﻿{"id":73373,"date":"2026-04-25T21:02:00","date_gmt":"2026-04-25T21:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=73373"},"modified":"2026-04-25T21:02:00","modified_gmt":"2026-04-25T21:02:00","slug":"em-tempos-de-guerra-a-historia-recomenda-cautela-diante-de-julgamentos-apressados-por-lionel-zaclis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=73373","title":{"rendered":"EM TEMPOS DE GUERRA, A HIST\u00d3RIA RECOMENDA CAUTELA DIANTE DE JULGAMENTOS APRESSADOS \u2013 POR LIONEL ZACLIS"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Advogado, mestre e doutor pela Faculdade de Direito da USP e ex-Conselheiro do Instituto dos Advogados de S\u00e3o Paulo, Lionel Zaclis analisa com profundidade e a sapientia de sempre dois artigos de Fernando Gabeira, um deles intitulado \u201cAlgumas li\u00e7\u00f5es da guerra\u201d, publicado no dia 10 de abril no Estad\u00e3o (Espa\u00e7o Aberto, p\u00e1g. A6). De quebra, d\u00e1 uma verdadeira aula de hist\u00f3ria e pol\u00edtica e voc\u00ea n\u00e3o pode deixar de ler.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um v\u00edcio recorrente no debate p\u00fablico contempor\u00e2neo: o de emitir ju\u00edzos definitivos sobre conflitos ainda em curso, como se seus desfechos j\u00e1 estivessem dados. Parte da imprensa e de analistas parece observar a atua\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos em cen\u00e1rios de guerra \u2014 inclusive no que toca ao Ir\u00e3 \u2014 com a pressa de quem assiste a um filme pela metade, mas se julga capaz de antecipar o final. Trata-se de uma postura intelectualmente sedutora, por\u00e9m historicamente fr\u00e1gil. No af\u00e3 de encontrar argumentos e mais argumentos para criticar Trump, chegam ao c\u00famulo de levar a s\u00e9rio certas amea\u00e7as meramente ret\u00f3ricas por ele feitas, como a de que estaria disposto a &#8220;acabar com uma civiliza\u00e7\u00e3o que data de mil\u00eanios antes de Cristo&#8221;. E se se tratasse de uma civiliza\u00e7\u00e3o posterior ao nascimento de Cristo, o exterm\u00ednio dela seria mais palat\u00e1vel?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A advert\u00eancia n\u00e3o \u00e9 nova. Em A &#8220;Study of History&#8221;, Arnold J. Toynbee j\u00e1 apontava que civiliza\u00e7\u00f5es e conflitos s\u00f3 se deixam compreender em perspectiva, jamais no calor dos acontecimentos. De modo semelhante, Carl von Clausewitz, em &#8220;Da Guerra&#8221;, advertia que a \u201cn\u00e9voa da guerra\u201d obscurece a percep\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios protagonistas \u2014 quanto mais a dos observadores externos. Fernando Gabeira, n\u00e3o apenas no artigo ora comentado, mas tamb\u00e9m naquele intitulado \u201cAlgumas li\u00e7\u00f5es da guerra\u201d, publicado no dia 10 de abril no Estad\u00e3o (Espa\u00e7o Aberto, p\u00e1g. A6), parece n\u00e3o levar essa li\u00e7\u00e3o em conta, antes a insopit\u00e1vel inten\u00e7\u00e3o de criticar os Estados Unidos. Ali diz ele que \u201cA guerra ainda n\u00e3o acabou, mas j\u00e1 nos deu um farto material de reflex\u00e3o para al\u00e9m do simples ajuste do pre\u00e7o do diesel e do querosene de avia\u00e7\u00e3o&#8221;. A primeira conclus\u00e3o estrat\u00e9gica \u00e9 \u00f3bvia e bastante velha: \u00e9 preciso realizar logo a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e liberar o Pa\u00eds da depend\u00eancia do petr\u00f3leo. Primeiro foi a Venezuela, agora o Ir\u00e3. Em todos os lugares em que os norte-americanos v\u00e3o buscar a democracia, acabam encontrando o petr\u00f3leo\u201d. Como lembrarei mais \u00e0 frente, nem sempre os norte-americanos v\u00e3o atr\u00e1s do