EM TEMPOS DE GUERRA, A HISTÓRIA RECOMENDA CAUTELA DIANTE DE JULGAMENTOS APRESSADOS – POR LIONEL ZACLIS
Advogado, mestre e doutor pela Faculdade de Direito da USP e ex-Conselheiro do Instituto dos Advogados de São Paulo, Lionel Zaclis analisa com profundidade e a sapientia de sempre dois artigos de Fernando Gabeira, um deles intitulado “Algumas lições da guerra”, publicado no dia 10 de abril no Estadão (Espaço Aberto, pág. A6). De quebra, dá uma verdadeira aula de história e política e você não pode deixar de ler.
Há um vício recorrente no debate público contemporâneo: o de emitir juízos definitivos sobre conflitos ainda em curso, como se seus desfechos já estivessem dados. Parte da imprensa e de analistas parece observar a atuação dos Estados Unidos em cenários de guerra — inclusive no que toca ao Irã — com a pressa de quem assiste a um filme pela metade, mas se julga capaz de antecipar o final. Trata-se de uma postura intelectualmente sedutora, porém historicamente frágil. No afã de encontrar argumentos e mais argumentos para criticar Trump, chegam ao cúmulo de levar a sério certas ameaças meramente retóricas por ele feitas, como a de que estaria disposto a “acabar com uma civilização que data de milênios antes de Cristo”. E se se tratasse de uma civilização posterior ao nascimento de Cristo, o extermínio dela seria mais palatável?
A advertência não é nova. Em A “Study of History”, Arnold J. Toynbee já apontava que civilizações e conflitos só se deixam compreender em perspectiva, jamais no calor dos acontecimentos. De modo semelhante, Carl von Clausewitz, em “Da Guerra”, advertia que a “névoa da guerra” obscurece a percepção dos próprios protagonistas — quanto mais a dos observadores externos. Fernando Gabeira, não apenas no artigo ora comentado, mas também naquele intitulado “Algumas lições da guerra”, publicado no dia 10 de abril no Estadão (Espaço Aberto, pág. A6), parece não levar essa lição em conta, antes a insopitável intenção de criticar os Estados Unidos. Ali diz ele que “A guerra ainda não acabou, mas já nos deu um farto material de reflexão para além do simples ajuste do preço do diesel e do querosene de aviação”. A primeira conclusão estratégica é óbvia e bastante velha: é preciso realizar logo a transição energética e liberar o País da dependência do petróleo. Primeiro foi a Venezuela, agora o Irã. Em todos os lugares em que os norte-americanos vão buscar a democracia, acabam encontrando o petróleo”. Como lembrarei mais à frente, nem sempre os norte-americanos vão atrás do petróleo, mas alguns há que, ao buscar uma democracia do tipo cubano ou norte-coreano, acabam encontrando um embaixador norte-americano! No artigo ora comentado, diz o articulista que “Trump venceu dizendo América first. Venceu com uma grande sede de petróleo, que o levou a sequestrar Maduro e iniciar uma guerra contra o Irã”. Como não sou especialista em sequestro, prefiro não enfrentar o articulista nesse campo.
Mas, ironias à parte, lembro ao festejado jornalista que os norte-americanos não foram à Europa, por exemplo, atrás de petróleo. Foram, sim, para combater o Mal absoluto e evitar que o mundo livre sucumbisse. Não tivessem eles ido e vencido a guerra, eu não teria conseguido escrever este comentário, pois já estaria nos céus há muito tempo, ascendido em forma de fumaça (se é que fumaça tenha alguma forma), e se o articulista ainda estivesse por aqui, estaria falando alemão, e trabalhando como escravo dos nazistas.
Afirma ele, também, que “O fechamento do Estreito de Ormuz era uma das consequências previsíveis, mas os EUA não a consideraram”. Em outras palavras, o que na verdade pretendeu dizer foi que entende mais de geopolítica e de guerra do que os generais do Pentágono… É conhecimento bélico para leigo nenhum botar defeito. Diz, ainda que “outra lição importante deve estar sendo aprendida pelos países do Golfo que confiaram na segurança de seu grande aliado. Os EUA não só fizeram uma guerra por escolha na região, como não foram capazes nem de defender suas bases, quanto mais portos e refinarias”. O pior de tudo, no artigo ora comentado, é a contradição que nele se contém. Após invocar uma série de argumentos para criticar o ataque americano, o artigo ora comentado expõe uma verdade incontestável: ” O Irã se prepara há 40 anos para uma guerra; logo, não seria derrotado nos primeiros dias”. Em primeiro lugar, por que um país se prepara para a guerra, fazendo-o durante 40 anos? E quem disse que ele seria derrotado “nos primeiros dias” ? O que é público e notório é que esse preparo para a guerra durante 40 anos incluia, como é óbvio, público e notório, chegar à bomba atômica para, declaradamente, atacar o grande Satã (os EUA) e o pequeno Satã (Israel). E aí, esses “satãs” deveriam permanecer quietinhos, aguardando os ataques ?.
