DINAH FELDMAN: A ARTE DE CATIVAR COM PALAVRAS E UM TALENTO IMENSURÁVEL – POR GLORINHA COHEN

No palco do Teatro Moise Safra e até o dia 30 de setembro, está em cartaz *”Mazal Tov – Quando a Vida Sorri”*, espetáculo estrelado por Dinah Feldman, atriz, narradora de histórias, produtora cultural e jornalista, e que traz também no elenco Otávio Martins, João Baldasserini, Giovana Yedid, Gabriel Brener e Thay Bergamin. A peça conta o encontro transformador entre uma jovem estudante e uma família judaica ortodoxa na Antuérpia dos anos 90. Uma história sobre identidade, pertencimento, fé, amor e, sobretudo, sobre a potência do diálogo quando mundos tão diferentes se encontram.

E se você ainda não conhece Dinah Feldman, prepare-se para se apaixonar. Dinah é daquelas artistas multifacetadas que iluminam tudo onde chegam e nesta entrevista especial, que está imperdível, ela fala sobre teatro, judaísmo e sua trajetória profissional pelos mais diversos palcos da cultura.


Ao longo de mais de duas décadas de trajetória, Dinah Feldman construiu uma pesquisa artística que aproxima teatro, narração oral, literatura e memória, entendendo a arte como um espaço de encontro, escuta e transmissão de histórias.

GC – Você é atriz, narradora de histórias, produtora, arte-educadora e jornalista, com formação no Teatro Escola Macunaíma, na École Philippe Gaulier (Londres/Paris) e na PUC-SP. Como essas três áreas se encontram no seu trabalho hoje e qual delas você prefere?

DF – Há alguns anos ouvi uma diretora americana dizer que uma trajetória artística se sustenta sobre um tripé: estudo, prática e ensino. Essa ideia nunca mais me deixou. Para exercer o meu ofício de atriz, o estudo sempre foi indispensável. O jornalismo me deu ferramentas de pesquisa, senso crítico e uma forma de olhar para o mundo que continuam presentes em tudo o que faço. A arte-educação me ensinou que compartilhar conhecimento também é uma forma de aprender, porque toda vez que transmitimos uma experiência somos obrigados a revisitá-la. E a produção foi o caminho que encontrei para fazer a atriz existir, criando condições para que projetos autorais saíssem do papel e encontrassem o público. Hoje percebo que essas áreas não competem entre si; elas se alimentam mutuamente. Não consigo separar a atriz da pesquisadora, da educadora, da produtora ou da jornalista. Cada uma amplia a outra e faz com que o meu trabalho tenha mais profundidade e alcance. Se eu tivesse que escolher apenas uma, escolheria o teatro. É nele que todas essas experiências se encontram. As outras funções existem porque desejo contar histórias e criar encontros através da arte. O palco continua sendo o lugar para onde tudo converge.

GC – Desde 2006 você se dedica à arte de narrar histórias e já representou o Brasil em festivais internacionais, como o Yeleen, em Burkina Faso, e na Colômbia. O que a contação de histórias te ensinou que o teatro tradicional não tinha te ensinado?

DF – Quando comecei a contar histórias, imaginava que estava apenas explorando uma outra forma de fazer teatro. Ainda não compreendia a dimensão dessa arte ancestral. Foi em 2010, ao encontrar narradores de diversas partes do mundo, que minha percepção se transformou profundamente. Passei a entender que a narração oral possui uma linguagem própria, uma tradição milenar e um modo muito particular de estabelecer vínculos entre quem conta e quem escuta. Percebi também que muitos dos grandes mestres do teatro beberam dessa mesma fonte. A narração de histórias nos lembra que, antes de qualquer técnica, existe o encontro humano. Uma história não acontece apenas porque alguém a conta; ela acontece no espaço criado entre o narrador e quem está disposto a escutar. Esse contato também me fez compreender que não existe uma arte “pura”. As linguagens dialogam entre si, se contaminam e se enriquecem mutuamente. O teatro alimenta a narração, que alimenta a atuação, que dialoga com a literatura, com a música, com a memória e com tantas outras formas de expressão. Cada artista encontra sua própria maneira de atravessar essas fronteiras. A narração de histórias me aproximou da força da palavra. Descobri um amor profundo pela sonoridade das línguas, pelo ritmo das frases e pelo poder que uma boa história tem de criar comunidade, mesmo entre pessoas que nunca se viram antes. Hoje percebo que contar histórias é muito mais do que transmitir uma narrativa. É oferecer presença. É permitir que uma história continue viva cada vez que encontra novos ouvintes. Seja em um palco, numa escola, numa roda de histórias ou diante de uma câmera, continuo movida pelo mesmo desejo: compartilhar histórias que façam sentido para quem as escuta e que, de alguma forma, também me transformem enquanto as conto.