petr\u00f3leo, mas alguns h\u00e1 que, ao buscar uma democracia do tipo cubano ou norte-coreano, acabam encontrando um embaixador norte-americano! No artigo ora comentado, diz o articulista que &#8220;Trump venceu dizendo Am\u00e9rica first. Venceu com uma grande sede de petr\u00f3leo, que o levou a sequestrar Maduro e iniciar uma guerra contra o Ir\u00e3&#8221;. Como n\u00e3o sou especialista em sequestro, prefiro n\u00e3o enfrentar o articulista nesse campo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, ironias \u00e0 parte, lembro ao festejado jornalista que os norte-americanos n\u00e3o foram \u00e0 Europa, por exemplo, atr\u00e1s de petr\u00f3leo. Foram, sim, para combater o Mal absoluto e evitar que o mundo livre sucumbisse. N\u00e3o tivessem eles ido e vencido a guerra, eu n\u00e3o teria conseguido escrever este coment\u00e1rio, pois j\u00e1 estaria nos c\u00e9us h\u00e1 muito tempo, ascendido em forma de fuma\u00e7a (se \u00e9 que fuma\u00e7a tenha alguma forma), e se o articulista ainda estivesse por aqui, estaria falando alem\u00e3o, e trabalhando como escravo dos nazistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afirma ele, tamb\u00e9m, que \u201cO fechamento do Estreito de Ormuz era uma das consequ\u00eancias previs\u00edveis, mas os EUA n\u00e3o a consideraram\u201d. Em outras palavras, o que na verdade pretendeu dizer foi que entende mais de geopol\u00edtica e de guerra do que os generais do Pent\u00e1gono&#8230; \u00c9 conhecimento b\u00e9lico para leigo nenhum botar defeito. Diz, ainda que \u201coutra li\u00e7\u00e3o importante deve estar sendo aprendida pelos pa\u00edses do Golfo que confiaram na seguran\u00e7a de seu grande aliado. Os EUA n\u00e3o s\u00f3 fizeram uma guerra por escolha na regi\u00e3o, como n\u00e3o foram capazes nem de defender suas bases, quanto mais portos e refinarias\u201d. O pior de tudo, no artigo ora comentado, \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o que nele se cont\u00e9m. Ap\u00f3s invocar uma s\u00e9rie de argumentos para criticar o ataque americano, o artigo ora comentado exp\u00f5e uma verdade incontest\u00e1vel: &#8221; O Ir\u00e3 se prepara h\u00e1 40 anos para uma guerra; logo, n\u00e3o seria derrotado nos primeiros dias&#8221;. Em primeiro lugar, por que um pa\u00eds se prepara para a guerra, fazendo-o durante 40 anos? E quem disse que ele seria derrotado &#8220;nos primeiros dias&#8221; ? O que \u00e9 p\u00fablico e not\u00f3rio \u00e9 que esse preparo para a guerra durante 40 anos incluia, como \u00e9 \u00f3bvio, p\u00fablico e not\u00f3rio, chegar \u00e0 bomba at\u00f4mica para, declaradamente, atacar o grande Sat\u00e3 (os EUA) e o pequeno Sat\u00e3 (Israel). E a\u00ed, esses &#8220;sat\u00e3s&#8221; deveriam permanecer quietinhos, aguardando os ataques ?.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sup\u00f5e o articulista que nada acontecesse com os pa\u00edses do Golfo, que n\u00e3o fossem afetados de nenhuma maneira? Preferia que os Estados Unidos n\u00e3o escolhessem este momento para as provid\u00eancias militares, preferindo permitir que o Ir\u00e3 chegasse \u00e0 bomba at\u00f4mica, como fatalmente ocorreria se a turma de Obama\/Biden continuasse na presid\u00eancia? E a\u00ed, os pa\u00edses do Golfo, sunitas que s\u00e3o, fariam o qu\u00ea? Ou est\u00e1 ele reclamando pelo fato de os norte-americanos n\u00e3o terem destru\u00eddo o Ir\u00e3 por completo, de modo a impedir que os teocratas lan\u00e7assem m\u00edsseis em dire\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses do Golfo? N\u00e3o contente com as afirma\u00e7\u00f5es feitas at\u00e9 aqui, procura fugir para outras longitudes, dizendo