﻿{"id":74561,"date":"2026-09-19T22:04:12","date_gmt":"2026-09-19T22:04:12","guid":{"rendered":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=74561"},"modified":"2026-09-19T22:07:40","modified_gmt":"2026-09-19T22:07:40","slug":"dinah-feldman-a-arte-de-cativar-com-palavras-e-um-talento-imensuravel-por-glorinha-cohen","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=74561","title":{"rendered":"DINAH FELDMAN: A ARTE DE CATIVAR COM PALAVRAS E UM TALENTO IMENSUR\u00c1VEL \u2013 POR GLORINHA COHEN"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_first_1_1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-74563 aligncenter\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_first_1_1.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"376\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_first_1_1.jpg 461w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_first_1_1-90x135.jpg 90w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_first_1_1-166x250.jpg 166w\" sizes=\"auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><\/a>No palco do Teatro Moise Safra e at\u00e9 o dia 30 de setembro, est\u00e1 em cartaz *&#8221;Mazal Tov &#8211; Quando a Vida Sorri&#8221;*, espet\u00e1culo estrelado por Dinah Feldman, atriz, narradora de hist\u00f3rias, produtora cultural e jornalista, e que traz tamb\u00e9m no elenco Ot\u00e1vio Martins, Jo\u00e3o Baldasserini, Giovana Yedid, Gabriel Brener e Thay Bergamin. A pe\u00e7a conta o encontro transformador entre uma jovem estudante e uma fam\u00edlia judaica ortodoxa na Antu\u00e9rpia dos anos 90. Uma hist\u00f3ria sobre identidade, pertencimento, f\u00e9, amor e, sobretudo, sobre a pot\u00eancia do di\u00e1logo quando mundos t\u00e3o diferentes se encontram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E se voc\u00ea ainda n\u00e3o conhece Dinah Feldman, prepare-se para se apaixonar. Dinah \u00e9 daquelas artistas multifacetadas que iluminam tudo onde chegam e nesta entrevista especial, que est\u00e1 imperd\u00edvel, ela fala sobre teatro, juda\u00edsmo e sua trajet\u00f3ria profissional pelos mais diversos palcos da cultura.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Ao longo de mais de duas d\u00e9cadas de trajet\u00f3ria, Dinah Feldman construiu uma pesquisa art\u00edstica que aproxima teatro, narra\u00e7\u00e3o oral, literatura e mem\u00f3ria, entendendo a arte como um espa\u00e7o de encontro, escuta e transmiss\u00e3o de hist\u00f3rias.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_First_1_2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-74723 alignleft\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_First_1_2-304x250.jpg\" alt=\"\" width=\"263\" height=\"216\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_First_1_2-304x250.jpg 304w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_First_1_2-164x135.jpg 164w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_First_1_2.jpg 376w\" sizes=\"auto, (max-width: 263px) 100vw, 263px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\"><b><span data-olk-copy-source=\"MessageBody\">GC &#8211; Voc\u00ea \u00e9 atriz, narradora de hist\u00f3rias, produtora, arte-educadora e jornalista, com forma\u00e7\u00e3o no Teatro Escola Macuna\u00edma, na \u00c9cole Philippe Gaulier (Londres\/Paris) e na PUC-SP. Como essas tr\u00eas \u00e1reas se encontram no seu trabalho hoje e qual delas voc\u00ea prefere?