﻿{"id":8911,"date":"2013-08-17T23:28:16","date_gmt":"2013-08-17T23:28:16","guid":{"rendered":"http:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=8911"},"modified":"2013-08-17T23:28:16","modified_gmt":"2013-08-17T23:28:16","slug":"furto-foi-falha-moral-nao-doenca-diz-sobel-em-entrevista-ao-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/?p=8911","title":{"rendered":"&#8216;FURTO FOI FALHA MORAL, N\u00c3O DOEN\u00c7A&#8217;, DIZ SOBEL EM ENTREVISTA AO ESTADO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-8912\" alt=\"194_especial_3.1\" src=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/194_especial_3.1-374x250.jpg\" width=\"374\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/194_especial_3.1-374x250.jpg 374w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/194_especial_3.1-202x135.jpg 202w, https:\/\/glorinhacohen.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/194_especial_3.1.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 374px) 100vw, 374px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Rabino se desfaz da vers\u00e3o criada para o caso das gravatas, pede perd\u00e3o e se despede do Pa\u00eds para morar em Miami.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Henry Sobel deixar\u00e1 o Brasil &#8211; circulou dias atr\u00e1s. Diante da informa\u00e7\u00e3o ainda restrita, o Estado procurou o rabino afastado da Congrega\u00e7\u00e3o Israelita Paulista (CIP) em 2007, ao protagonizar um controvertido furto de gravatas numa loja de Palm Beach, nos Estados Unidos. Desde ent\u00e3o Sobel deixou de ser a autoridade religiosa m\u00e1xima da entidade, pediu aposentadoria no que foi atendido e levou o t\u00edtulo de &#8220;rabino em\u00e9rito&#8221; contornando uma crise que lhe trouxe profunda m\u00e1goa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por seis anos manteve a justificativa de que o furto fora motivado por desordem psicol\u00f3gica, depress\u00e3o e efeito de rem\u00e9dios. At\u00e9 no livro autobiogr\u00e1fico, Um Homem, um Rabino (Ediouro, 2008), com pref\u00e1cio de Fernando Henrique Cardoso, sustentou a vers\u00e3o: &#8220;Para concluir minha recupera\u00e7\u00e3o, tenho que reconhecer a exist\u00eancia de um problema de sa\u00fade, que se manifestou em momentos de grave tens\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta entrevista exclusiva, Sobel se desmente. Pela primeira vez assume que o furto tem a ver com &#8220;uma falha moral minha&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A revela\u00e7\u00e3o foi feita dias atr\u00e1s, de modo manso por\u00e9m surpreendente, ao longo de uma entrevista de duas horas e meia no apartamento do pr\u00f3prio rabino, no bairro de Higien\u00f3polis, em S\u00e3o Paulo. Antes do gravador ser acionado, Sobel avisou que iria falar de algo pela primeira vez. Algo muito dif\u00edcil. Havia escrito um longo texto, que consultou em diferentes momentos. E, recorrendo sempre aos fundamentos \u00e9ticos do juda\u00edsmo, admitiu que furtou por fraqueza de car\u00e1ter, n\u00e3o por debilidade f\u00edsica. &#8220;Desde jovem, fui um intolerante comigo. E o autojulgamento sempre foi severo demais. Mas o rabino \u00e9 humano, portanto, fal\u00edvel.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conta que amigos pr\u00f3ximos ajudaram a montar a vers\u00e3o do desequil\u00edbrio para proteg\u00ea-lo. Que outros amigos silenciaram. E que uma oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o o poupou das cr\u00edticas. Agradece o acolhimento dos brasileiros, que chama de grande p\u00fablico n\u00e3o judeu. &#8220;Estranharam o fato. Mas n\u00e3o me julgaram.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quase aos 70 anos, casado com Amanda e pai de Alisha, filha \u00fanica, prepara-se para viver em Miami.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Iniciar\u00e1 um longo per\u00edodo sab\u00e1tico s\u00f3 interrompido para voltar ao Brasil na \u00e9poca da Copa. &#8220;Sou apaixonado por futebol. Meu time, o S\u00e3o Paulo, anda em baixa, mas vibro, vibro&#8230; e vibro&#8221;, revela com o dote de bom pregador, em que a repeti\u00e7\u00e3o de palavras \u00e9 recurso infal\u00edvel e o sotaque americano, marca registrada. Fala da tristeza por n\u00e3o ter sido convidado a se encontrar com o papa Francisco (justo Sobel, que esteve com Jo\u00e3o Paulo II e Bento XVI, entre tantos l\u00edderes religiosos) e acha que sua representatividade vem sendo machucada. Por fim, ao rever sua corajosa atua\u00e7\u00e3o p\u00fablica na morte de Vladimir Herzog, diz sentir o conforto do dever cumprido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que est\u00e1 deixando o Brasil?