O “NOVO NORMAL” EXIGE NOVAS RESPOSTAS: ENCONTRO DEBATE OS DESAFIOS DO ANTISSEMITISMO NA ATUALIDADE

O crescimento do antissemitismo no Brasil e no mundo, seus novos formatos e os desafios para a comunidade judaica estiveram no centro do encontro “O Novo Normal – Como o Antissemitismo está transformando a vida judaica no Brasil” realizado na Hebraica de São Paulo. Com apoio da CONIB, o evento reuniu especialistas, lideranças e representantes da comunidade para discutir como o ódio aos judeus vem se reinventando e quais caminhos podem fortalecer a resposta da sociedade diante desse cenário.

Na abertura, o presidente da Hebraica de São Paulo, Deyvid Arazi, deu as boas-vindas aos participantes e destacou a relevância do debate em um momento de grande preocupação para a comunidade judaica. O encontro teve mediação do comunicador Benjamin Back, participação dos painelistas Marina Gelman, Daniel Bialski, Andrea Vainer e Rony Vainzof, além da apresentação de Joana Zlot, Head de Comunicação da CONIB.

Ao longo do evento, os participantes analisaram a escalada de ataques contra judeus em diferentes países, atentados contra sinagogas na Europa, manifestações antissemitas nos Estados Unidos e episódios registrados também no Brasil. A conclusão compartilhada pelos palestrantes foi clara: o antissemitismo mudou de forma, ganhou novas narrativas e novos meios de disseminação, transformando também a maneira como a vida judaica é vivida. Compreender esse “novo normal” tornou-se o primeiro passo para enfrentá-lo.

Benjamin Back abriu o debate chamando atenção para o crescimento exponencial do antissemitismo nas redes sociais e para a dificuldade de responsabilizar as plataformas digitais diante da propagação do discurso de ódio. “Infelizmente esse novo normal vai ficar por muitos anos”, afirmou. Para ele, um dos maiores desafios está na educação das novas gerações. “É fundamental levar esses debates para as escolas, porque são os jovens que vão vivenciar essa realidade daqui para frente. Mas, e agora?”, questionou, provocando a reflexão sobre a necessidade de ações concretas.

Secretário da CONIB e especialista em Direito Digital, Proteção de Dados e Segurança Cibernética, Rony Vainzof destacou que o massacre promovido pelo Hamas em 7 de outubro de 2023 inaugurou não apenas uma guerra militar, mas também uma intensa guerra de desinformação. Segundo ele, a demonização de Israel passou a alimentar uma nova manifestação do antissemitismo, muitas vezes disfarçada sob o discurso do antissionismo.

“Desde o momento em que o Hamas praticou o maior atentado terrorista de sua história, já sabíamos o que aconteceria: Israel reagiria para resgatar seus reféns e o Hamas utilizaria essa resposta para demonizar o Estado judeu”, explicou. Vainzof traçou um paralelo histórico ao lembrar que o Holocausto também foi precedido por uma poderosa máquina de propaganda e desinformação. “O antissemitismo é um vírus que vai se transformando ao longo da história”, afirmou.

O secretário da CONIB também ressaltou o trabalho permanente de monitoramento das plataformas digitais, o incentivo às denúncias e a atuação jurídica da entidade. Lembrou ainda a participação da CONIB como amicus curiae no julgamento do Supremo Tribunal Federal que, em 2025, reafirmou a responsabilidade das plataformas digitais no combate ao discurso de ódio. “Hoje as plataformas têm um dever maior de combater conteúdos ilegais e discursos de ódio. Essa foi uma grande vitória para toda a sociedade”, destacou.

Diretora Jurídica da CONIB, a advogada criminalista Andrea Vainer apresentou um panorama do aumento expressivo das denúncias de antissemitismo recebidas pela instituição. Segundo ela, atualmente cerca de 50 advogados voluntários atuam na rede de apoio, além de uma estrutura jurídica profissional dedicada ao acompanhamento dos casos.

“Não existe nenhum caso de grande repercussão envolvendo antissemitismo em que a CONIB não tenha atuado”, afirmou. Andrea destacou, porém, que grande parte desse trabalho acontece de forma discreta. “Nem sempre podemos divulgar nossa atuação, porque muitos processos correm em segredo de Justiça ou exigem estratégias específicas junto às autoridades. Muitas vezes, nosso trabalho é silencioso, mas ele acontece.”

Também advogado criminalista, ex-vice-presidente e atual assessor da CONIB, Daniel Bialski enfatizou que a atuação da entidade vai além da defesa da comunidade judaica. “O trabalho da CONIB é incansável e importante não apenas para a comunidade, mas para toda a sociedade”, afirmou. Ele lembrou que muitos acreditavam que perseguições semelhantes às que antecederam o Holocausto jamais voltariam a ocorrer, mas os acontecimentos posteriores ao ataque de 7 de outubro mostraram como a manipulação da informação pode alterar rapidamente a percepção pública.

Bialski chamou atenção para um dado preocupante: 59% dos brasileiros acompanham o conflito no Oriente Médio principalmente pelas redes sociais. “Quando a principal fonte de informação são plataformas onde prevalecem opiniões e desinformação, precisamos redobrar os esforços em educação e conscientização”, observou.

Cofundadora do ECOA — Executivos Contra o Antissemitismo, iniciativa voltada à conscientização e ao enfrentamento do preconceito no ambiente corporativo, Marina Gelman compartilhou sua experiência mostrando como o antissemitismo também alcançou empresas e espaços profissionais. Ela ressaltou a importância do trabalho desenvolvido pela CONIB e destacou que o combate ao ódio passa necessariamente pela educação e pela comunicação responsável.

“As pessoas estão aprendendo por meio de opiniões, e não de fatos”, afirmou. Para Marina, compreender a linguagem de cada plataforma digital é essencial para que informações confiáveis também encontrem espaço. “Precisamos entender como cada ambiente se comunica para que nossas vozes também sejam ouvidas. Daí a importância de educar.”

Ao reunir especialistas de diferentes áreas, o encontro reforçou uma mensagem comum: enfrentar o antissemitismo exige vigilância permanente, educação, atuação jurídica, responsabilidade das plataformas digitais e o compromisso de toda a sociedade com a verdade e com a democracia. Mais do que compreender o “novo normal”, o desafio agora é impedir que o ódio seja normalizado e fortalecer, por meio da informação e do diálogo, uma cultura de respeito, pluralidade e convivência.

Texto: Celia Bensadon

Fotos: Abner Palma e Liane G. Zaidler