GC – . Você fez estágio no Théâtre du Soleil, em Paris, e com o mestre Sotigui Kouyaté. Qual aprendizado desses encontros você carrega até hoje para o palco?

DF – Ter convivido, ainda muito jovem, com artistas que dedicaram a vida inteira ao seu ofício foi um privilégio que ajudou a moldar a minha maneira de compreender o teatro. Acho que esses encontros pavimentaram um caminho que continuo percorrendo até hoje. O Théâtre du Soleil sempre foi uma referência para mim, não apenas pela excelência dos espetáculos, mas pela forma como entende a criação artística: uma pesquisa permanente, construída com rigor, estudo, tempo e trabalho coletivo. Ali compreendi que um grande espetáculo não nasce de um momento de inspiração, mas de um compromisso cotidiano com o fazer artístico. Existe uma disciplina silenciosa, uma dedicação quase artesanal, que raramente aparece para quem está na plateia, mas que sustenta tudo o que vemos em cena. Essa compreensão me acompanha desde então. O glamour costuma ocupar muito espaço no imaginário sobre a profissão, mas a realidade é feita de estudo, ensaio, escuta, reescrita, tentativa e persistência. É esse trabalho diário que torna possível a arte. Já Sotigui Kouyaté representava outra dimensão desse aprendizado. Era um homem cuja presença impressionava antes mesmo de qualquer palavra. Parecia carregar no próprio corpo a memória de uma tradição ancestral. Havia uma sabedoria serena na forma como ocupava o espaço, como falava e, sobretudo, como escutava. Os encontros nos transformam de maneiras que nem sempre conseguimos explicar. Tenho certeza de que carrego muito mais desses mestres do que consigo nomear conscientemente. Eles seguem presentes na forma como penso o teatro, como me relaciono com a palavra e como procuro estar disponível para o outro em cena.

GC – Você idealizou e produziu espetáculos como O Vazio na Mala, Outono, Inverno, Yentl, a Menina que Queria Estudar, Nina e Réquiem, com indicações a prêmios como Shell, APCA e Bibi Ferreira. Como nasce um projeto para você? Primeiro vem o tema, o texto ou a necessidade de dizer algo?

DF – Cada projeto nasce de um jeito. Não existe uma fórmula. Às vezes é um texto que me encontra; outras vezes é um personagem que insiste em permanecer comigo. Em alguns casos, é uma pergunta que ainda não sei responder. Em outros, simplesmente uma intuição. Mas existe um ponto em comum entre todos eles: preciso sentir que aquela história me transforma antes mesmo de chegar ao público. Nunca escolho um projeto apenas porque é um bom texto. Preciso perceber que existe ali uma necessidade de colocá-lo em diálogo com o nosso tempo. Sempre fui apaixonada pela dramaturgia e pelo teatro de texto. Interesso-me especialmente por personagens complexos, pelas relações familiares — que, no fundo, sempre falam da condição humana — e pelas narrativas que colocam o universo feminino em perspectiva. Nos últimos anos, minha identidade judaica também passou a ocupar um lugar mais consciente nas minhas escolhas artísticas, não como um tema obrigatório, mas como parte da minha própria experiência de mundo. Quando morei na Europa, me aproximei profundamente da obra de Anton Tchekhov. Foi esse encantamento que me levou a montar Nina e Réquiem, textos contemporâneos que dialogam com o universo tchekhoviano. Yentl nasceu de um sonho antigo. Eu já havia dançado a história na adolescência e sempre desejei levá-la ao teatro, movida pelo desejo de colocar a literatura de Isaac Bashevis Singer em cena. Outono, Inverno foi um presente inesperado: a oportunidade de revisitar um texto belíssimo ao lado da minha mestra Denise Weinberg. Já O Vazio na Mala surgiu de um lugar completamente diferente. Pela primeira vez, um espetáculo começou por um objeto. Uma mala antiga carregava uma história que eu ainda desconhecia por inteiro, mas intuía que havia ali um teatro possível. Aos poucos, aquela intuição tornou-se pesquisa, dramaturgia, espetáculo e, finalmente, um encontro muito emocionante com o público. Olhando para trás, percebo que todos esses projetos nasceram de formas distintas. O que permanece é a curiosidade. Gosto de histórias que continuam me fazendo perguntas mesmo depois da estreia. Talvez seja esse o principal motivo para levá-las ao palco.

