medidas foram aprimoradas com treinamento de professoras nas escolas, na universidade, entre os funcion\u00e1rios da pol\u00edcia (delegados, atendentes etc.), com m\u00e9dicos nos postos de sa\u00fade e uma clara atua\u00e7\u00e3o sobre os direitos reprodutivos para evitar mortes por abortos inadequados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram muitos anos para desenvolver e implantar essas pol\u00edticas. Mas bastou um governo obscurantista e retr\u00f3grado, desumano, autorit\u00e1rio, para destruir essas pol\u00edticas. Ataques a g\u00eanero, aos grupos LGBT+, retorno a um essencialismo identit\u00e1rio (homem veste azul, mulheres rosa), retorno de uma divis\u00e3o radical dos pap\u00e9is sociais, diaboliza\u00e7\u00e3o dos transg\u00eanero, estimularam contradi\u00e7\u00f5es nos valores e comportamentos alterando as rela\u00e7\u00f5es entre os membros das fam\u00edlias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A heran\u00e7a patriarcal fragilizou-se, mas n\u00e3o se extingue: o patriarcado enraizado na sociedade brasileira resiste, embora mais de 50% das fam\u00edlias sejam hoje sustentadas por mulheres. O poder continua com homens socializados em padr\u00f5es conservadores e que circulam absurdamente armados. Em S\u00e3o Paulo, por exemplo, diminu\u00edram os roubos nos \u00faltimos 10 anos, mas aumentaram estupros e assassinatos de mulheres. Entramos no s\u00e9culo 21 com o aumento dos feminic\u00eddios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O governador de S\u00e3o Paulo, estado economicamente mais avan\u00e7ado do Pa\u00eds, adota uma pol\u00edtica educacional profundamente autorit\u00e1ria: implanta escolas militarizadas, exclui do curr\u00edculo escolar mat\u00e9rias que estimulem o senso cr\u00edtico, substituindo-as pela ordem e obedi\u00eancia. Jovens crescem sem nenhum conhecimento sobre sexualidade, s\u00e3o induzidos a um tipo de patriarcado em que prospera a antiga no\u00e7\u00e3o de que a mulher \u00e9 propriedade do homem, com quem ele pode fazer o que quiser: bater, estuprar e matar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Simultaneamente exalta-se a vida dom\u00e9stica, a mulher dona de casa, submissa e obediente. E mesmo aquelas que se voltam para atividades pol\u00edticas (houve ligeiro aumento de deputadas federais) adotam uma ideologia de direita. Justificam-se como M\u00e3es da P\u00e1tria, no Congresso. As parlamentares que entram para o campo pol\u00edtico das propostas progressistas, para o bem coletivo, s\u00e3o agredidas. Exatamente como no nazismo: exaltam-se as m\u00e3es da p\u00e1tria, mulheres que reproduzem via maternidade mais m\u00e3o de obra, caladas, submissas, defensoras de um l\u00edder supremo! Essa vertente congrega os antifeministas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os movimentos feministas s\u00e3o revolucion\u00e1rios. Comportam varia\u00e7\u00f5es mas, em geral, buscam a igualdade de g\u00eanero. Igualdade entre as mulheres, igualdade entre mulheres e homens, igualdade entre todas as pessoas incluindo cor, etnia, aptid\u00f5es, e demais varia\u00e7\u00f5es. Mas sempre a igualdade. Igualdade tamb\u00e9m significa dividir o poder. Em oposi\u00e7\u00e3o avan\u00e7a o antifeminismo, doutrina do autoritarismo. O antifeminismo significa retornar ao fascismo, garantir a submiss\u00e3o das mulheres e demais minorias a um l\u00edder brutal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa hist\u00f3ria \u00e9 nossa conhecida. Este \u00e9 o momento de decidir de que lado estamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">NOTA \u2013 Mat\u00e9ria publicada em 11\/04 no Jornal da USP.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EVA ALTERMAN BLAY<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/455_Especial_3_1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-70550 alignnone\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/455_Especial_3_1-237x250.jpg\" alt=\"\" width=\"206\" height=\"217\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/455_Especial_3_1-237x250.jpg 237w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/455_Especial_3_1-128x135.jpg 128w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/455_Especial_3_1.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 206px) 100vw, 206px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Professora titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da Universidade de S\u00e3o Paulo (FFLCH\/USP), a soci\u00f3loga Eva Blay \u00e9 uma das pioneiras no estudo dos direitos das mulheres no Brasil, tendo sido condecorada com o trof\u00e9u Personalidade Conalife 2018.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por que t\u00e3o poucas mulheres participam dos cargos pol\u00edticos? 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