<i><\/i><\/span><\/b><\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">DF &#8211; H\u00e1 alguns anos ouvi uma diretora americana dizer que uma trajet\u00f3ria art\u00edstica se sustenta sobre um trip\u00e9: estudo, pr\u00e1tica e ensino. Essa ideia nunca mais me deixou. Para exercer o meu of\u00edcio de atriz, o estudo sempre foi indispens\u00e1vel. O jornalismo me deu ferramentas de pesquisa, senso cr\u00edtico e uma forma de olhar para o mundo que continuam presentes em tudo o que fa\u00e7o. A arte-educa\u00e7\u00e3o me ensinou que compartilhar conhecimento tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de aprender, porque toda vez que transmitimos uma experi\u00eancia somos obrigados a revisit\u00e1-la. E a produ\u00e7\u00e3o foi o caminho que encontrei para fazer a atriz existir, criando condi\u00e7\u00f5es para que projetos autorais sa\u00edssem do papel e encontrassem o p\u00fablico. Hoje percebo que essas \u00e1reas n\u00e3o competem entre si; elas se alimentam mutuamente. N\u00e3o consigo separar a atriz da pesquisadora, da educadora, da produtora ou da jornalista. Cada uma amplia a outra e faz com que o meu trabalho tenha mais profundidade e alcance. Se eu tivesse que escolher apenas uma, escolheria o teatro. \u00c9 nele que todas essas experi\u00eancias se encontram. As outras fun\u00e7\u00f5es existem porque desejo contar hist\u00f3rias e criar encontros atrav\u00e9s da arte. O palco continua sendo o lugar para onde tudo converge.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\"><b>GC &#8211; <\/b><b>Desde 2006 voc\u00ea se dedica \u00e0 arte de narrar hist\u00f3rias e j\u00e1 representou o Brasil em festivais internacionais, como o Yeleen, em Burkina Faso, e na Col\u00f4mbia. O que a conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias te ensinou que o teatro tradicional n\u00e3o tinha te ensinado?<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">DF &#8211; Quando comecei a contar hist\u00f3rias, imaginava que estava apenas explorando uma outra forma de fazer teatro. Ainda n\u00e3o compreendia a dimens\u00e3o dessa arte ancestral. Foi em 2010, ao encontrar narradores de diversas partes do mundo, que minha percep\u00e7\u00e3o se transformou profundamente. Passei a entender que a narra\u00e7\u00e3o oral possui uma linguagem pr\u00f3pria, uma tradi\u00e7\u00e3o milenar e um modo muito particular de estabelecer v\u00ednculos entre quem conta e quem escuta. Percebi tamb\u00e9m que muitos dos grandes mestres do teatro beberam dessa mesma fonte. A narra\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias nos lembra que, antes de qualquer t\u00e9cnica, existe o encontro humano. Uma hist\u00f3ria n\u00e3o acontece apenas porque algu\u00e9m a conta; ela acontece no espa\u00e7o criado entre o narrador e quem est\u00e1 disposto a escutar. Esse contato tamb\u00e9m me fez compreender que n\u00e3o existe uma arte &#8220;pura&#8221;. As linguagens dialogam entre si, se contaminam e se enriquecem mutuamente. O teatro alimenta a narra\u00e7\u00e3o, que alimenta a atua\u00e7\u00e3o, que dialoga com a literatura, com a m\u00fasica, com a mem\u00f3ria e com tantas outras formas de express\u00e3o. Cada artista encontra sua pr\u00f3pria maneira de atravessar essas fronteiras. A narra\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias me aproximou da for\u00e7a da palavra. Descobri um amor profundo pela sonoridade das l\u00ednguas, pelo ritmo das frases e pelo poder que uma boa hist\u00f3ria tem de criar comunidade, mesmo entre pessoas que nunca se viram antes. Hoje percebo que contar hist\u00f3rias \u00e9 muito mais do que transmitir uma narrativa. \u00c9 oferecer presen\u00e7a. \u00c9 permitir que uma hist\u00f3ria continue viva cada vez que encontra novos ouvintes. Seja