Supõe o articulista que nada acontecesse com os países do Golfo, que não fossem afetados de nenhuma maneira? Preferia que os Estados Unidos não escolhessem este momento para as providências militares, preferindo permitir que o Irã chegasse à bomba atômica, como fatalmente ocorreria se a turma de Obama/Biden continuasse na presidência? E aí, os países do Golfo, sunitas que são, fariam o quê? Ou está ele reclamando pelo fato de os norte-americanos não terem destruído o Irã por completo, de modo a impedir que os teocratas lançassem mísseis em direção aos países do Golfo? Não contente com as afirmações feitas até aqui, procura fugir para outras longitudes, dizendo que “O bombardeio de infraestrutura civil é um crime de guerra, mas não constrange ninguém, e que não só as infraestruturas civis, mas os próprios civis foram bombardeados em Gaza”, “esquecendo-se” de que é público e notório que o Hamas forçava, sob ameaça de morte, que os civis funcionassem como escudos humanos dos terroristas, e que imóveis, em princípio protegidos pelo direito internacional humanitário, se tornam alvos legítimos quando utilizados para fins de ataque ao inimigo. Mas a memória seletiva do articulista fê-lo “esquecer” completamente de sequer tocar naquilo que provocou a guerra contra o terrorismo do Hamas, ou seja, o hediondo ataque feito a Israel no dia 7 de outubro de 2023, matando mais de 1.200 civis, estuprando, arrancando bebê do útero da mãe, após esfaqueá-a e matando-a em seguida, assando bebês no forno, incendiando casas, sequestrando civis para servirem de reféns, e “otras cositas más”, tudo documentado em vídeos feitos pelos próprios terroristas, que telefonavam para seus parentes, relatando seus feitos gloriosos e sendo louvados pelas humanísticas ações perpetradas!
A História oferece exemplos eloquentes de avaliações equivocadas feitas em tempo real. Durante a Segunda Guerra Mundial, Winston Churchill foi duramente criticado por sua recusa em negociar com a Alemanha nazista. À época, muitos o viam como obstinado e imprudente. Hoje, é lembrado como o estadista que compreendeu, antes de outros, a natureza existencial do conflito. E quem eram os Comandantes-em-Chefe das forças armadas dos Estados Unidos, quando do bombardeio que arrasou Dresden e matou cerca de 25.000 pessoas, e do lançamento das bombas atômicas que arrasaram Hiroshima e Nagasaki, sem os quais a Segunda Guerra não terminaria? Certamente não era Donald Trump, do Partido Republicano, que, sim, tem muitos defeitos, mas não o de falta de coragem e de amor ao seu país. Não, não era Trump a presidir os EUA, mas, respectivamente, Franklin Delano Roosevelt e Harry Truman, não do Partido Republicano, mas do democrata!
Na Guerra Civil Americana, Ulysses S. Grant foi acusado de brutalidade e incompetência por suas estratégias de desgaste. Chamado de “açougueiro”, enfrentou críticas intensas da opinião pública e da imprensa. No entanto, sua persistência revelou-se decisiva para a vitória da União.
Esses episódios ilustram um padrão: decisões tomadas sob extrema pressão, frequentemente impopulares no presente, podem revelar-se corretas à luz de seus finais. Julgamentos prematuros, ao contrário, tendem a envelhecer mal. Será que o Ocidente pode contar em nossos dias com estadistas de porte equivalente ao daqueles que lideraram seus povos nos aludidos episódios? O pior de tudo é a ignorância da grande maioria das pessoas que se põem a falar do que não conhecem, mas consideram-se especialistas em tudo. O Oriente Médio, para essas pessoas, é mais longe ainda do lugar onde “Judas perdeu as botas”: não conhecem a história da região, o que, contudo, não os impede nem um pouco de emitir opiniões e juízos definitivos sobre o assunto
No caso das tensões envolvendo o Irã, a análise não pode limitar-se a uma contabilidade imediata de custos materiais ou humanos ou de posições geopolíticas, que, por sua própria natureza, se revelam movediças. Há um elemento qualitativo que não pode ser ignorado: a natureza do regime e o impacto global de sua eventual consolidação como potência nuclear. A alternativa — o apaziguamento — tampouco é neutra. A experiência do Acordo de Munique, sob Neville Chamberlain, permanece como advertência clássica sobre os riscos de ceder diante de ameaças estratégicas.
Não se trata de uma “adesão incondicional à política de Trump, uma cegueira ideológica, uma suposição de que os Estados Unidos estão sempre certos”, nem de tentar blindar as decisões norte-americanas contra críticas. O escrutínio é parte essencial das democracias. Mas ele deve ser exercido com prudência histórica e consciência das limitações inerentes ao momento presente. Como lembrava Raymond Aron, as relações internacionais são o domínio da incerteza por excelência.
Em conflitos dessa natureza, “não se faz omelete sem quebrar ovos” — máxima desconfortável, mas realista. A questão decisiva, portanto, não é se há custos, mas quais custos estamos dispostos a aceitar — e quais riscos estamos dispostos a correr ao evitá-los.
Ao fim, a História costuma ser menos indulgente com os que julgam cedo demais do que com aqueles que souberam esperar. Em matéria de guerra, a prudência não é sinônimo de hesitação, mas de lucidez. E a lucidez, nesses casos, começa por reconhecer que o veredicto definitivo pertence, invariavelmente, ao tempo.
Lionel Zaclis
Formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e atuando nas áreas de Contencioso, Contratos, Direito Econômico e Empresarial, Lionel Zaclis é Especialista em Direito Processual Civil pela PUC/SP, Mestre e Doutor em Direito Processual pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, ex-Conselheiro do Instituto dos Advogados de São Paulo.







