PESQUISA APONTA O “NOVO NORMAL” DO ANTISSEMITISMO NO BRASIL: ALTA DE 149% E EXPLOSÃO NAS REDES

Relatório anual da CONIB aponta agravamento dos casos de ódio contra judeus em 2025, com aumento no tom e na intensidade das agressões observadas em ambientes digitais e off-line; Comunidade judaica do país esconde identidade, muda de escola e pesa o risco ao escolher universidade

Claudio Lottenberg, presidente da CONIB

Em março de 2025, um homem atravessava a faixa de pedestres em Joaçaba, cidade de 30 mil habitantes no interior de Santa Catarina, quando um carro tentou atropelá-lo. O homem usava quipá e uma camiseta com escritas em hebraico. Precisou pular para se salvar. No mesmo ano, um sacerdote de um colégio no Rio de Janeiro afirmou em discurso aos alunos que era necessário “se livrar dos judeus”, classificando-os como uma “raça violenta e suja”. Em novembro, um áudio de uma influenciadora digital viralizou nas redes: ela dizia que adoraria ver “sionistas em campos de concentração” e que, em um eventual governo seu, haveria “gulag e campo de concentração para judeus e sionistas”.

Os três episódios integram o Relatório Anual sobre Antissemitismo no Brasil 2025, divulgado nesta segunda-feira pela Confederação Israelita do Brasil (CONIB) em São Paulo. São parte das 989 ocorrências formalmente registradas ao longo do ano, que confirmam o que o documento chama de “novo normal”: o antissemitismo no Brasil não recuou depois do pico de mais de 1700 registros de ataques identificados em 2024. Estabilizou-se em um patamar 149% acima dos níveis de 2022, quando o volume era de 397 ocorrências.

O QUE A COMUNIDADE VIVE

Dentro da comunidade judaica, o clima mudou. A pesquisa intracomunitária da CONIB, conduzida com 1.427 judeus brasileiros, revela que 86% avaliam o antissemitismo como um problema grave ou existente no Brasil; 1.231 dos respondentes afirmam que o fenômeno cresceu muito desde outubro de 2023.

Os efeitos sobre o cotidiano são concretos. Trezentos e vinte (22%) respondentes já deixaram de se identificar como judeus em alguma situação por receio. Outros 250 afirmam já ter considerado fazer o mesmo. Novecentos e quarenta e cinco consideram que relatos de antissemitismo no campus pesam muito na escolha de onde estudar ou matricular os filhos. Seicentos e nove relatam ter sofrido discriminação em espaços online; 215, no ambiente de trabalho; 166, em escolas ou universidades.

Um dado específico resume o estado de alerta: 1 em cada 2 judeus diz se deparar com conteúdo antissemita nas redes todos os dias ou quase todos os dias. Apenas 2% afirmam nunca ter visto esse tipo de material.

Outro fato que acende o alerta em relação ao cenário do antissemitismo no Brasil afetou a própria produção do relatório, que se tornou alvo direto de ataques. Entre 6 e 9 de janeiro de 2026, o formulário da pesquisa intracomunitária da CONIB foi invadido por 150 acessos coordenados que usaram um campo aberto de comentários para inserir mensagens de ódio. Entre as frases registradas pelos invasores estavam “a CONIB devia ser incendiada com todos os judeus lá dentro” e “Holocausto? Deveria ter sido completo”. As evidências foram encaminhadas às autoridades competentes.

O DIGITAL COMO AMPLIFICADOR

As redes sociais concentram 80,9% das ocorrências registradas. O Instagram lidera, com 37,1% dos casos online. O monitoramento sistemático de menções identificou 115.970 conteúdos antissemitas em 6,43 milhões de mensagens rastreadas ao longo do ano. O alcance potencial estimado deste material é de 66 milhões de pessoas.

Um movimento preocupa os pesquisadores além dos números absolutos: a migração progressiva do conteúdo hostil para plataformas com menor capacidade de moderação, como Threads, TikTok e Discord. Em julho, o relatório documentou o recrutamento de adolescentes via Discord para uma facção neonazista chamada “Misanthropic Division”, cujo objetivo declarado era atacar sinagogas em São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

O relatório registra ainda um sinal específico sobre a natureza do problema: em setembro, um usuário do Twitter/X publicou uma convocação para incendiar sinagogas e expulsar judeus do Brasil. A postagem foi denunciada e encaminhada ao comitê jurídico da CONIB.

ESCOLA E TRABALHO VIRARAM CAMPOS DE EXCLUSÃO

Instituições de ensino foram apontadas por 1.058 respondentes como o principal espaço de manifestação do antissemitismo no Brasil, à frente das redes sociais e do ambiente político. Os relatos recolhidos pela pesquisa cobrem desde crianças xingadas no recreio até professores universitários que proferiram frases como “é necessário fazer um inseticida para acabar com a praga judia”.