 

GC – Em O Vazio na Mala e Yentl, você traz temas fortes ligados à memória judaica, identidade e pertencimento. Qual é o seu critério para escolher uma história que merece ser contada?

DF – Existe uma frase de Mazal Tov que me acompanha desde que começamos a montar o espetáculo. Em determinado momento, a personagem Margot pergunta: “Quanto uma pessoa deve ao jovem que foi um dia?” E ela mesma responde: “Tudo”.  Acho que essa resposta também fala de mim. Comecei a fazer teatro na escola judaica. Depois vieram a formação profissional no Macunaíma e a minha primeira montagem, O Diário de Anne Frank. Cresci cercada pela dança israelense, pelas canções judaicas, pelas histórias que eram contadas nas festas de família, pelo humor judaico, pela literatura ídiche. Mais tarde vieram o cinema, a dramaturgia, escritores como Philip Roth, Amos Oz, Clarice Lispector, Anita Diamant, o pensamento de Hannah Arendt e tantas outras referências que passaram a compor o meu repertório. Toda essa bagagem faz parte de quem eu sou. Não é algo que eu decida colocar em cena; ela já está em mim. Naturalmente, muitas das histórias que escolho acabam atravessando questões de memória, identidade, pertencimento, deslocamento e transmissão entre gerações. Ao mesmo tempo, nunca me interessa falar apenas sobre uma comunidade específica. Quanto mais enraizada uma história está em sua singularidade, mais ela é capaz de dialogar com o universal. É isso que me emociona. Uma família pode falar de todas as famílias. Uma tradição pode revelar perguntas que pertencem a qualquer ser humano. Também percebo que minhas escolhas nem sempre são completamente conscientes. A intuição exerce um papel enorme no meu processo. Algumas histórias simplesmente não me deixam em paz. Elas permanecem comigo durante meses ou anos, até que eu compreenda que precisam ganhar forma. Hoje tenho pensado cada vez mais na potência dessas narrativas em diferentes linguagens. O teatro continua sendo a minha casa, mas também tenho vontade de ampliar essa voz para o audiovisual, permitindo que essas histórias encontrem outros públicos e outras formas de existir.

GC – Mazal Tov: do que se trata a peça e qual seu papel nela?

DF – Mazal Tov tem origem no best-seller da escritora belga J. S. Margot. O espetáculo acompanha Margot, personagem por mim interpretada, que é uma estudante de línguas latinas que vive na Antuérpia e namora Nima, um refugiado iraniano. Ao ser contratada para auxiliar uma família judaica ortodoxa, ela passa a frequentar uma casa regida por tradições, valores e códigos muito diferentes daqueles que conhece. Margot chega como alguém de fora e, justamente por isto ela observa, pergunta, se encanta e, aos poucos, percebe que conhecer profundamente o outro também pode significar rever a si mesma. E é justamente em tudo isto que o espetáculo encontra sua força.

GC – Como jornalista formada, de que forma o jornalismo alimenta a sua criação artística e vice-versa?

