BEN EZRA, A SINAGOGA MONUMENTO NACIONAL DO EGITO – POR FELIPE DAIELLO
Atualmente, Ben Ezra sob proteção do Departamento de Antiguidades do Egito, em função dos danos e desgastes de séculos, das restaurações no século XVI D.C., do incêndio de 1889, das demolições eventuais, tem visão diferente da inicial.
Manchete 01. Fuga para o Egito. Local de acolhida
Localizada na parte antiga do Cairo, no bairro árabe de Fostat, tem muitos segredos para repartir. Sua fundação ocorre durante o domínio de Alexandre o Grande, lá pelo ano 350 a.C. quando o conquistador em contato com o profeta Geremias, já envelhecido e com cabelos brancos, procurando saber se os augúrios dos céus confirmam que ele conquistará o mundo, dá permissão para a construção da sinagoga de Ben Ezra.
Desde épocas anteriores o Egito sempre era local que acolhia com boa vontade os hebreus sempre em diáspora constante desde a destruição do primeiro templo pelos assírios. Em constante deslocamentos desde Síria, Babilônia, Pérsia e Judeia, no Egito encontramos comunidades judaicas que davam apoio aos que procuravam refúgio provisório ou não.
A Sagrada Família, avisada por anjo, fugindo da perseguição e da morte decretada pelo Rei Herodes I aos dos inocentes masculinos nascidos no ano da Estrela de Belém, pois sabe que nasce um grande soberano que vai mudar o Mundo e o que o obriga eliminar o futuro concorrente. Como família judia recebe o apoio da comunidade local, obtendo abrigo numa gruta onde hoje encontramos local de orações.
Durante 3 anos a Família Sagrada vive no Cairo em local bem perto da Sinagoga Ben Ezra, onde podiam realizar as suas orações. Só após a morte de Herodes I, o Grande, Jesus e seus pais retornam para Nazaré.
Manchete 02. Cooptas
Os séculos passam, a religião do Nazareno chega ao Egito, os cristãos cooptas constroem igreja ao lado da gruta sagrada que abrigou Jesus e a sua família, o conjunto fica ao lado da Sinagoga Ben Ezra, paredes coladas.
O tempo é implacável, a comunidade judia em constante movimento fica reduzida, a sinagoga entra em decadência e as suas dependências são ocupadas pele Igreja Coopta, agora dedicada a São Sergio. A construção do segundo tremplo em Jerusalém provocou o retorno às origens sagradas. No entanto, após a destruição do 2o templo pelas legiões romanas de Tito em 70 d.C., muitos retornam para o Fostat no Egito acompanhando o rabino com seu Torah e livros de preces.
Durante o domínio romano, no bairro árabe do Cairo, fortaleza denominada de A Babilônia é edificada junto a igreja copta no bairro judeu e dos vestígios da sinagoga Ben Ezra anexos a igreja coopta. Nos séculos seguintes, incêndios. terremotos e distúrbios políticos e religiosos alteram as características do bairro judeu que precisa ser reconstruído usando as pedras da Fortaleza Babilônia.
No século 9 d.C. já no período dos califas no Egito, a comunidade judaica solicita ao sultão Ibn Toulon espaço para ter um cemitério e uma sinagoga. A sugestão foi o pagamento de 20 mil dinares ao patriarca da Igreja Coopta por cancelamento de dívida impagável do sultanato em troca da devolução da área da antiga sinagoga, mesmo com duas áreas usadas como confessionários o que na atualidade corresponde a uma mudança na arquitetura tradicional na da sinagoga.
Manchete 03. Maimônides
Para os adeptos da estrela de David o local estaria associado ao salvamento de Moises pela filha do Faraó ao retirá-lo no berço que o Nilo transportava, cujas margens na época tinham outra localização. Fragmento de mármore encontrado nas bases das fundações apresenta inscrições que podem justificar o episódio bíblico. Outra versão, importante para a escolha do local, teria sido o fato de que Moisés para convencer o faraó a libertar o povo hebreu aqui orou a Jeová para encontrar a solução adequada a mudar a decisão inabalável do faraó. Tradições de séculos.