em um palco, numa escola, numa roda de hist\u00f3rias ou diante de uma c\u00e2mera, continuo movida pelo mesmo desejo: compartilhar hist\u00f3rias que fa\u00e7am sentido para quem as escuta e que, de alguma forma, tamb\u00e9m me transformem enquanto as conto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_First_1_3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-74726 alignleft\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_First_1_3.jpg\" alt=\"\" width=\"242\" height=\"302\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_First_1_3.jpg 365w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_First_1_3-108x135.jpg 108w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_First_1_3-200x250.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 242px) 100vw, 242px\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\"><b><span data-olk-copy-source=\"MessageBody\">GC &#8211; <\/span><\/b><b>. Voc\u00ea fez est\u00e1gio no Th\u00e9\u00e2tre du Soleil, em Paris, e com o mestre Sotigui Kouyat\u00e9. Qual aprendizado desses encontros voc\u00ea carrega at\u00e9 hoje para o palco?<\/b><\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">DF &#8211; Ter convivido, ainda muito jovem, com artistas que dedicaram a vida inteira ao seu of\u00edcio foi um privil\u00e9gio que ajudou a moldar a minha maneira de compreender o teatro. Acho que esses encontros pavimentaram um caminho que continuo percorrendo at\u00e9 hoje. O Th\u00e9\u00e2tre du Soleil sempre foi uma refer\u00eancia para mim, n\u00e3o apenas pela excel\u00eancia dos espet\u00e1culos, mas pela forma como entende a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica: uma pesquisa permanente, constru\u00edda com rigor, estudo, tempo e trabalho coletivo. Ali compreendi que um grande espet\u00e1culo n\u00e3o nasce de um momento de inspira\u00e7\u00e3o, mas de um compromisso cotidiano com o fazer art\u00edstico. Existe uma disciplina silenciosa, uma dedica\u00e7\u00e3o quase artesanal, que raramente aparece para quem est\u00e1 na plateia, mas que sustenta tudo o que vemos em cena. Essa compreens\u00e3o me acompanha desde ent\u00e3o. O glamour costuma ocupar muito espa\u00e7o no imagin\u00e1rio sobre a profiss\u00e3o, mas a realidade \u00e9 feita de estudo, ensaio, escuta, reescrita, tentativa e persist\u00eancia. \u00c9 esse trabalho di\u00e1rio que torna poss\u00edvel a arte. J\u00e1 Sotigui Kouyat\u00e9 representava outra dimens\u00e3o desse aprendizado. Era um homem cuja presen\u00e7a impressionava antes mesmo de qualquer palavra. Parecia carregar no pr\u00f3prio corpo a mem\u00f3ria de uma tradi\u00e7\u00e3o ancestral. Havia uma sabedoria serena na forma como ocupava o espa\u00e7o, como falava e, sobretudo, como escutava. Os encontros nos transformam de maneiras que nem sempre conseguimos explicar. Tenho certeza de que carrego muito mais desses mestres do que consigo nomear conscientemente. Eles seguem presentes na forma como penso o teatro, como me relaciono com a palavra e como procuro estar dispon\u00edvel para o outro em cena.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">GC &#8211; <b>Voc\u00ea idealizou e produziu espet\u00e1culos como <i>O Vazio na Mala<\/i>, <i>Outono, Inverno<\/i>, <i>Yentl, a Menina que Queria Estudar<\/i>, <i>Nina<\/i> e <i>R\u00e9quiem<\/i>, com indica\u00e7\u00f5es a pr\u00eamios como Shell, APCA e Bibi Ferreira. Como nasce um projeto para voc\u00ea? Primeiro vem o tema, o texto ou a necessidade de dizer algo?