DF – A verdade é que eu sempre quis fazer teatro. Desde muito nova. Mas minha mãe, com toda razão, tinha receio da instabilidade da profissão e não permitiu que eu cursasse Artes Cênicas naquele momento. Acabei escolhendo o Jornalismo, que também dialogava com algo que sempre me fascinou: as histórias e as pessoas. Hoje percebo que essa escolha me deu muito mais do que um diploma. O jornalismo me ensinou a pesquisar, a desconfiar das respostas fáceis, a contextualizar acontecimentos e, principalmente, a fazer boas perguntas. Esse olhar investigativo acompanha todos os meus processos criativos. Antes de montar um espetáculo, passo meses lendo, pesquisando, ouvindo pessoas, tentando compreender o universo daquela história. Faço isso para uma peça de teatro da mesma forma que faço quando preparo uma narração oral. Também foi no jornalismo que descobri o prazer da escrita e da entrevista. Sempre gostei de conversar, de ouvir trajetórias e de entender como cada pessoa constrói sua visão de mundo. Isso acabou encontrando um espaço muito natural no teatro, que também nasce da observação da vida. Por outro lado, a atriz ajudou muito a jornalista. A improvisação, por exemplo, sempre foi uma ferramenta importante no meu trabalho. Durante a iniciação científica, inclusive, pesquisei justamente as relações entre improvisação teatral e entrevista jornalística. Descobri como a escuta, a presença e a capacidade de reagir ao inesperado aproximam essas duas áreas muito mais do que imaginamos. Hoje não exerço o jornalismo profissionalmente, mas ele continua presente em tudo o que faço. Acho que a jornalista nunca foi embora; ela apenas encontrou um outro lugar para existir, a serviço da arte.

GC – No seu projeto Quem Conta Vira História – Contar para lembrar, ouvir para viver, você une narração e música em uma experiência imersiva e sensorial. O que o público de hoje mais precisa reaprender sobre o ato de escutar uma história?

DF – Em 2010, ouvi uma reflexão do dramaturgo Luis Alberto de Abreu que nunca mais esqueci. Ele dizia que, nas comunidades tradicionais, o narrador contava histórias sobre a Vida, com “V” maiúsculo, para que cada pessoa pudesse compreender melhor a sua própria vida, com “v” minúsculo. Essa imagem me acompanha até hoje. Vivemos em um tempo de excesso de informação, velocidade e dispersão. Raramente nos reunimos para simplesmente escutar alguém. Aos poucos, fomos perdendo esses espaços coletivos de presença — em torno de uma fogueira, numa praça, numa sala, onde histórias circulavam de geração em geração e ajudavam a construir uma memória comum. Mas não acredito que tenhamos desaprendido a escutar. Acho que continuamos profundamente disponíveis para isso. Só precisamos de um tempo e de um espaço que favoreçam esse encontro. Percebo isso sempre que conto histórias. Muitas vezes sou contratada para apresentações voltadas às crianças, mas observo os adultos igualmente envolvidos. Pais, professores e avós acabam sendo atravessados pelas narrativas tanto quanto os pequenos. Porque uma boa história não tem idade. Ela nos alcança em algum lugar muito íntimo. Contar histórias continua sendo um ato profundamente humano. Exige presença de quem conta e de quem escuta. É nessa relação que a narrativa ganha vida. Nenhum livro, espetáculo ou conto acontece sozinho; ele acontece entre as pessoas. Talvez seja justamente isso que mais precisemos preservar hoje: a capacidade de estar verdadeiramente presentes diante de uma história. Porque, quando escutamos com atenção, descobrimos que, de alguma forma, ela também está falando de nós.

GC – Você atuou no cinema em Vazante, da Daniela Thomas, e no Centro Cultural FIESP/SESI-SP. Qual foi o momento mais desafiador da sua carreira até aqui e o que ele te ensinou?

