MARINA NASSER, ARTISTA PLÁSTICA – POR GLORINHA COHEN

Ela já expôs no Brasil e na Europa, detém medalhas de prata e de bronze da Associação Paulista de Belas Artes e começou a pintar aos 9 anos. Com parte da formação na School of the Museum of Fine Arts de Boston, nos Estados Unidos, é na arte que a artista plástica Marina Nasser dialoga com a vida e o mundo ao redor.

Filha da escultora Daisy Nasser, Marina cresceu em um ambiente cercado por arte, mas desenvolveu uma linguagem própria, marcada por cores de grande intensidade, formas orgânicas e um ritmo quase musical. Em seus trabalhos, bolas, bolhas e contornos se organizam como um texto visual, onde a alegria, a memória e a introspecção se encontram.

Nesta entrevista, Marina fala sobre processo criativo, sonhos, desafios e como a arte pode nos ajudar a navegar nesse tumultuado mar que é a vida.


GC – Você começou a pintar aos 9 anos de idade. Qual é a sua primeira lembrança de perceber que a pintura poderia ser mais do que uma brincadeira e que você queria se expressar por meio da arte?

MN – A Arte é uma brincadeira levada a sério. Minha primeira lembrança foi que a pintura era mais do que uma brincadeira e que eu queria me expressar com profundidade. Brincar permite experimentar, imaginar, errar misturar cores, materiais e ideias sem precisar saber exatamente onde se vai chegar. Deixo a curiosidade conduzir o processo. Transformo o ato de criar em descoberta e surpresa.

GC – Você estudou na School of the Museum of Fine Arts, em Boston. Como você foi aceita e o que essa experiência nos Estados Unidos acrescentou à sua formação e, principalmente, o que mudou no seu olhar sobre cor, composição e criação?

MN – Fui aceita pintando duas telas gigantescas e mandando para lá. Tive a oportunidade de desenhar, pintar, esculpir, fazer gravuras, etc. , onde ampliei meu olhar sobre as cores que despertaram sensações, contrastes e emoções. Na composição organizar as formas, espaços e linhas elementos que conversam entre si. A criação é uma surpresa: experimentar, transformar uma ideia e descobrir algo novo e permitir que a imaginação descubra novos caminhos.

GC – Como os alunos e professores viam seu trabalho na faculdade de arte?

MN – Quando eu desenhava atraia rodas de gente. Despertava atenção pelas minhas ideias e pela forma como transformava conceitos em obras e assim admiravam meu processo criativo.

GC – Ser filha da escultora Daisy Nasser significa ter crescido muito próxima do universo artístico. Essa convivência funcionou como inspiração, incentivo ou também trouxe o desafio de encontrar uma identidade própria?

MN – Ser a filha da escultora Daisy Nasser me ajudou a ter a minha primeira convivência com arte. Tivemos trocas bastante ricas. Eu a ajudei a olhar para suas obras com outros olhares, muitas vezes mostrando a ela os ângulos diferentes. Me inspirei e me incentivou a seguir minha trajetória .

GC – Seu trabalho é frequentemente associado a uma espécie de musicalidade, principalmente pelo ritmo das formas e das cores. Como acontece seu processo criativo? Uma pintura começa geralmente por uma cor, uma forma, uma lembrança ou uma emoção?

MN – Meu processo criativo nasce como uma música: visual, ritmo, pausa, harmonia, repetição e movimento. Pinto como quem escuta: deixando a intuição conduzir a dança das cores sobre a tela.

Minha pesquisa visual nasce da observação do cotidiano e da busca por transformar materiais simples em experiências visuais significativas. Em minhas obras, utilizo colagens, texturas e elementos como os grãos de café, que carregam memórias, aromas e referências culturais. Seleciono cuidadosamente os materiais, experimentando composições, formas e contrastes na permanente exploração das relações entre matéria, cor e significados.

GC – Bolas, bolhas e contornos orgânicos aparecem com frequência em suas obras. O que essas formas representam para você? Existe algum significado pessoal por trás delas?

MN – As bolas alegria e brincadeiras, harmonia e equilíbrio. Os contornos são as linhas que delimitam dão identidade as formas. Bolhas traz a leveza e movimento ,memórias, sonhos e imaginação.

GC – Você já descreveu sua pintura como um diálogo entre sua vida e o mundo ao seu redor. Existe alguma obra específica que represente particularmente bem esse diálogo?

MN – Cada obra reflete um diálogo profundo entre minha vida e o mundo lá fora. Através da reflexão e da introspecção exploro temas que moldam minha identidade. Cada quadro é uma oportunidade para o expectador se conectar com suas próprias emoções e histórias, criando um espaço de descobertas e significados. Meu objetivo é deixar um legado que inspire e provoque, permitindo que a arte seja um meio de navegação em nossas vidas.

GC – Você já participou de exposições no Brasil, na França e na Alemanha. Como é apresentar seu trabalho em diferentes países? O olhar do público estrangeiro provoca alguma mudança ou reflexão sobre a sua própria arte?

MN – Sim acredito que os estrangeiros, dependendo de sua nacionalidade, enxerga a arte de forma mais ligada à experiência e à interpretação pessoal.

GC – Em uma carreira artística, criar é apenas uma parte do caminho. Há também divulgação, exposição, comercialização e a necessidade de construir um público. Qual é hoje o maior desafio para você como artista no Brasil?

MN – É encontrar um equilíbrio entre aquilo que o público deseja e aquilo que eu, como artista, preciso expressar. Quero que minha obra tenha liberdade, verdade. O meu desafio é continuar estudando e me reinventando.

GC – Olhando para os próximos anos, onde você gostaria de ver sua arte chegar? Existe algum museu, cidade, país ou espaço cultural onde sonha apresentar seu trabalho?

MN – Gostaria que minhas obras viajassem o mundo e encontrassem novos públicos. Para mim a arte não tem fronteiras. Vamos começar em São Paulo no Itaú Cultural e Museu de Arte Moderna. Depois New York no Guggenheim Museu e o MoMa, e em Paris no Centre Pompidou.

GC – Para finalizar: existe algum projeto, exposição ou sonho artístico que ainda não realizou e que gostaria muito de concretizar?

MN – Realizar um projeto onde o visitante escreva pequenas frases sobre sonhos, lembranças e desejos.