<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">DF &#8211; Cada projeto nasce de um jeito. N\u00e3o existe uma f\u00f3rmula. \u00c0s vezes \u00e9 um texto que me encontra; outras vezes \u00e9 um personagem que insiste em permanecer comigo. Em alguns casos, \u00e9 uma pergunta que ainda n\u00e3o sei responder. Em outros, simplesmente uma intui\u00e7\u00e3o. Mas existe um ponto em comum entre todos eles: preciso sentir que aquela hist\u00f3ria me transforma antes mesmo de chegar ao p\u00fablico. Nunca escolho um projeto apenas porque \u00e9 um bom texto. Preciso perceber que existe ali uma necessidade de coloc\u00e1-lo em di\u00e1logo com o nosso tempo. Sempre fui apaixonada pela dramaturgia e pelo teatro de texto. Interesso-me especialmente por personagens complexos, pelas rela\u00e7\u00f5es familiares \u2014 que, no fundo, sempre falam da condi\u00e7\u00e3o humana \u2014 e pelas narrativas que colocam o universo feminino em perspectiva. Nos \u00faltimos anos, minha identidade judaica tamb\u00e9m passou a ocupar um lugar mais consciente nas minhas escolhas art\u00edsticas, n\u00e3o como um tema obrigat\u00f3rio, mas como parte da minha pr\u00f3pria experi\u00eancia de mundo. Quando morei na Europa, me aproximei profundamente da obra de Anton Tchekhov. Foi esse encantamento que me levou a montar <i>Nina<\/i> e <i>R\u00e9quiem<\/i>, textos contempor\u00e2neos que dialogam com o universo tchekhoviano. <i>Yentl<\/i> nasceu de um sonho antigo. Eu j\u00e1 havia dan\u00e7ado a hist\u00f3ria na adolesc\u00eancia e sempre desejei lev\u00e1-la ao teatro, movida pelo desejo de colocar a literatura de Isaac Bashevis Singer em cena. <i>Outono, Inverno<\/i> foi um presente inesperado: a oportunidade de revisitar um texto bel\u00edssimo ao lado da minha mestra Denise Weinberg. J\u00e1 <i>O Vazio na Mala<\/i> surgiu de um lugar completamente diferente. Pela primeira vez, um espet\u00e1culo come\u00e7ou por um objeto. Uma mala antiga carregava uma hist\u00f3ria que eu ainda desconhecia por inteiro, mas intu\u00eda que havia ali um teatro poss\u00edvel. Aos poucos, aquela intui\u00e7\u00e3o tornou-se pesquisa, dramaturgia, espet\u00e1culo e, finalmente, um encontro muito emocionante com o p\u00fablico. Olhando para tr\u00e1s, percebo que todos esses projetos nasceram de formas distintas. O que permanece \u00e9 a curiosidade. Gosto de hist\u00f3rias que continuam me fazendo perguntas mesmo depois da estreia. Talvez seja esse o principal motivo para lev\u00e1-las ao palco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_First_1_5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-74727\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_First_1_5.jpg\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"282\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_First_1_5.jpg 522w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_First_1_5-159x135.jpg 159w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_First_1_5-295x250.jpg 295w\" sizes=\"auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\"><b><span data-olk-copy-source=\"MessageBody\">GC &#8211; Em <i>O Vazio na Mala<\/i> e <i>Yentl<\/i>, voc\u00ea traz temas fortes ligados \u00e0 mem\u00f3ria judaica, identidade e pertencimento. Qual \u00e9 o seu crit\u00e9rio para escolher uma hist\u00f3ria que merece ser contada?<\/span><\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">DF &#8211; Existe uma frase de <i>Mazal Tov<\/i> que me acompanha desde que come\u00e7amos a montar o espet\u00e1culo. Em determinado momento, a personagem Margot pergunta: &#8220;Quanto uma pessoa deve ao jovem que foi um dia?&#8221; E ela mesma responde: &#8220;Tudo\u201d.