﻿{"id":74849,"date":"2026-10-17T19:41:26","date_gmt":"2026-10-17T19:41:26","guid":{"rendered":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=74849"},"modified":"2026-10-17T19:41:26","modified_gmt":"2026-10-17T19:41:26","slug":"o-bonde-de-einstein-e-a-impossibilidade-de-relativizar-por-paulo-rosenbaum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=74849","title":{"rendered":"O BONDE DE EINSTEIN E A IMPOSSIBILIDADE DE RELATIVIZAR \u2013 POR PAULO ROSENBAUM"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>\u201cN\u00e3o somos capazes de produzir um conceito de tempo que seja ao mesmo tempo cosmol\u00f3gico, biol\u00f3gico, hist\u00f3rico e individual. \u201c &#8211; Paul Ricouer<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ano era 1905, Albert Einstein trabalhava no escrit\u00f3rio de patentes em Berna. Enquanto circulava nos pontual\u00edssimos bondes su\u00ed\u00e7os ele fazia frequentemente o que se convencionou chamar de &#8220;gedankenexperimente&#8221;, ou \u201cexperimentos mentais\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inspirado no grande rel\u00f3gio da cidade conhecido como Zytglogge, teve um pequeno lampejo de uma ideia magnifica, segundo ele mesmo: &#8220;o pensamento mais feliz da minha vida&#8221;. Os fen\u00f4menos que ocorrem dentro do trem n\u00e3o s\u00e3o simult\u00e2neos para aqueles que n\u00e3o est\u00e3o compartilhando a mesma velocidade. E foi assim que deduziu que o tempo era uma dimens\u00e3o relativa. A relatividade do tempo-espa\u00e7o come\u00e7ou sua longa e exitosa trajet\u00f3ria de sedimenta\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Longa sem d\u00favida. Exitosa? Talvez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A simples ideia de colocar ideologias em perspectiva cr\u00edtica tem sido considerada como uma amea\u00e7a insuport\u00e1vel. E \u00e9 essa intoler\u00e2ncia que nutre boa parte do erro conceitual vulgarmente nomeado como \u201cpolariza\u00e7\u00e3o\u201d e todas as suas tristes e empobrecedoras decorr\u00eancias. A principal delas, a impossibilidade de uma interlocu\u00e7\u00e3o que gere troca e deslocamento de perspectivas intelectuais. Ora, se a interlocu\u00e7\u00e3o se encontra truncada pela fossiliza\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, como \u00e9 que partes divergentes podem entabular consensos m\u00ednimos? Como os embates podem concorrer para, ao fim e ao cabo, encontrar fus\u00e3o de horizontes? Como, afinal, podemos voltar a sentar e conversar de fato com pessoas que discordam do que pensamos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando as posi\u00e7\u00f5es se tornam puro antagonismo, prevalece o mutismo que gera paralisia. E isso tem um nome cient\u00edfico: esclerose. Ela significa o endurecimento e a calcifica\u00e7\u00e3o, um processo que cristaliza e torna tudo menos flex\u00edvel. Basta observar o panorama para deduzir que \u00e9 disso que se trata. O debate se somos ou n\u00e3o bin\u00e1rios deveria ser irrelevante, mas parece que prevalece o desejo de permanecer em uma postura que se encontra em um campo de oposi\u00e7\u00e3o no embate est\u00e9ril, seja na pol\u00edtica, na \u00e9tica, nas artes, nos grandes temas sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embate, n\u00e3o debate.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 dessa nociva refratariedade \u00e0 interlocu\u00e7\u00e3o que sobrevive o populismo. O oportunismo viceja sob teses conspirat\u00f3rias e com o subs\u00eddio da desinforma\u00e7\u00e3o consentida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata apenas de um plano que emerge daqueles que se encontram no poder e instrumentalizam a sociedade. Neste caso, seria at\u00e9 simples expor a farsa. H\u00e1, nas sociedades, um desejo por antagonismo. \u00c9 um g\u00eanero de puls\u00e3o dirigido a contrariar, uma reminisc\u00eancia do desejo infantil de oposi\u00e7\u00e3o, ora \u00e0 autoridade parental e ao \u201csistema\u201d, ora aos valores acordados nos contratos sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 aconselh\u00e1vel prestar mais aten\u00e7\u00e3o a esse impulso, pois \u00e9 atrav\u00e9s dele que podemos testemunhar um fen\u00f4meno mundial: o afastamento do centro pol\u00edtico. Tal afastamento do centro repercute na desej\u00e1vel equidist\u00e2ncia anal\u00edtica; isso \u00e9, refor\u00e7a o desejo inconsciente de alinhar-se \u00e0s posi\u00e7\u00f5es extremas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso dificulta muito a tarefa de relativizar, de buscar uma solu\u00e7\u00e3o mai\u00eautica para os problemas contempor\u00e2neos. Isso impede, sobretudo, de que se levantem novas d\u00favidas. A volta ao desejo por dogmas, o apre\u00e7o por aporias, e a abund\u00e2ncia de posturas perempt\u00f3rias denotam isso. E a interlocu\u00e7\u00e3o com m\u00e1quinas, mesmo com aquelas que supostamente aprendem, n\u00e3o nos ajuda muito: os algoritmos foram elaborados para seduzir, alinhar e segmentar a sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, a sociedade, por motivos que merecem permanente an\u00e1lise, encontra conforto e saciedade em manter-se fiel \u00e0s torcidas de time \u00fanico, quando, na realidade, a complexidade da vida moderna torna essa escolha um grande equ\u00edvoco. Notem que, at\u00e9 aqui, consegui evitar usar, propositalmente, os termos \u201cesquerda\u201d e \u201cdireita\u201d. Por