ARIEL EL KOBBI: EXPERT EM NUTRIÇÃO E COMPORTAMENTO ALIMENTAR – POR GLORINHA COHEN

“O que mais vejo é perda da consciência alimentar. A pessoa come sem perceber quanto ou como comeu e perde também o aspecto social e afetivo da refeição, que ajuda a regular a relação com a comida. O momento da refeição deve ser um momento de troca e isso é extremamente benéfico para diversos parâmetros, como já foi apontado por vários estudos.”

Comer deveria ser prazer, mas virou medo, culpa e confusão. É para desmontar esse “terrorismo nutricional” que Ariel El Kobbi, expert em nutrição e comportamento alimentar, hoje trabalha.

Formado pela UNICAMP, pós-graduado em Doenças Crônicas Não Transmissíveis pelo Hospital Israelita Albert Einstein e aprimorado em transtornos alimentares pelo AMBULIM – o centro especializado do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, Ariel fala sobre a abordagem humana e menos neurótica da nutrição, sobre o resgate da refeição em família, individualidade, crenças e costumes ligados ao peso, e como construir uma mudança saudável de forma sustentável e prazerosa.

Uma conversa necessária para quem quer fazer as pazes com a comida.


GC – Você é formado pela UNICAMP, pós-graduado em Doenças Crônicas Não Transmissíveis pelo Hospital Albert Einstein e aprimorado em transtornos alimentares pelo AMBULIM do HC-FMUSP. Como você chegou a essa área de transtornos alimentares?

AK – Sempre tive um grande interesse pela psicologia e pela psiquiatria. Dentro desse campo, os transtornos alimentares se tornaram um ponto de encontro natural entre esse interesse e a alimentação, a grande paixão de todo nutricionista. Foi ali que enxerguei a possibilidade de atuar de forma muito protagonista no tratamento e entendi que escutar e compreender verdadeiramente o paciente são peças-chave para o sucesso desse trabalho.

GC – Você trabalha hoje no PROMUD, no Ambulatório de Bulimia e no Geatha, grupo de transtornos alimentares para homens do HC, voltado para infância e adolescência. O que mais mudou na sua forma de olhar para a nutrição depois de trabalhar dentro de um hospital psiquiátrico?

AK – Mudou completamente a forma como vejo a nutrição, por três motivos principais. Primeiro, pelo aprendizado multiprofissional que só um hospital proporciona, atuar exclusivamente em consultório é uma prática muito mais solitária. Segundo, pela gravidade dos casos com que tive contato: o HC é referência sul-americana no tratamento de inúmeras doenças, especialmente na área psiquiátrica, e isso me deu bagagem e segurança para lidar com casos desafiadores. E terceiro, me proporcionou um olhar mais atento a uma população historicamente maltratada e menosprezada, a de pacientes psiquiátricos e a forma como esse olhar vem mudando, cada vez mais, para melhor.

GC – Você fala muito sobre “terrorismo nutricional” e sobre como as pessoas estão com medo de comer. De onde vem esse medo na sua opinião?

AK – Vem de um excesso de informação contraditória e alarmista hoje principalmente através das redes, que transformam comida em ameaça. Isso gera ansiedade e desconfiança até do próprio corpo, as pessoas param de comer por prazer e passam a comer com medo de errar. O comer envolve muito mais do que somente os nutrientes que estão no prato, é sobre cultura, afeto, tradições, além de toda parte biológica para um bom funcionamento do corpo.

GC – No seu site você defende uma abordagem “mais humana e menos neurótica” sobre a alimentação. Como isso funciona na prática no consultório?

AK – Na prática: menos listas de proibições, mais escuta do contexto de vida da pessoa. Ajusto o plano à rotina real dela, não o contrário, muitas vezes os pacientes chegam desesperados por uma dieta e aos poucos eles vão entendendo que nosso trabalho tem muito mais a ver com um processo de autoconhecimento do que com alguma tabela matemática, validar que prazer e flexibilidade fazem parte de uma alimentação saudável, temos que ressignificar a ideia de que o saudável não pode ser gostoso e vice versa.

GC – Hoje valores como a refeição em família estão sendo trocados por refeições rápidas e solitárias na frente de telas. Qual o impacto disso que você mais observa nos seus pacientes?

AK – O que mais vejo é perda da consciência alimentar. A pessoa come sem perceber quanto ou como comeu e perde também o aspecto social e afetivo da refeição, que ajuda a regular a relação com a comida. O momento da refeição deve ser um momento de troca e isso é extremamente benéfico para diversos parâmetros, como já foi apontado por vários estudos. Inclusive, quando olhamos no guia alimentar da população brasileira a gente percebe que comer em companhia deve ser fortemente estimulado assim como buscar a reconexão com os sinais fisiológicos como por exemplo fome e saciedade.

GC – Ideais de beleza inalcançáveis têm aumentado a insatisfação corporal. Como você trabalha com o paciente a relação entre imagem corporal e alimentação, sem cair na armadilha da dieta restritiva?

AK – Trabalho separando “mudar hábitos” de “perseguir um corpo ideal”. O foco vai para funcionalidade e bem-estar, não estética, e questiono junto com o paciente de onde vêm os padrões que ele persegue. Hoje em dia as pessoas confundem muito saúde com estar magro, você pode muito bem emagrecer de formas nada saudáveis e isso não significa que vai ser bom, talvez a conta vai chegar mais pra frente.

GC – Para quem trabalha com emagrecimento, veganismo, gestação e reeducação alimentar, como você adapta o plano alimentar respeitando as crenças, costumes e a história de cada pessoa?

AK – Não existe plano padrão. Ouço a história alimentar, crenças e limitações de cada pessoa antes de montar qualquer coisa; o plano tem que caber na vida dela, não o contrário. A ideia é justamente ir construindo esse plano junto com o paciente.

GC – Quando você recebe alguém pela primeira vez, o que é mais importante nessa fase de acolhimento e escuta?

AK – O mais importante é a escuta sem julgamento, entender a relação da pessoa com a comida antes de qualquer intervenção técnica.

GC – Quais são os sinais de alerta que familiares devem observar quando a relação de alguém com a comida começa a se tornar problemática?

AK – Muitos comportamentos disfuncionais vem sendo cada vez mais normalizados na nossa sociedade e isto é muito perigoso. Não é normal sentir culpa ao comer, pular refeição ou excluir algum grupo alimentar por completo. Além disso, é sempre importante observar isolamento nas refeições, rituais rígidos com comida, mudanças bruscas de peso, evitar comer em público e comentários recorrentes sobre corpo/peso.

GC – O que seria, para você, uma alimentação saudável de forma sustentável e prazerosa, longe das modas e das proibições?

AK – É aquela que cabe na vida real da pessoa, sem culpa, com prazer e flexibilidade, não a que segue moda, mas a que se sustenta a longo prazo. Importante perceber que nosso corpo é o veículo para que a gente consiga fazer todas as coisas que amamos. Então, devemos cuidar e respeitá-lo. Se para você atingir o seu corpo dos sonhos sua vida tem que virar um inferno, talvez esse não seja o melhor funcionamento pro seu corpo. Temos corpos plurais e tentar encaixar todos em uma mesma caixinha é impossível e doloroso.