\u00a0 Acho que essa resposta tamb\u00e9m fala de mim. Comecei a fazer teatro na escola judaica. Depois vieram a forma\u00e7\u00e3o profissional no Macuna\u00edma e a minha primeira montagem, <i>O Di\u00e1rio de Anne Frank<\/i>. Cresci cercada pela dan\u00e7a israelense, pelas can\u00e7\u00f5es judaicas, pelas hist\u00f3rias que eram contadas nas festas de fam\u00edlia, pelo humor judaico, pela literatura \u00eddiche. Mais tarde vieram o cinema, a dramaturgia, escritores como Philip Roth, Amos Oz, Clarice Lispector, Anita Diamant, o pensamento de Hannah Arendt e tantas outras refer\u00eancias que passaram a compor o meu repert\u00f3rio. Toda essa bagagem faz parte de quem eu sou. N\u00e3o \u00e9 algo que eu decida colocar em cena; ela j\u00e1 est\u00e1 em mim. Naturalmente, muitas das hist\u00f3rias que escolho acabam atravessando quest\u00f5es de mem\u00f3ria, identidade, pertencimento, deslocamento e transmiss\u00e3o entre gera\u00e7\u00f5es. Ao mesmo tempo, nunca me interessa falar apenas sobre uma comunidade espec\u00edfica. Quanto mais enraizada uma hist\u00f3ria est\u00e1 em sua singularidade, mais ela \u00e9 capaz de dialogar com o universal. \u00c9 isso que me emociona. Uma fam\u00edlia pode falar de todas as fam\u00edlias. Uma tradi\u00e7\u00e3o pode revelar perguntas que pertencem a qualquer ser humano. Tamb\u00e9m percebo que minhas escolhas nem sempre s\u00e3o completamente conscientes. A intui\u00e7\u00e3o exerce um papel enorme no meu processo. Algumas hist\u00f3rias simplesmente n\u00e3o me deixam em paz. Elas permanecem comigo durante meses ou anos, at\u00e9 que eu compreenda que precisam ganhar forma. Hoje tenho pensado cada vez mais na pot\u00eancia dessas narrativas em diferentes linguagens. O teatro continua sendo a minha casa, mas tamb\u00e9m tenho vontade de ampliar essa voz para o audiovisual, permitindo que essas hist\u00f3rias encontrem outros p\u00fablicos e outras formas de existir.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\"><b>GC<\/b> &#8211; Mazal Tov: do que se trata a pe\u00e7a e qual seu papel nela?<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\"><b>DF &#8211;<\/b> Mazal Tov tem origem no best-seller da escritora belga J. S. Margot. O espet\u00e1culo acompanha Margot, personagem por mim interpretada, que \u00e9 uma estudante de l\u00ednguas latinas que vive na Antu\u00e9rpia e namora Nima, um refugiado iraniano. Ao ser contratada para auxiliar uma fam\u00edlia judaica ortodoxa, ela passa a frequentar uma casa regida por tradi\u00e7\u00f5es, valores e c\u00f3digos muito diferentes daqueles que conhece. Margot chega como algu\u00e9m de fora e, justamente por isto ela observa, pergunta, se encanta e, aos poucos, percebe que conhecer profundamente o outro tamb\u00e9m pode significar rever a si mesma. E \u00e9 justamente em tudo isto que o espet\u00e1culo encontra sua for\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\"><b>GC &#8211; Como jornalista formada, de que forma o jornalismo alimenta a sua cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e vice-versa?