Em uma escola pública de São Paulo, um aluno foi repetidamente agredido por colegas que se apresentavam como “apoiadores palestinos” e precisou mudar de colégio. Em outro caso, uma aluna de 15 anos encontrou uma suástica desenhada na própria carteira ao voltar do recreio, reclamou à direção por semanas e, sem resposta, também acabou saindo. Na Faculdade de Direito da USP, cartazes foram afixados nos corredores com a frase “Sionista não é professor”. Na UFRGS, um estudante compareceu à colação de grau com suástica desenhada no rosto.

Dos respondentes à pesquisa intercomunitária, 68% apontam o crescimento do antissionismo nas universidades como uma das principais ameaças à comunidade judaica nos próximos anos.

O antissemitismo também chega com força às empresas. Levantamento do grupo Executivos Contra o Antissemitismo (ECOA), incorporado na pesquisa, entrevistou 1.003 profissionais de diferentes cargos. Entre os judeus, 1 em cada 4 profissionais afirma que já ter sofrido alguma forma de clara antissemitismo na vida profissional. Considerando situações incômodas ou vexatórias, 52% afirmam já terem ouvido piadas sobre judeus no trabalho.

Além disso, a maior parte das situações não gerou reprimenda formal por parte das empresas, e apenas 15% das organizações pesquisadas possuem políticas explícitas de combate ao preconceito étnico-religioso.

O QUE A SOCIEDADE PENSA

Um dos dados mais perturbadores do relatório, contudo, não vem dos registros de incidentes. Vem de uma pesquisa de opinião pública realizada pelo AtlasIntel, encomendada pela entidade StandWithUs Brasil, com 1.812 brasileiros: três em cada dez brasileiros não se sentem totalmente à vontade para ter um amigo judeu.

Outro ponto destacado é que 42% consideram legítima a comparação entre o tratamento de Israel aos palestinos e o que os nazistas fizeram aos judeus. Estereótipos com séculos de história são classificados por parcelas expressivas da população como opiniões razoáveis, sendo que 29% consideram legítima a afirmação de que o povo judeu foi responsável pela morte de Jesus; 28% acham natural desconfiar de judeus por suposta lealdade a Israel; 37% entendem como plausível que judeus têm mais sucesso financeiro do que outras pessoas.

Para os pesquisadores, o problema central não é apenas que essas ideias existam. É que quem as reproduz, em grande parte, não as reconhece como preconceito. “O antissemitismo contemporâneo no Brasil se manifesta menos por hostilidade declarada e mais por uma combinação de desinformação histórica, permissividade diante de estereótipos antigos e baixo letramento sobre as formas que o ódio assume hoje”, conclui o relatório da CONIB.

O QUE O BRASIL NÃO SABE

Um segundo recorte, conduzido pelo Grupo ISPO com 7.762 entrevistados em onze regiões metropolitanas, oferece um dado que o relatório usa como chave explicativa para a permissividade social: 87,3% dos brasileiros nunca participaram de nenhuma atividade educativa sobre o Holocausto. Nenhuma palestra, nenhuma visita a museu. Apenas 53,2% conseguem definir o genocídio nazista corretamente.

O paradoxo é nítido: 64,4% dos entrevistados consideram fundamental que o Holocausto seja ensinado nas escolas. A valorização é quase unânime; o engajamento real é residual. Para os autores do relatório, é essa lacuna que permite que a comparação entre Israel e o nazismo circule como argumento aceitável em debates políticos e nas diferentes esferas sociais.

A RESPOSTA JURÍDICA

Mais de 45 advogados voluntários dedicaram mais de 2 mil horas ao departamento jurídico da CONIB em 2025. Desde outubro de 2023, ao menos 60 casos foram noticiados à polícia ou ao Ministério Público. Em média, uma condenação por antissemitismo foi registrada a cada três meses nos últimos dois anos.

O ano de 2025 teve um marco específico: o Supremo Tribunal Federal fixou o entendimento de que não cabe acordo de não persecução penal em casos de racismo contra judeus, em ação que contou com a atuação do time jurídico da CONIB. A decisão encerrou um ciclo de recursos de um advogado condenado por publicar, em suas redes sociais, textos que atribuíam aos judeus a responsabilidade por doenças como a Peste Negra e a Covid-19 e que descreviam o Holocausto como um evento fantasioso.


O Relatório Anual sobre Antissemitismo no Brasil 2025 é produzido pela CONIB em cooperação com as Federações e Associações Israelitas do país, StandWithUs Brasil, Museu do Holocausto de Curitiba, Memorial do Holocausto de São Paulo e o grupo ECOA.