O BONDE DE EINSTEIN E A IMPOSSIBILIDADE DE RELATIVIZAR – POR PAULO ROSENBAUM
“Não somos capazes de produzir um conceito de tempo que seja ao mesmo tempo cosmológico, biológico, histórico e individual. “ – Paul Ricouer
O ano era 1905, Albert Einstein trabalhava no escritório de patentes em Berna. Enquanto circulava nos pontualíssimos bondes suíços ele fazia frequentemente o que se convencionou chamar de “gedankenexperimente”, ou “experimentos mentais”.
Inspirado no grande relógio da cidade conhecido como Zytglogge, teve um pequeno lampejo de uma ideia magnifica, segundo ele mesmo: “o pensamento mais feliz da minha vida”. Os fenômenos que ocorrem dentro do trem não são simultâneos para aqueles que não estão compartilhando a mesma velocidade. E foi assim que deduziu que o tempo era uma dimensão relativa. A relatividade do tempo-espaço começou sua longa e exitosa trajetória de sedimentação científica.
Longa sem dúvida. Exitosa? Talvez.
A simples ideia de colocar ideologias em perspectiva crítica tem sido considerada como uma ameaça insuportável. E é essa intolerância que nutre boa parte do erro conceitual vulgarmente nomeado como “polarização” e todas as suas tristes e empobrecedoras decorrências. A principal delas, a impossibilidade de uma interlocução que gere troca e deslocamento de perspectivas intelectuais. Ora, se a interlocução se encontra truncada pela fossilização voluntária, como é que partes divergentes podem entabular consensos mínimos? Como os embates podem concorrer para, ao fim e ao cabo, encontrar fusão de horizontes? Como, afinal, podemos voltar a sentar e conversar de fato com pessoas que discordam do que pensamos?
Quando as posições se tornam puro antagonismo, prevalece o mutismo que gera paralisia. E isso tem um nome científico: esclerose. Ela significa o endurecimento e a calcificação, um processo que cristaliza e torna tudo menos flexível. Basta observar o panorama para deduzir que é disso que se trata. O debate se somos ou não binários deveria ser irrelevante, mas parece que prevalece o desejo de permanecer em uma postura que se encontra em um campo de oposição no embate estéril, seja na política, na ética, nas artes, nos grandes temas sociais.
Embate, não debate.
E é dessa nociva refratariedade à interlocução que sobrevive o populismo. O oportunismo viceja sob teses conspiratórias e com o subsídio da desinformação consentida.
Não se trata apenas de um plano que emerge daqueles que se encontram no poder e instrumentalizam a sociedade. Neste caso, seria até simples expor a farsa. Há, nas sociedades, um desejo por antagonismo. É um gênero de pulsão dirigido a contrariar, uma reminiscência do desejo infantil de oposição, ora à autoridade parental e ao “sistema”, ora aos valores acordados nos contratos sociais.
É aconselhável prestar mais atenção a esse impulso, pois é através dele que podemos testemunhar um fenômeno mundial: o afastamento do centro político. Tal afastamento do centro repercute na desejável equidistância analítica; isso é, reforça o desejo inconsciente de alinhar-se às posições extremas.
Isso dificulta muito a tarefa de relativizar, de buscar uma solução maiêutica para os problemas contemporâneos. Isso impede, sobretudo, de que se levantem novas dúvidas. A volta ao desejo por dogmas, o apreço por aporias, e a abundância de posturas peremptórias denotam isso. E a interlocução com máquinas, mesmo com aquelas que supostamente aprendem, não nos ajuda muito: os algoritmos foram elaborados para seduzir, alinhar e segmentar a sociedade.
Ou seja, a sociedade, por motivos que merecem permanente análise, encontra conforto e saciedade em manter-se fiel às torcidas de time único, quando, na realidade, a complexidade da vida moderna torna essa escolha um grande equívoco. Notem que, até aqui, consegui evitar usar, propositalmente, os termos “esquerda” e “direita”. Por quê? Porque eles são desnecessários e até nocivos para apontar o non sense da situação.
Voltando ao bonde de Einstein, o que ele percebeu simbolicamente foi que pode ser importante imaginar e prestar atenção à realidade de um outro ponto de vista. Há sempre uma escolha hermenêutica no ato de analisar, e é sempre salutar poder mudar a forma de como interpretamos os fenômenos, e isso, para desespero dos adeptos do tecno cientificismo, desafia a famosa imortalidade cientifica dos fatos. Ou seja, é a imaginação posta à prova. Assimilar o que a experiencia ensina é a única forma de evitar as tentações totalitárias que parecem estar ressurgindo e passando à fase de consumo.
Depende, portanto, de quem vê, depende de quem observa, de onde se observa, das circunstâncias e do contexto. Não é fortuito que a tradição oral judaica valorize tanto o Talmud, livro historicamente tão perseguido quanto os judeus. Ele é, basicamente, um livro de conjecturas e perguntas sem respostas definitivas. O que parece ser um incomodo revela-se a essência do conhecimento: desperta a curiosidade, realça o contraintuitivo, identifica onde estão nossos vícios de análise e de informação, e finalmente desafia a nossa curiosidade. Não é fortuito que o Talmud tenha sido um dos livros preferidos para busca, apreensão e incineração mundo afora, com especial ênfase durante a Inquisição espanhola.
A impossibilidade de relativizar decorre, portanto, de uma catastrófica sucessão de erros que permitem que o ideológico triunfe sobre a razão, e se sobreponha ao mundo empírico. É assim que as torcidas organizadas acabam adquirindo mais peso do que a própria partida, desestruturando, então, a importância do próprio jogo e de suas regras.
Outro efeito colateral secundário das certezas raivosas foi ter turvado a clareza moral. E isso pode ser facilmente demonstrado quando boa parte dos dois lados do espectro político passou a apoiar o terror e a violência como metodologias legitimas, normatizando simultaneamente a reemergência do racismo contra judeus, o sectarismo, e o surto de intolerância indiscriminada contra minorias.
Precisamos imitar Albert e nos exercitar mais nos experimentos mentais imaginários: quais outros pontos cegos seriam a nós revelados? Quanto essa auto-observação mudaria nossas perspectivas? A vitória só estaria garantida se e quando atingirmos o mérito do entendimento, e o grande campeão seria o pensamento crítico, aquele que jamais se alinha automaticamente a nada, nem a ninguém.
O relógio de Einstein está vivo e operante, a missão de cada um é aprender a ajustar os ponteiros. Em tempo: cada segundo conta.
PAULO ROSENBAUM
Paulo Rosenbaum nasceu em São Paulo em 1959. É médico e escritor. Possui Mestrado em Medicina Preventiva, Doutorado em Ciências e Pós-doutorado em Medicina Preventiva pela USP, com mais de uma dezena de livros publicados na área. Escreve, regularmente, para o jornal Estado de São Paulo, no blog “Conto de notícia”. Roteirista e produtor de documentários, atuou como editor de revistas científicas no campo da saúde. É pesquisador na área de clínica médica, semiologia clínica, relação médico-paciente, prevenção e promoção da saúde e pesquisa de medicamentos. Além de ensaísta, é poeta, contista e romancista. Antes de Navalhas pendentes, publicou os romances: A verdade lançada ao solo (Record, 2010) e Céu subterrâneo (Perspectiva, 2016).