<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">DF &#8211; A verdade \u00e9 que eu sempre quis fazer teatro. Desde muito nova. Mas minha m\u00e3e, com toda raz\u00e3o, tinha receio da instabilidade da profiss\u00e3o e n\u00e3o permitiu que eu cursasse Artes C\u00eanicas naquele momento. Acabei escolhendo o Jornalismo, que tamb\u00e9m dialogava com algo que sempre me fascinou: as hist\u00f3rias e as pessoas. Hoje percebo que essa escolha me deu muito mais do que um diploma. O jornalismo me ensinou a pesquisar, a desconfiar das respostas f\u00e1ceis, a contextualizar acontecimentos e, principalmente, a fazer boas perguntas. Esse olhar investigativo acompanha todos os meus processos criativos. Antes de montar um espet\u00e1culo, passo meses lendo, pesquisando, ouvindo pessoas, tentando compreender o universo daquela hist\u00f3ria. Fa\u00e7o isso para uma pe\u00e7a de teatro da mesma forma que fa\u00e7o quando preparo uma narra\u00e7\u00e3o oral. Tamb\u00e9m foi no jornalismo que descobri o prazer da escrita e da entrevista. Sempre gostei de conversar, de ouvir trajet\u00f3rias e de entender como cada pessoa constr\u00f3i sua vis\u00e3o de mundo. Isso acabou encontrando um espa\u00e7o muito natural no teatro, que tamb\u00e9m nasce da observa\u00e7\u00e3o da vida. Por outro lado, a atriz ajudou muito a jornalista. A improvisa\u00e7\u00e3o, por exemplo, sempre foi uma ferramenta importante no meu trabalho. Durante a inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, inclusive, pesquisei justamente as rela\u00e7\u00f5es entre improvisa\u00e7\u00e3o teatral e entrevista jornal\u00edstica. Descobri como a escuta, a presen\u00e7a e a capacidade de reagir ao inesperado aproximam essas duas \u00e1reas muito mais do que imaginamos. Hoje n\u00e3o exer\u00e7o o jornalismo profissionalmente, mas ele continua presente em tudo o que fa\u00e7o. Acho que a jornalista nunca foi embora; ela apenas encontrou um outro lugar para existir, a servi\u00e7o da arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_First_1_4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-74725 alignleft\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_First_1_4.jpg\" alt=\"\" width=\"241\" height=\"313\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_First_1_4.jpg 367w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_First_1_4-104x135.jpg 104w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/477_First_1_4-192x250.jpg 192w\" sizes=\"auto, (max-width: 241px) 100vw, 241px\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\"><span data-olk-copy-source=\"MessageBody\">GC &#8211; <\/span><b>No seu projeto <i>Quem Conta Vira Hist\u00f3ria \u2013 Contar para lembrar, ouvir para viver<\/i>, voc\u00ea une narra\u00e7\u00e3o e m\u00fasica em uma experi\u00eancia imersiva e sensorial. O que o p\u00fablico de hoje mais precisa reaprender sobre o ato de escutar uma hist\u00f3ria?<\/b><\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">DF &#8211; Em 2010, ouvi uma reflex\u00e3o do dramaturgo Luis Alberto de Abreu que nunca mais esqueci. Ele dizia que, nas comunidades tradicionais, o narrador contava hist\u00f3rias sobre a Vida, com &#8220;V&#8221; mai\u00fasculo, para que cada pessoa pudesse compreender melhor a sua pr\u00f3pria vida, com &#8220;v&#8221; min\u00fasculo. Essa imagem me acompanha at\u00e9 hoje. Vivemos em um tempo de excesso de informa\u00e7\u00e3o, velocidade e dispers\u00e3o. Raramente nos reunimos para simplesmente escutar algu\u00e9m. Aos poucos, fomos perdendo esses espa\u00e7os coletivos de presen\u00e7a \u2014 em torno de uma fogueira, numa pra\u00e7a, numa sala, onde hist\u00f3rias circulavam de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o e ajudavam a construir uma mem\u00f3ria comum. Mas n\u00e3o acredito que tenhamos desaprendido a escutar. Acho que continuamos profundamente dispon\u00edveis para isso. S\u00f3 precisamos de um tempo e de um espa\u00e7o que favore\u00e7am esse encontro. Percebo isso sempre que conto hist\u00f3rias. Muitas vezes sou contratada para apresenta\u00e7\u00f5es voltadas \u00e0s crian\u00e7as, mas observo