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deixe-me dizer que esta dever\u00e1 ser uma entrevista dif\u00edcil, com perguntas delicadas que pretendo responder. Fiz anota\u00e7\u00f5es que vou consultar, se me permitir. S\u00e3o 43 anos no Brasil. Minha hist\u00f3ria pessoal e a vida profissional est\u00e3o muito interligadas. E ligadas ao Brasil. Mas resolvi deixar o Pa\u00eds para diminuir o ritmo e preparar a aposentadoria. Passarei um per\u00edodo sab\u00e1tico em Miami. L\u00e1 vou me dedicar \u00e0 leitura, escrever e refletir muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E por que Miami?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro, porque temos um apartamento l\u00e1. Segundo, porque a comunidade judaica daquela regi\u00e3o \u00e9 relativamente bem organizada. Em ingl\u00eas se diz que Miami \u00e9 gateway, ponto de partida para o mundo &#8211; Oriente M\u00e9dio, Europa, Am\u00e9rica Latina&#8230; bom lugar para estar. Tentei ir para Washington, n\u00e3o consegui viabilizar o projeto. Ent\u00e3o, \u00e9 Miami. Mas voltarei ao Brasil no meio do ano que vem, para ver a Copa do Mundo daqui. Falando s\u00e9rio, vibro com futebol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O senhor j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 aposentado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou. Comuniquei meu pedido \u00e0 CIP anos atr\u00e1s, que foi aceito. Continuei por aqui porque tenho paix\u00e3o pelo Brasil. Agrade\u00e7o o Pa\u00eds que me proporcionou trabalhar com a comunidade judaica e ter mantido contato com l\u00edderes religiosos de outros credos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como seria comparar o rabino Sobel dos anos 70, que chegou aqui jovem, num per\u00edodo dif\u00edcil, e o rabino Sobel hoje, aposentado e querendo refletir?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje sou um rabino machucado. Por motivos pol\u00edticos. Vou dar um exemplo: minha congrega\u00e7\u00e3o n\u00e3o me convocou para encontrar o papa Francisco na visita dele ao Brasil. Isso me magoou, afinal de contas, ele \u00e9 um homem maravilhoso, l\u00edder de mais de 1 bilh\u00e3o de seres humanos. No fundo, a minha representatividade tem sido machucada, algo que constru\u00ed em 43 anos. Outro rabino foi escolhido para o encontro e eu me curvei perante o destino. Respondi \u00e0 sua pergunta?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, o senhor diz que hoje a sua representatividade n\u00e3o conta no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rabino argentino Skorka, amigo de Francisco, esteve por aqui, mas n\u00e3o o conheci. Ele mandou o livro que fez com o papa. Li e achei excelente. Alto n\u00edvel de ambos os lados. Sei que \u00e9 cedo para falar, mas a mod\u00e9stia deste papa tem sido tocante. Gosto dos bons olhos dele, das improvisa\u00e7\u00f5es&#8230; No entanto, a congrega\u00e7\u00e3o achou melhor destacar para o encontro o rabino Michel Schlesinger, que me sucedeu na CIP. Gosto do Michel, pude ajud\u00e1-lo a fazer os estudos rab\u00ednicos em Israel e sei que tem grande futuro. Mas tenho meu ego para cuidar (risos)&#8230; Voltando ao ponto, pode escrever que n\u00e3o estou fugindo do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E algu\u00e9m diria isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei, talvez. Aos 70 anos, n\u00e3o tenho motivos para fugir. Falo assim porque houve aquele incidente lastim\u00e1vel das gravatas, em consequ\u00eancia do qual sa\u00ed da CIP.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem sido v\u00edtima de alguma forma de persegui\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o, isso n\u00e3o. Minha popularidade est\u00e1 intacta e o contato com o meu pov\u00e3o, idem. A criatividade \u00e9 a mesma. O trabalho na comunidade \u00e9 o mesmo. Os casamentos, as cerim\u00f4nias de bar e bat mitzvah, os enterros infelizmente, tudo continua. At\u00e9 a procura de dinheiro continua, porque aprendi a angariar recursos para a congrega\u00e7\u00e3o junto a segmentos da economia. Tudo se mant\u00e9m. O que n\u00e3o se mant\u00e9m \u00e9 a representatividade institucional. Isso me negam. Tamb\u00e9m sei que sou um privilegiado por ter trabalhado tanto tempo na mesma posi\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 raro nas congrega\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o senhor tamb\u00e9m deu uma dimens\u00e3o particular a essa posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho que sim. Numa \u00e9poca dif\u00edcil para o Brasil. Hoje a comunidade judaica se posiciona de maneira neutra perante os acontecimentos. N\u00e3o