CÔRACH NO DIVÃ – RABINO SIMON JACOBSON

Cada um de nós não está apto a acessar D’us e nossa própria espiritualidade interior?

Na porção da Torá, Côrach lidera um motim contra Moshê. Final da história: ele se prova errado e a terra engole a ele e aos seus companheiros de revolta.

Por que um castigo tão estranho? Não há outra maneira de penalizá-los? Na verdade, lemos que a “boca da terra” que consumiu Côrach foi criada no princípio do tempo! (ao final dos seis dias de Criação, na sexta-feira ao crepúsculo).

O que torna a “boca da terra” tão importante que teve de ser formada no início do Gênesis – esperando milhares de anos para o dia em que se abriria para “receber” Côrach e seus comparsas!

Côrach não chegou num vácuo. Vamos nos colocar no lugar dele. Como um homem arguto ele estava obviamente seguindo de perto as discussões (debates) e eventos que se apresentavam perante ele. Primeiro ouviu que o povo exigia carne. Eles estavam questionando a possibilidade de integrar a Divindade e o mundo material. Então Côrach ouviu atentamente a resposta de D’us – a revelação de atzilut, que aproximaria os dois mundos de espírito e matéria, do Divino e do humano.

Côrach então testemunhou o pecado dos espiões, que desafiaram a própria noção de conseguir conquistar uma ‘terra que consome seus habitantes”. O materialismo é simplesmente forte demais para nós, argumentaram eles. Côrach viu como eles foram severamente punidos por desafiar o próprio objetivo da existência – fazer uma morada para D’us neste mundo inferior, no mundo da matéria bruta. Portanto agora o palco está montado. Eis aqui uma reencenação do argumento de Côrach:

Côrach: OK, sabemos agora que não podemos evitar o mundo material. Pelo contrário, devemos nos engajar nele e transformá-lo. Não podemos fugir para a espiritualidade. Dentro do universo material está imbuída a mais profunda energia espiritual e o mais alto nível da Divina Essência. Na verdade, o próprio D’us desejou uma morada neste mundo.

Então como canalizamos esta poderosa energia Divina em “carne” e matéria bruta? Que opções temos? Vejamos: Não podemos permanecer trancados e isolados em sinagogas e outros oásis espirituais. Não podemos confiar somente na prece a D’us. Ele insistiu em que devemos entrar no universo e usar nossas próprias faculdades.

O que mais falta fazer?

Devemos – gostemos ou não – imergir no mundo material e dar tudo de nós. Então Côrach argumentou: Por que vocês – Moshê e Aharon – se elevaram acima do restante de nós? A nação inteira não é sagrada? Cada um de nós não está apto a acessar D’us e nossa própria espiritualidade interior para conectar-se com D’us?

Bom argumento este, Sr. Côrach. Ele simplesmente extraiu uma conclusão lógica dos eventos que tinha acabado de testemunhar. Se D’us tivesse dito ao povo: “Não, vocês não podem ter carne”, ou se D’us tivesse de alguma forma reconhecido que os espiões tinham razão quando disseram que não podemos entrar “numa terra que consome seus habitantes”, então Côrach não teria apresentado seu argumento. Porém ele viu claramente que D’us deseja que mergulhemos no mundo material, portanto ele deu o próximo passo lógico, ou seja: podemos e devemos seguir as ordens de D’us e continuar com a vida, porque todos temos o poder de fazê-lo. Exatamente o argumento oposto ao dos espiões.

O mero fato de que você exerce liderança – Côrach argumenta a Moshê – demonstra que nem toda pessoa tem a necessária santidade e poder para transformar o universo. Isso vai contra os eventos que acabamos de viver com a “carne” e as histórias dos espiões.

Qual foi o erro de Côrach?

Sim, precisamos de carne, precisamos do mundo material. Ahh, mas a carne precisa vir de Moshê. E Atzilut, o mundo da Emanação, não significa que os mundos inferiores (até o estágio ainda mais baixo de Asiyah) são Divinos. Isso significa que os mundos inferiores poderiam se tornar Divinos se eles permitissem que a Atzilut os conectasse ao Divino.

O que ele aparentemente não ouviu com atenção foi sobre a consequência de ser indulgente com o consumo de carne, o que terminou por engasgar os consumidores. Ou talvez Côrach tenha sentido que “sabia” como superar o desafio. Ele também deixou de entender o argumento de Caleb e Yehoshua, que não foram seduzidos pelos argumentos dos “espiões” porque estavam conectados com o alto – com Moshê e a D’us.

Isso explica o bizarro castigo de serem engolidos pela terra. Ok, você acha que pode conquistar uma “terra que consome seus habitantes” sem a conexão consciente com Atzilut. Olhe o que aconteceu a eles: a própria terra que vocês queriam conquistar termina consumindo-os, exatamente como os espiões tinham previsto. Os espiões estavam errados porque em vez de acreditar na promessa de D’us, eles preferiram questionar toda a premissa de conquistar o material, e se acovardaram com medo da possibilidade. Porém Côrach estava igualmente errado porque foi arrogante em sua confiança de ser capaz de prosseguir no mundo sem a conexão com um Rebe, a Atzilut.

E de fato, desde o início do Gênesis, a terra foi dotada com este poder e mensagem, como se para nos lembrar para sempre: “D’us enviou você para a terra para transformá-la numa morada Divina. Mas jamais, jamais se esqueça dos abismos da terra material, das dificuldades e crueldades da solidão existencial. Jamais se esqueça o quanto você é vulnerável à sedução dos desejos materiais como resultado da ocultação de D’us na terra. Não sucumba à ilusão prometida pelas tentações e prazeres deste mundo. Transforme-o, mas nunca, nunca se junte a ele. Desde o princípio do tempo carrego dentro de mim – nos diz a terra – o poder de consumir você instantaneamente, se cometer este grave erro.

Portanto, nesta tríade de eventos, Côrach esclarece para nós mais uma dimensão da Atzilut e sua importância em nossa vida. A Atzilut serve como mediador entre céu e terra, entre o Divino e o humano. Os espiões erraram ao inclinar-se demais para o lado Divino e desprezar a dimensão “terrena”; Côrach errou optando pelo “terreno” e perdendo contato com o Divino, por fim resultando em ser consumido pela própria terra na qual ele imergiu.

O desafio de Côrach é o nosso próprio desafio atualmente: as mortalhas da nossa existência material nos farão perder de vista a Atzilut interior?

Este desafio é especialmente aplicado a pessoas que se engalfinham com Guimel Tamuz: este dia de Guimel Tamuz será visto como um dia em que a Atzilut foi desconectada de nós (D’us não o permita!), ou nos desafiará a cavar mais fundo e encontrar Atzilut em maneiras mais profundas e novas.

A mensagem de Côrach é que Atzilut jamais pode ser desconectada; somente nós podemos nos tornar desligados, ou mais corretamente, sentir-nos sendo desconectados, quando na verdade ela está sempre conectada em nós e nós nela. Nosso desafio é reconhecer e ratificar esta conexão, e então revelá-la e agir sobre ela.

Rabino Simon Jacobson é autor do campeão de vendas Rumo a Uma Vida Significativa: A Sabedoria do Rebe (William Morrow, 1995), e fundador e diretor do Meaningful Life Center.

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