os adultos igualmente envolvidos. Pais, professores e av\u00f3s acabam sendo atravessados pelas narrativas tanto quanto os pequenos. Porque uma boa hist\u00f3ria n\u00e3o tem idade. Ela nos alcan\u00e7a em algum lugar muito \u00edntimo. Contar hist\u00f3rias continua sendo um ato profundamente humano. Exige presen\u00e7a de quem conta e de quem escuta. \u00c9 nessa rela\u00e7\u00e3o que a narrativa ganha vida. Nenhum livro, espet\u00e1culo ou conto acontece sozinho; ele acontece entre as pessoas. Talvez seja justamente isso que mais precisemos preservar hoje: a capacidade de estar verdadeiramente presentes diante de uma hist\u00f3ria. Porque, quando escutamos com aten\u00e7\u00e3o, descobrimos que, de alguma forma, ela tamb\u00e9m est\u00e1 falando de n\u00f3s.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">GC &#8211; <b>Voc\u00ea atuou no cinema em <i>Vazante<\/i>, da Daniela Thomas, e no Centro Cultural FIESP\/SESI-SP. Qual foi o momento mais desafiador da sua carreira at\u00e9 aqui e o que ele te ensinou?<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">DF &#8211; \u00c9 dif\u00edcil escolher apenas um desafio, porque cada projeto exige que eu aprenda alguma coisa nova. Mas existem dois momentos que permanecem muito vivos na minha mem\u00f3ria. O primeiro foi minha participa\u00e7\u00e3o em <i>Vazante<\/i>, dirigido por Daniela Thomas. Era a minha estreia no cinema. Fui para o Serro, em Minas Gerais, sabendo que faria uma pequena participa\u00e7\u00e3o, mas com uma enorme responsabilidade: abrir a narrativa do filme. Eu tinha pouca experi\u00eancia diante das c\u00e2meras e praticamente nenhum tempo de prepara\u00e7\u00e3o. No primeiro dia de trabalho, toda a equipe estava na loca\u00e7\u00e3o e eu permaneci sozinha na cidade. Em vez de viver essa espera como um vazio, transformei aquele tempo em prepara\u00e7\u00e3o. Caminhei pelas ruas, subi montanhas, li o material de refer\u00eancia e procurei encontrar, sozinha, um caminho para aquela personagem. No dia seguinte, j\u00e1 caracterizada, passei horas aguardando o momento da filmagem. Quando finalmente chegou a minha vez, restavam poucos minutos de luz natural. Foram poucas tomadas, tudo muito intenso e muito r\u00e1pido. Sa\u00ed dali com a certeza de que queria voltar muitas outras vezes ao cinema. Aquela experi\u00eancia me mostrou que, independentemente da linguagem, o trabalho do ator continua sendo o mesmo: estar inteiro no instante presente. Mas talvez o maior desafio da minha trajet\u00f3ria tenha sido <i>O Vazio na Mala<\/i>. Idealizar um espet\u00e1culo, pesquisar a hist\u00f3ria da pr\u00f3pria fam\u00edlia, reunir uma equipe, enfrentar anos de desenvolvimento e finalmente estrear no Teatro do SESI-SP foi uma experi\u00eancia transformadora. Vinte anos antes, eu havia voltado da Europa e encontrado naquele teatro um espa\u00e7o fundamental para a minha forma\u00e7\u00e3o. Estrear ali um projeto t\u00e3o \u00edntimo teve um significado muito especial. O que mais me marcou naquele processo foi perceber que \u00e9 poss\u00edvel produzir arte com dignidade quando existem institui\u00e7\u00f5es comprometidas com a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica. As condi\u00e7\u00f5es oferecidas pelo SESI-SP \u2014 tempo de pesquisa, estrutura, equipe t\u00e9cnica e respeito aos artistas \u2014 infelizmente ainda s\u00e3o exce\u00e7\u00e3o no nosso pa\u00eds. Poder dedicar energia \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o apenas \u00e0 sobreviv\u00eancia da produ\u00e7\u00e3o, foi um presente raro. Quando a temporada terminou, senti que tinha escalado uma montanha. N\u00e3o porque o caminho tivesse sido f\u00e1cil, mas porque ele confirmou algo em que sempre acreditei: as hist\u00f3rias mais pessoais podem encontrar um lugar profundamente coletivo quando chegam ao palco.