que \u201cO bombardeio de infraestrutura civil \u00e9 um crime de guerra, mas n\u00e3o constrange ningu\u00e9m, e que n\u00e3o s\u00f3 as infraestruturas civis, mas os pr\u00f3prios civis foram bombardeados em Gaza\u201d, \u201cesquecendo-se\u201d de que \u00e9 p\u00fablico e not\u00f3rio que o Hamas for\u00e7ava, sob amea\u00e7a de morte, que os civis funcionassem como escudos humanos dos terroristas, e que im\u00f3veis, em princ\u00edpio protegidos pelo direito internacional humanit\u00e1rio, se tornam alvos leg\u00edtimos quando utilizados para fins de ataque ao inimigo. Mas a mem\u00f3ria seletiva do articulista f\u00ea-lo &#8220;esquecer&#8221; completamente de sequer tocar naquilo que provocou a guerra contra o terrorismo do Hamas, ou seja, o hediondo ataque feito a Israel no dia 7 de outubro de 2023, matando mais de 1.200 civis, estuprando, arrancando beb\u00ea do \u00fatero da m\u00e3e, ap\u00f3s esfaque\u00e1-a e matando-a em seguida, assando beb\u00eas no forno, incendiando casas, sequestrando civis para servirem de ref\u00e9ns, e &#8220;otras cositas m\u00e1s&#8221;, tudo documentado em v\u00eddeos feitos pelos pr\u00f3prios terroristas, que telefonavam para seus parentes, relatando seus feitos gloriosos e sendo louvados pelas human\u00edsticas a\u00e7\u00f5es perpetradas!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Hist\u00f3ria oferece exemplos eloquentes de avalia\u00e7\u00f5es equivocadas feitas em tempo real. Durante a Segunda Guerra Mundial, Winston Churchill foi duramente criticado por sua recusa em negociar com a Alemanha nazista. \u00c0 \u00e9poca, muitos o viam como obstinado e imprudente. Hoje, \u00e9 lembrado como o estadista que compreendeu, antes de outros, a natureza existencial do conflito. E quem eram os Comandantes-em-Chefe das for\u00e7as armadas dos Estados Unidos, quando do bombardeio que arrasou Dresden e matou cerca de 25.000 pessoas, e do lan\u00e7amento das bombas at\u00f4micas que arrasaram Hiroshima e Nagasaki, sem os quais a Segunda Guerra n\u00e3o terminaria? Certamente n\u00e3o era Donald Trump, do Partido Republicano, que, sim, tem muitos defeitos, mas n\u00e3o o de falta de coragem e de amor ao seu pa\u00eds. N\u00e3o, n\u00e3o era Trump a presidir os EUA, mas, respectivamente, Franklin Delano Roosevelt e Harry Truman, n\u00e3o do Partido Republicano, mas do democrata!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Guerra Civil Americana, Ulysses S. Grant foi acusado de brutalidade e incompet\u00eancia por suas estrat\u00e9gias de desgaste. Chamado de \u201ca\u00e7ougueiro\u201d, enfrentou cr\u00edticas intensas da opini\u00e3o p\u00fablica e da imprensa. No entanto, sua persist\u00eancia revelou-se decisiva para a vit\u00f3ria da Uni\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses epis\u00f3dios ilustram um padr\u00e3o: decis\u00f5es tomadas sob extrema press\u00e3o, frequentemente impopulares no presente, podem revelar-se corretas \u00e0 luz de seus finais. Julgamentos prematuros, ao contr\u00e1rio, tendem a envelhecer mal. Ser\u00e1 que o Ocidente pode contar em nossos dias com estadistas de porte equivalente ao daqueles que lideraram seus povos nos aludidos epis\u00f3dios? O pior de tudo \u00e9 a ignor\u00e2ncia da grande maioria das pessoas que se p\u00f5em a falar do que n\u00e3o conhecem, mas consideram-se especialistas em tudo. O Oriente M\u00e9dio, para essas pessoas, \u00e9 mais longe ainda do lugar onde \u201cJudas perdeu as botas\u201d: n\u00e3o conhecem a hist\u00f3ria da regi\u00e3o, o que, contudo, n\u00e3o os impede nem um pouco de emitir opini\u00f5es e ju\u00edzos definitivos sobre o