Vestígios Fenícios no Líbano – Por Felipe Daiello

Na costa litorânea do Líbano, cerca de 240 quilômetros de praias voltadas para o azul escuro e profundo do Mar Mediterrâneo, estamos a procura os vestígios da civilização fenícia. Espremidos entre montanhas e o mar, com poucas áreas de cultivo, os primeiros habitantes dependiam da pesca e do comércio marítimo. De origem semítica, em 1300 a.C. a chegada do povo do mar com maiores conhecimentos náuticos vai alterar o poder político e econômico da região. A Fenícia entra na história do Mediterrâneo.

Usando a madeira das florestas de cedro eles constroem embarcações, onde olho mágico e protetor nas proas sinaliza a chegada de raça de navegadores e de comerciantes. Os fenícios vão ampliar as rotas comerciais existentes, preenchem os vazios existentes, fundando colônias na Sicília, na Sardenha, no sul da Espanha e no norte da África, onde Cartago será a futura rival do nascente Império Romano. No início, simples entrepostos comerciais, importantes no intercâmbio mercantil ou nos escambos.

Usando as baias e acidentes naturais portos são construídos, serão as bases de onde os itens fabricados nas suas oficinas serão exportados. Artigos de ferro e de bronze, vidros coloridos, joias, estátuas de deuses, madeiras, tecidos, principalmente os de cor púrpura destinados aos reis, aos potentados e nobres, entram nas listas de trocas ou de venda.

No retorno trazem minérios, cereais, azeites, essências aromáticas, cavalos, escravos, pedras preciosas, ouro e do Egito o papiro, matéria prima para a confecção dos papeis e documentos oficiais e do comércio. Para facilitar o desenvolvimento do comércio criam alfabeto com 22 caracteres, todos consoantes, para substituir os símbolos cuneiformes e os hieróglifos, o método será aperfeiçoado pelos gregos. São quatro as principais cidades.

Tiro e Sidon ao sul de Beirute e Biblos e Trípoli ao norte. Elas funcionavam como cidades estados independentes, cada uma com Senhor Espiritual, o Baal ou Baalit se feminina, como ente protetor. Seus ritos religiosos, criticados pelos hebreus incluíam sacrifícios humanos, quando crianças eram lançadas ao fogo.

O tempo e as invasões de exércitos poderosos destruíram a maior parte do acervo. Alexandre, o grande , sitiou e saqueou Tiro. Gregos e romanos usaram as pedras e as colunas na construção dos seus templos e palácios, as instalações portuárias foram engolidas pelo mar ou apagadas por terremotos.

Tiro, quase na fronteira norte de Israel, apresenta a melhor memória, o antigo porto, com seus molhes e os restos da ilha principal. A zona dos templos ainda com colunas altaneiras em pé, mas na maior parte derrubadas pelo tempo ou por atos de guerra ou vandalismo. Na parte residencial, vestígios de ruas, dos pavimentos, das bases das casas ou dos palácios dão reforço a nossa imaginação. A zonas populares com construções de madeira já foram deletadas pelos séculos.

Sidon, próxima etapa, não tem muito para apresentar: o avanço das águas, a alteração dos níveis do mar, esconderam os detalhes do porto e dos armazéns. O Castelo do Mar, o símbolo atual de Sidon nos remete à época das cruzadas. No souk local a concentração da população muçulmana aparece nos produtos ofertados O museu do sabão permite acompanhar toda a evolução na fabricação desse produto, desde as suas origens quando o azeite de oliva era a matéria prima básica.

Templo dedicado a Eshmun, o Deus da Saúde, localizado numa colina, em ruínas, em fase de restauração é a única recordação que podemos levar Cuidado com as serpentes ,as únicas habitantes do local. O guia matou 5 durante a visita. Imensas e pretas surgiam entre as pedras.

Em Beirute, local do pernoite, no dia seguinte o Museu Nacional era o destino. E o único local onde podemos ver e observar objetos, gravuras, joias, moedas e amuletos da época fenícia. Audiovisual dá ideias de como funcionava uma cidade fenícia nos seus tempos áureos. Essencial a visita para completar a investigação sobre os fenícios.


De volta a estrada, em Trípoli, invadida por refugiados sírios, uma confusão na pobreza ,a cidadela construída pelos Cavaleiros Templários e algumas mesquitas representam as atrações. Pela proximidade com as fronteiras sírias e pela atuação de grupos islâmicos radicais, a sensação de insegurança é grande. Não tente fotografar as unidades militares de controle mesmo se elas não tiverem nenhuma importância logística. Confusão na certa. Como observação: Tanit era a Baalit local.

Biblos no retorno apresenta melhores possibilidades. Associada à época neolítica é uma das cidades mais antigas do mundo, bem antes dos fenícios já tinha conexões com o Egito, fato constatado pelos ídolos, pelas inscrições em hieróglifos, pelo comércio com o papiro uma novidade no campo dos registros. Inclusive foi protetorado do Egito, pagando tributos ao faraó. Ramsés II em guerra com os Hititas passou por aqui até a famosa batalha de Kadesh. Foi conquistada por Alexandre Magno quando se dirigia à Alexandria no Egito. Por sinal a denominação de Biblos foi dada pelos gregos. As ruínas fotografadas sobre as antigas fundações fenícias são todas ou gregas ou romanas, que usaram como material básico nas suas construções todas as pedras, os mármores e colunas deixadas pelos primitivos ocupantes. Adônis ou Astarté eram aqui endeusados , inclusive com romarias anuais em Biblos

Vamos ter que voltar ao museu de Beirute para dissipar dúvidas e poder identificar melhor as digitais deixadas pelos fenícios. Romanos, bizantinos, árabes, cruzados, mamelucos e otomanos foram mestres em apagar ou esconder o passado..


FELIPE DAIELLO

FELIPE DAIELLO – Professor, empresário e escritor, é autor de inúmeros livros, dentre os quais “Palavras ao Vento” e ” A Viagem dos Bichos” – Editora AGE – Saiba mais.

www.daiello.com.br

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