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">GC &#8211; <b>Para quem est\u00e1 come\u00e7ando agora como atriz e produtora cultural no Brasil, que conselho voc\u00ea daria que gostaria de ter recebido no in\u00edcio da sua trajet\u00f3ria?<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">DF &#8211; Talvez eu dissesse, antes de tudo, para cultivar a curiosidade. O teatro \u00e9 muito maior do que qualquer um de n\u00f3s. Ele existia antes da nossa chegada e continuar\u00e1 existindo depois. Quanto mais cedo entendemos isso, mais liberdade temos para experimentar, aprender e construir o nosso pr\u00f3prio caminho. Quando comecei, era apaixonada pela linguagem do palha\u00e7o. Fui estudar na Inglaterra imaginando que voltaria ao Brasil para trabalhar como clown em hospitais. A vida, no entanto, me apresentou outros encontros. Descobri a pot\u00eancia da palavra, da dramaturgia, da narra\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias e do teatro de texto. Se eu tivesse me prendido a uma \u00fanica ideia sobre quem deveria ser, provavelmente teria perdido muitas oportunidades de crescimento. Por isso, acredito que quem est\u00e1 come\u00e7ando deve conhecer diferentes linguagens, assistir a muitos espet\u00e1culos, ler, viajar quando for poss\u00edvel, conversar com artistas de gera\u00e7\u00f5es diversas e permanecer dispon\u00edvel para mudar de ideia. A forma\u00e7\u00e3o de um artista n\u00e3o termina nunca. Tamb\u00e9m diria para n\u00e3o ignorar a produ\u00e7\u00e3o cultural. Mesmo quem sonha apenas em atuar ganha muito ao compreender como um espet\u00e1culo se realiza, como uma equipe se organiza, como um projeto \u00e9 viabilizado. Produzir n\u00e3o significa abandonar a cria\u00e7\u00e3o; muitas vezes, significa criar as condi\u00e7\u00f5es para que ela aconte\u00e7a. Mas, acima de tudo, eu diria para proteger aquilo que despertou o desejo de fazer teatro. A profiss\u00e3o traz dificuldades, inseguran\u00e7as e muitas incertezas. \u00c9 f\u00e1cil perder de vista o encantamento inicial. Voltar, de tempos em tempos, \u00e0quela primeira emo\u00e7\u00e3o \u2014 \u00e0 pessoa que um dia se apaixonou por uma hist\u00f3ria, por um palco ou por um personagem \u2014 talvez seja a melhor maneira de seguir adiante. No fim das contas, acredito que nosso trabalho \u00e9 simples e, ao mesmo tempo, profundamente complexo: reunir pessoas para compartilhar uma hist\u00f3ria. Enquanto houver algu\u00e9m disposto a contar e algu\u00e9m disposto a escutar, o teatro continuar\u00e1 cumprindo a sua fun\u00e7\u00e3o mais antiga: lembrar que somos humanos porque somos capazes de imaginar a vida do outro.<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">Fotos:<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">Andr\u00e9ia Machado<\/p>\n<p class=\"x_MsoNormal\">Rafa Marques\/Blog do Arcanjo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No palco do Teatro Moise Safra e at\u00e9 o dia 30 de setembro, est\u00e1 em cartaz *&#8221;Mazal Tov &#8211; Quando a Vida Sorri&#8221;*, espet\u00e1culo estrelado por Dinah Feldman, atriz, narradora de hist\u00f3rias, produtora cultural e jornalista, e que traz tamb\u00e9m no elenco Ot\u00e1vio Martins, Jo\u00e3o Baldasserini, Giovana Yedid, Gabriel Brener e Thay Bergamin. 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