assunto<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso das tens\u00f5es envolvendo o Ir\u00e3, a an\u00e1lise n\u00e3o pode limitar-se a uma contabilidade imediata de custos materiais ou humanos ou de posi\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas, que, por sua pr\u00f3pria natureza, se revelam movedi\u00e7as. H\u00e1 um elemento qualitativo que n\u00e3o pode ser ignorado: a natureza do regime e o impacto global de sua eventual consolida\u00e7\u00e3o como pot\u00eancia nuclear. A alternativa \u2014 o apaziguamento \u2014 tampouco \u00e9 neutra. A experi\u00eancia do Acordo de Munique, sob Neville Chamberlain, permanece como advert\u00eancia cl\u00e1ssica sobre os riscos de ceder diante de amea\u00e7as estrat\u00e9gicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata de uma &#8220;ades\u00e3o incondicional \u00e0 pol\u00edtica de Trump, uma cegueira ideol\u00f3gica, uma suposi\u00e7\u00e3o de que os Estados Unidos est\u00e3o sempre certos&#8221;, nem de tentar blindar as decis\u00f5es norte-americanas contra cr\u00edticas. O escrut\u00ednio \u00e9 parte essencial das democracias. Mas ele deve ser exercido com prud\u00eancia hist\u00f3rica e consci\u00eancia das limita\u00e7\u00f5es inerentes ao momento presente. Como lembrava Raymond Aron, as rela\u00e7\u00f5es internacionais s\u00e3o o dom\u00ednio da incerteza por excel\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em conflitos dessa natureza, \u201cn\u00e3o se faz omelete sem quebrar ovos\u201d \u2014 m\u00e1xima desconfort\u00e1vel, mas realista. A quest\u00e3o decisiva, portanto, n\u00e3o \u00e9 se h\u00e1 custos, mas quais custos estamos dispostos a aceitar \u2014 e quais riscos estamos dispostos a correr ao evit\u00e1-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao fim, a Hist\u00f3ria costuma ser menos indulgente com os que julgam cedo demais do que com aqueles que souberam esperar. Em mat\u00e9ria de guerra, a prud\u00eancia n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de hesita\u00e7\u00e3o, mas de lucidez. E a lucidez, nesses casos, come\u00e7a por reconhecer que o veredicto definitivo pertence, invariavelmente, ao tempo.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lionel Zaclis<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/471_Especial_3_1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-73374 alignnone\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/471_Especial_3_1-269x250.jpg\" alt=\"\" width=\"233\" height=\"217\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/471_Especial_3_1-269x250.jpg 269w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/471_Especial_3_1-145x135.jpg 145w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/471_Especial_3_1.jpg 271w\" sizes=\"(max-width: 233px) 100vw, 233px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Formado pela Faculdade de Direito da Universidade de S\u00e3o Paulo e atuando nas \u00e1reas de Contencioso, Contratos, Direito Econ\u00f4mico e Empresarial, Lionel Zaclis \u00e9 Especialista em Direito Processual Civil pela PUC\/SP, Mestre e Doutor em Direito Processual pela Faculdade de Direito da Universidade de S\u00e3o Paulo, ex-Conselheiro do Instituto dos Advogados de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Advogado, mestre e doutor pela Faculdade de Direito da USP e ex-Conselheiro do Instituto dos Advogados de S\u00e3o Paulo, Lionel Zaclis analisa com profundidade e a sapientia de sempre dois artigos de Fernando Gabeira, um deles intitulado \u201cAlgumas li\u00e7\u00f5es da guerra\u201d, publicado no dia 10 de abril no Estad\u00e3o (Espa\u00e7o Aberto, p\u00e1g. 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