DF – É difícil escolher apenas um desafio, porque cada projeto exige que eu aprenda alguma coisa nova. Mas existem dois momentos que permanecem muito vivos na minha memória. O primeiro foi minha participação em Vazante, dirigido por Daniela Thomas. Era a minha estreia no cinema. Fui para o Serro, em Minas Gerais, sabendo que faria uma pequena participação, mas com uma enorme responsabilidade: abrir a narrativa do filme. Eu tinha pouca experiência diante das câmeras e praticamente nenhum tempo de preparação. No primeiro dia de trabalho, toda a equipe estava na locação e eu permaneci sozinha na cidade. Em vez de viver essa espera como um vazio, transformei aquele tempo em preparação. Caminhei pelas ruas, subi montanhas, li o material de referência e procurei encontrar, sozinha, um caminho para aquela personagem. No dia seguinte, já caracterizada, passei horas aguardando o momento da filmagem. Quando finalmente chegou a minha vez, restavam poucos minutos de luz natural. Foram poucas tomadas, tudo muito intenso e muito rápido. Saí dali com a certeza de que queria voltar muitas outras vezes ao cinema. Aquela experiência me mostrou que, independentemente da linguagem, o trabalho do ator continua sendo o mesmo: estar inteiro no instante presente. Mas talvez o maior desafio da minha trajetória tenha sido O Vazio na Mala. Idealizar um espetáculo, pesquisar a história da própria família, reunir uma equipe, enfrentar anos de desenvolvimento e finalmente estrear no Teatro do SESI-SP foi uma experiência transformadora. Vinte anos antes, eu havia voltado da Europa e encontrado naquele teatro um espaço fundamental para a minha formação. Estrear ali um projeto tão íntimo teve um significado muito especial. O que mais me marcou naquele processo foi perceber que é possível produzir arte com dignidade quando existem instituições comprometidas com a criação artística. As condições oferecidas pelo SESI-SP — tempo de pesquisa, estrutura, equipe técnica e respeito aos artistas — infelizmente ainda são exceção no nosso país. Poder dedicar energia à criação, e não apenas à sobrevivência da produção, foi um presente raro. Quando a temporada terminou, senti que tinha escalado uma montanha. Não porque o caminho tivesse sido fácil, mas porque ele confirmou algo em que sempre acreditei: as histórias mais pessoais podem encontrar um lugar profundamente coletivo quando chegam ao palco.

GC – Para quem está começando agora como atriz e produtora cultural no Brasil, que conselho você daria que gostaria de ter recebido no início da sua trajetória?

DF – Talvez eu dissesse, antes de tudo, para cultivar a curiosidade. O teatro é muito maior do que qualquer um de nós. Ele existia antes da nossa chegada e continuará existindo depois. Quanto mais cedo entendemos isso, mais liberdade temos para experimentar, aprender e construir o nosso próprio caminho. Quando comecei, era apaixonada pela linguagem do palhaço. Fui estudar na Inglaterra imaginando que voltaria ao Brasil para trabalhar como clown em hospitais. A vida, no entanto, me apresentou outros encontros. Descobri a potência da palavra, da dramaturgia, da narração de histórias e do teatro de texto. Se eu tivesse me prendido a uma única ideia sobre quem deveria ser, provavelmente teria perdido muitas oportunidades de crescimento. Por isso, acredito que quem está começando deve conhecer diferentes linguagens, assistir a muitos espetáculos, ler, viajar quando for possível, conversar com artistas de gerações diversas e permanecer disponível para mudar de ideia. A formação de um artista não termina nunca. Também diria para não ignorar a produção cultural. Mesmo quem sonha apenas em atuar ganha muito ao compreender como um espetáculo se realiza, como uma equipe se organiza, como um projeto é viabilizado. Produzir não significa abandonar a criação; muitas vezes, significa criar as condições para que ela aconteça. Mas, acima de tudo, eu diria para proteger aquilo que despertou o desejo de fazer teatro. A profissão traz dificuldades, inseguranças e muitas incertezas. É fácil perder de vista o encantamento inicial. Voltar, de tempos em tempos, àquela primeira emoção — à pessoa que um dia se apaixonou por uma história, por um palco ou por um personagem — talvez seja a melhor maneira de seguir adiante. No fim das contas, acredito que nosso trabalho é simples e, ao mesmo tempo, profundamente complexo: reunir pessoas para compartilhar uma história. Enquanto houver alguém disposto a contar e alguém disposto a escutar, o teatro continuará cumprindo a sua função mais antiga: lembrar que somos humanos porque somos capazes de imaginar a vida do outro.

Fotos:

Andréia Machado

Rafa Marques/Blog do Arcanjo