existe uma defini\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, um rumo no que tange \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o perante fatores sociais e o caos da corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O esvaziamento de representatividade tem a ver com o caso das gravatas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por favor, coloque no papel o que trago no meu cora\u00e7\u00e3o, porque vou falar de algo pela primeira vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes n\u00e3o havia tido coragem nem vontade. Aquele foi um epis\u00f3dio desgastante, cheguei a pedir desculpas diante de c\u00e2meras das principais emissoras de TV do Brasil. Tamb\u00e9m tratei do assunto em livro autobiogr\u00e1fico. Falei em problema de sa\u00fade e no uso de um medicamento para dormir, o Rohypnol. O rem\u00e9dio teria me levado a cometer atos impensados. Ontem \u00e0 noite, \u00e0s v\u00e9speras desta entrevista e com o distanciamento que o tempo proporciona, decidi que n\u00e3o posso mais atribuir o que houve a fatores externos. Para ser e me sentir honesto, admito que cometi um erro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 dizendo que o furto n\u00e3o pode ser atribu\u00eddo ao efeito de rem\u00e9dios, mas a uma falha sua?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma falha moral minha. E pe\u00e7o perd\u00e3o. Veja o que escrevi ontem \u00e0 noite: &#8220;\u00c9 bom ser perdoado. Quando eu era menino, sempre que cometia um erro, podia contar com a compreens\u00e3o, a ternura e o perd\u00e3o dos meus pais. Lembro da sensa\u00e7\u00e3o de ter um peso tirado do cora\u00e7\u00e3o, uma gostosa certeza de ser aceito. (&#8230;) Quando cresci, foi a minha vez de conceder perd\u00e3o aos meus pais pelos seus erros e fraquezas, fossem reais ou fruto da minha imagina\u00e7\u00e3o. Compreender nossos pais, e perdo\u00e1-los por serem menos perfeitos do que gostar\u00edamos, \u00e9 natural no processo de amadurecimento. Lembro das cr\u00edticas se abrandando, os ressentimentos se dissolvendo, a consci\u00eancia do afeto libertando a alma. \u00c9 bom perdoar&#8221;. E \u00e9 muito bom perdoar a si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como conseguiu chegar a essa aceita\u00e7\u00e3o dos fatos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu era muito intolerante comigo quando me tornei rabino. O autojulgamento sempre foi severo e o sentimento de culpa, duradouro. Finalmente consegui me conscientizar de que o rabino \u00e9 humano, portanto, fal\u00edvel. O incidente das gravatas \u00e9 do conhecimento p\u00fablico, n\u00e3o preciso entrar em detalhes aqui&#8230; Tento me perdoar, o que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, porque perdoar n\u00e3o \u00e9 esquecer. Se fosse, n\u00e3o haveria m\u00e9rito no perd\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O senhor passou seis anos nesse sofrimento, endossando uma vers\u00e3o? Afinal, como surgiu a hist\u00f3ria do rem\u00e9dio?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra &#8220;surpresa&#8221; aplica-se \u00e0 pergunta. De in\u00edcio houve a surpresa. Depois uma falta de cren\u00e7a na realidade, de que aquilo pudesse ter acontecido. Amigos procuraram afirmar que houve doen\u00e7a, queriam me proteger. Outros nem tanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quero ler mais um trecho sobre o perd\u00e3o: &#8220;\u00c9 imposs\u00edvel sobreviver se as ra\u00e7as n\u00e3o se perdoarem depois de tanta intoler\u00e2ncia e preconceito. \u00c9 imposs\u00edvel sobreviver se as religi\u00f5es n\u00e3o perdoarem depois de tanto \u00f3dio e persegui\u00e7\u00f5es. \u00c9 imposs\u00edvel sobreviver se as na\u00e7\u00f5es n\u00e3o perdoarem depois de tantas guerras e derramamento de sangue. Em todos os momentos e em todas as situa\u00e7\u00f5es, as pessoas precisam ser capazes de dizer &#8216;volte, eu te perdoo&#8217;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dizer &#8216;eu te amo, vamos tentar novamente&#8217;. Porque nunca \u00e9 tarde demais&#8221;. Perdoe o meu desabafo, mas h\u00e1 seis anos, todos os dias, lido com essa quest\u00e3o. Acho que posso amadurecer. E n\u00e3o deixar acontecer de novo.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: mat\u00e9ria escrita por Laura Greenhalgh e publicada no jornal O Estado de S. Paulo em 8.08.2013.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rabino se desfaz da vers\u00e3o criada para o caso das gravatas, pede perd\u00e3o e se despede do Pa\u00eds para morar em Miami. Henry Sobel deixar\u00e1 o Brasil &#8211; circulou dias atr\u00e1s. 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