Maimônides, o filosofo e teólogo judeu nascido na época dourada do Califado de Córdoba em 1135 a.C. de família abastada desde cedo mostrou capacidade intelectual elevada o que o projeta na sua comunidade. Perseguido pela chegada dos fundamentalistas vestidos de preto vindos da Mauritânia, foge para o Marrocos, para Tanger, onde se dedica à medicina, ciência que lhe traz prestígio e o projeta para cuidar do Sultão e da sua família no Cairo. Rambam, como é conhecido no Egito, frequenta a Sinagoga de Ben Ezra, onde restaurações posteriores encontram cartas e atas com a sua assinatura.
Durante 10 anos, Rabi Moschê ben Maimon trabalha para codificar os seus dois Talmudes, são regras que definem para os perplexos que haviam perdido o seu caminho espiritual durante constantes diásporas. Como Moisés surge um novo reformador que falece em 1204 em Fostat onde foi enterrado. Um personagem rico e admirado
Diz a lenda que Rambam expressara desejo de ser enterrado na Terra Prometida pelo que mais tarde seus despojos num esquife, no dorso de dromedário, partiram sem rumo para o Delta do Nilo, por locais pantanosos, pela costa do Mediterrâneo, pela Faixa de Gaza, passando ao lado de Jerusalém, por Nazaré até chegar ao Mar da Galileia, onde o dromedário se ajoelha. Chegara ao destino. Maimônides foi sepultado em Tiberíades, Seu Mausoléu, em lugar elevado observa as ondas que provem com suas mensagens às margens do Mar da Galileia.
Manchete 04. Camp David.Acordo
No século XII D.C., cerca de 7 mil judeus vivem em Fostat, onde duas correntes convivem em aparente harmonia, cada uma na sua sinagoga: Rabbinic e Karaite.
O Egito é sempre considerado como centro de acolhimento seguro para os fugitivos para os perplexos que retornam. Outras sinagogas são mencionadas, mas hoje apenas Ben Ezra sobrevive e em atividade. No século XIV uma Geniza, do árabe Ganaza, que significa sepultura, foi descoberto com livros sagrados, documentos e Torahs que em mal estado, destruídos pelos anos e pelo uso perdiam o seu valor, mas que não podiam ser destruídos ou queimados. A maioria está agora nos museus de Londres.
Em 1978, o acordo de Camp David que estabelece a paz entre Israel e Egito, com o apoio do Presidente Jimmy Carter e vai dar o Prêmio da Paz para Anwar Sadat, presidente do Egito e para Menachem Begin, primeiro ministro de Israel, a partir de 1983, renova a ideia de restaurar e recuperar a Sinagoga de Bem Ezra, agora monumento histórico e antigo do Egito, a partir de 1984. Foram quase 10 anos de trabalhos, que o terremoto de 1992 obriga a reparos adicionais.
Ben Ezra hoje representa o maior histórico do judaísmo no Egito, bem como um dos maiores símbolos do Cristianismo, pois a comunidade à época dá apoio a Sagrada Família que com Jesus permanece 3 anos no Egito.
Atualmente, Ben Ezra sob proteção do Departamento de Antiguidades do Egito, em função dos danos e desgastes de séculos, das restaurações no século XVI d.C., do incêndio de 1889, das demolições eventuais, tem visão diferente da inicial. O altar apresenta datas de 1902 com decorações no estilo islâmico. As luminárias mostram inscrições com nomes de califas e de sultões. Os artefatos religiosos da sinagoga tanto de madeira como de metal ganham brilho e acabamentos com madrepérola e marfim. Cento e quarenta metros de paredes cercam o templo, no interior 12 colunas de mármore sustentam o teto. Em 1997, a comunidade judaica do Cairo doa biblioteca de 3 mil livros associados a herança hebraica, cuja inauguração conta com a presença do presidente egípcio Hosni Mubarak.
Nossa visita em abril de 2025 coincide com a Semana Santa Cristã, com a Pascoa e o Pessach, período de festividades onde Ben Ezra tem muito a relatar.
FELIPE DAIELLO
FELIPE DAIELLO – Professor, empresário e escritor, é autor de inúmeros livros, dentre os quais “Palavras ao Vento” e ” A Viagem dos Bichos” – Editora AGE – Saiba mais.










