MOACYR SCLIAR, NOSSO GRANDE ESCRITOR E A INFLUÊNCIA DO JUDAÍSMO EM SUA OBRA – POR MENDY TAL
“Formado, eu pensava em dedicar todas as minhas energias à profissão médica. Mas ser ou não escritor nem sempre é questão de decisão pessoal. Quando eu menos esperava, e num gesto quase automático, pegava uma caneta, uma folha de papel, e escrevia.
Fui assim colecionando histórias que, no entanto, guardava na gaveta: aprendera a ter paciência. Ao fim de seis anos eu tinha uma coleção de textos ficcionais que representavam o melhor que eu podia fazer: se isto não é bom, eu pensava, então não sou mesmo escritor e é melhor largar esta coisa de vez.”
Moacyr Scliar não foi só um escritor: ele pensava a condição judaica à luz de sua arte. Para ele, judaísmo é a própria literatura – isto é, o judeu (ou seja, o expulso, o estrangeiro, o excepcional) escreve porque busca entender sua complexa condição existencial e sua relação controversa com o mundo.
Moacyr Jaime Scliar nasceu em Porto Alegre (RS), em 23 de março de 1937. Seus pais, José e Sara, eram europeus que migraram para a América em busca de melhor sorte. Judeus, haviam sido vítimas de perseguições em sua terra natal, e o Brasil se apresentava como nação acolhedora, que de modo amistoso e promissor recebia os que a procuravam.
Ele passou a maior parte da infância no Bom Fim, o bairro porto-alegrense onde se instalou a maioria dos judeus que escolheu a capital do Estado para morar. Foi alfabetizado pela mãe, que era professora primária. Seu pai e sua mãe eram exímios contadores de histórias.
A partir de 1943, cursou a Escola de Educação e Cultura, conhecida como Colégio Iídiche. Em 1948, transfere-se para o Colégio Rosário, concluindo o ensino médio.
As primeiras experiências com a literatura datam de 1948. Também, por essa época, recebe um prêmio literário, o primeiro de muitos que se sucederiam ao longo de sua vida.
Mas, profissionalmente, decide-se pela medicina, ingressando na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1955. A medicina constitui igualmente a matéria de seu livro inaugural, Histórias de um médico em formação, de 1962, ano em que concluiu o curso universitário. Scliar fez pós graduação em medicina em Israel.
Em 1965, casou-se com Judith Vivien Olivien. O filho do casal, Roberto, nasceu em 1979.
Suas duas carreiras – a de escritor e a de médico – e são percorridas juntas, complementando-se mutuamente.
A criação em meio ao judaísmo faz com que essa cultura se mostrasse presente em boa parte da obra de Scliar. É o que aponta Wremyr Scliar, irmão do escritor, em seu artigo A influência Judaica na Literatura de Moacyr Scliar, publicado em um dossiê da USP.
Para o irmão, “Moacyr era fruto do judaísmo, mas dele não foi um personagem estático: ao contrário, atuou como escritor e como personalidade sobre o judaísmo”.
Wremyr conta que, mesmo sem praticar a religião, grande parte dos personagens criados pelo irmão foi inspirada em parentes, conhecidos ou personalidades judias. Além disso, as leituras e o ofício de ser escritor de Moacyr foi algo germinado em seio familiar — um ambiente judaico.
O humor amargo e a melancolia, típicos da literatura judaica, se explicam por isso. No caso de Scliar, acrescente-se seu humanismo e sua preocupação com os deserdados – como no brilhante “A Mulher que Escreveu a Bíblia”, a história de uma das mulheres de Salomão (a mais feia) que recebe a incumbência de relatar a história do mundo e dos judeus.
Pode-se dizer que Scliar foi o nosso Bashevis Singer, o autor polonês que, embora escrevesse em iídiche e abordasse o universo judaico dos shtetl de seu país, conseguia falar de toda a humanidade.
A diferença é que Scliar era brasileiro, e com isso ele acrescentava uma bossa peculiar a seu texto, uma quase inocência – apenas na aparência, claro, porque a malícia é um dos traços mais interessantes do autor.
Scliar publicou mais de setenta e quatro livros. Seu estilo leve e irônico lhe garantiu um público bastante amplo de leitores, e em 2003 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, tendo recebido antes uma grande quantidade de prêmios literários como o Jabuti (1988, 1993 e 2009), o Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) (1989) e o Casa de las Américas (1989).
Suas obras frequentemente abordavam a imigração judaica no Brasil, mas também tratam de temas como o socialismo, a medicina (área de sua formação), a vida da classe média e vários outros assuntos. O autor teve obras suas traduzidas para doze idiomas.
A propósito de seu judaísmo, Scliar escreveu: “Diferente do que pensam os preconceituosos, o judaísmo está longe de ser uma coisa só, uma entidade monolítica (e conspiratória).
A aproximação ao judaísmo varia amplamente: pode ser religiosa, pode ser tradicional, pode ser cultural.
Nunca recusei minha condição judaica. Nascido e criado no Bom Fim, o bairro dos imigrantes judeus de Porto Alegre, desde muito cedo tive uma intensa vivência comunitária: ouvia falar iídiche, comia pratos da culinária judaica e, sobretudo, tive uma mãe judia daquelas de livro, superprotetora e alimentadora.
Mas isso não impediu que surgisse em mim a consciência da diferença e do estigma; a certa altura concluí que estava irremediavelmente condenado ao Inferno, onde queimaria por toda a eternidade. Muitos anos de vida (e muitos anos de análise) ajudaram a superar este e outros conflitos; hoje tenho orgulho do meu judaísmo.
Não sou religioso, mas a condição judaica vincula-me a uma rica cultura, exemplificada por nomes como os de Marx, Freud, Kafka, Benjamin, Bashevis Singer, Einstein e Chagall, que marcaram nosso mundo. E, conflitos à parte, o Estado de Israel é um exemplo de dinamismo e de progresso. Um provérbio em iídiche diz que ‘é duro ser judeu’. Verdade. Mas é gratificante também”.
Este grande personagem judeu morreu em 27 de fevereiro de 2011, aos 73 anos, por complicações decorrentes de um AVC.
Moacyr Scliar era um grande torcedor do Cruzeiro, de Porto Alegre. Devido a sua morte, os jogadores do Cruzeiro fizeram uma homenagem para este torcedor-símbolo do clube, entrando de luto na partida contra o Grêmio, no dia 27 de fevereiro, que contou com um minuto de silêncio em homenagem a Scliar.
Mendy Tal
Cientista Político e Ativista Comunitário