qu\u00ea? Porque eles s\u00e3o desnecess\u00e1rios e at\u00e9 nocivos para apontar o non sense da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando ao bonde de Einstein, o que ele percebeu simbolicamente foi que pode ser importante imaginar e prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade de um outro ponto de vista. H\u00e1 sempre uma escolha hermen\u00eautica no ato de analisar, e \u00e9 sempre salutar poder mudar a forma de como interpretamos os fen\u00f4menos, e isso, para desespero dos adeptos do tecno cientificismo, desafia a famosa imortalidade cientifica dos fatos. Ou seja, \u00e9 a imagina\u00e7\u00e3o posta \u00e0 prova. Assimilar o que a experiencia ensina \u00e9 a \u00fanica forma de evitar as tenta\u00e7\u00f5es totalit\u00e1rias que parecem estar ressurgindo e passando \u00e0 fase de consumo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depende, portanto, de quem v\u00ea, depende de quem observa, de onde se observa, das circunst\u00e2ncias e do contexto. N\u00e3o \u00e9 fortuito que a tradi\u00e7\u00e3o oral judaica valorize tanto o Talmud, livro historicamente t\u00e3o perseguido quanto os judeus. Ele \u00e9, basicamente, um livro de conjecturas e perguntas sem respostas definitivas. O que parece ser um incomodo revela-se a ess\u00eancia do conhecimento: desperta a curiosidade, real\u00e7a o contraintuitivo, identifica onde est\u00e3o nossos v\u00edcios de an\u00e1lise e de informa\u00e7\u00e3o, e finalmente desafia a nossa curiosidade. N\u00e3o \u00e9 fortuito que o Talmud tenha sido um dos livros preferidos para busca, apreens\u00e3o e incinera\u00e7\u00e3o mundo afora, com especial \u00eanfase durante a Inquisi\u00e7\u00e3o espanhola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A impossibilidade de relativizar decorre, portanto, de uma catastr\u00f3fica sucess\u00e3o de erros que permitem que o ideol\u00f3gico triunfe sobre a raz\u00e3o, e se sobreponha ao mundo emp\u00edrico. \u00c9 assim que as torcidas organizadas acabam adquirindo mais peso do que a pr\u00f3pria partida, desestruturando, ent\u00e3o, a import\u00e2ncia do pr\u00f3prio jogo e de suas regras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro efeito colateral secund\u00e1rio das certezas raivosas foi ter turvado a clareza moral. E isso pode ser facilmente demonstrado quando boa parte dos dois lados do espectro pol\u00edtico passou a apoiar o terror e a viol\u00eancia como metodologias legitimas, normatizando simultaneamente a reemerg\u00eancia do racismo contra judeus, o sectarismo, e o surto de intoler\u00e2ncia indiscriminada contra minorias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Precisamos imitar Albert e nos exercitar mais nos experimentos mentais imagin\u00e1rios: quais outros pontos cegos seriam a n\u00f3s revelados? Quanto essa auto-observa\u00e7\u00e3o mudaria nossas perspectivas? A vit\u00f3ria s\u00f3 estaria garantida se e quando atingirmos o m\u00e9rito do entendimento, e o grande campe\u00e3o seria o pensamento cr\u00edtico, aquele que jamais se alinha automaticamente a nada, nem a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rel\u00f3gio de Einstein est\u00e1 vivo e operante, a miss\u00e3o de cada um \u00e9 aprender a ajustar os ponteiros. Em tempo: cada segundo conta.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO ROSENBAUM<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/478_Especial_3_1.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-74850 alignnone\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/478_Especial_3_1.png\" alt=\"\" width=\"261\" height=\"163\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/478_Especial_3_1.png 372w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/478_Especial_3_1-216x135.png 216w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/478_Especial_3_1-142x90.png 142w\" sizes=\"auto, (max-width: 261px) 100vw, 261px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulo Rosenbaum nasceu em S\u00e3o Paulo em 1959. \u00c9 m\u00e9dico e escritor. Possui Mestrado em Medicina Preventiva, Doutorado em Ci\u00eancias e P\u00f3s-doutorado em Medicina Preventiva pela USP, com mais de uma dezena de livros publicados na \u00e1rea. Escreve, regularmente, para o jornal Estado de S\u00e3o Paulo, no blog \u201cConto de not\u00edcia\u201d. Roteirista e produtor de document\u00e1rios, atuou como editor de revistas cient\u00edficas no campo da sa\u00fade. \u00c9 pesquisador na \u00e1rea de cl\u00ednica m\u00e9dica, semiologia cl\u00ednica, rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente, preven\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e pesquisa de medicamentos. Al\u00e9m de ensa\u00edsta, \u00e9 poeta, contista e romancista. <em>Antes de Navalhas pendentes, publicou os romances: A verdade lan\u00e7ada ao solo (Record, 2010) e C\u00e9u subterr\u00e2neo (Perspectiva, 2016).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o somos capazes de produzir um conceito de tempo que seja ao mesmo tempo cosmol\u00f3gico, biol\u00f3gico, hist\u00f3rico e individual. \u201c &#8211; Paul Ricouer O ano era 1905, Albert Einstein trabalhava no escrit\u00f3rio de patentes em Berna. Enquanto circulava nos pontual\u00edssimos bondes su\u00ed\u00e7os ele fazia frequentemente o que se convencionou chamar de &#8220;gedankenexperimente&#8221;, ou \u201cexperimentos mentais\u201d. 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